A onda do medo
12 Capitulo 12
Notas iniciais
Kiron
Duke tinha-me avisado que Clea voltava hoje, mas preferi não ir vê-la. Não é que não quisesse. Eu queria. Até demais.
Eu apenas não gostava de a ver assim.
Quando a vi no hospital eu… foi mau. Porque a culpa foi minha. Fui eu que tive a excelente ideia de irmos até Gone Break. A culpa de ela estar assim é minha.
– Dave?
Suspirei e continuei a olhar para o mar.
– O que queres Nely?
Ela sentou-se ao meu lado.
– O Derek vai dar uma festa hoje. Vens?
– Não estou para isso.
Ela suspirou de frustração.
– O que se passa contigo Dave? Já não surfas, passas a maior parte do tempo aqui, mal falas connosco. O que diabos, te deu?
– Preciso de tempo. Não é todos os dias que encaras um tubarão.
– Por amor de deus! Isso já foi á meses. Segue em frente.
Olhei-a incrédulo.
–Tu não estavas lá, Nely. Tu não viste o mesmo que eu ou Clea. Tu nem estives-te perto.
Ela olhou-me aborrecida.
– E então? Vamos lá, Dave. Esquece isso. O tubarão foi apanhado, Clea está viva. Segue em frente.
Suspirei cansado e fechei os olhos com força.
O que diabos, eu fazia com ela?
– Desaparece, Nely.
– Eu sou tua namorada, Dave. Não me podes tratar como se fosse um deles.
Revirei os olhos.
– Para não sofreres mais fazemos assim. Acabou!
Ela olhou-me com receio.
– O que é que acabou?
– Nós dois. Não dá mais para mim.
Levantei-me mas ela agarrou o meu braço.
– Dave, Davi, não podes fazer isto.
– Á não? Vê só.
Voltei-me a afastar mas ela levantou-se e caiu nos meus braços.
Miúda insistente!
– Dave, eu amo-te. Não me deixes.
Olhei para Nely.
Ela é bonita.
Tem as curvas todas no sítio e a aparência de uma modelo.
Mas eu apenas a usei.
E ela sabe disso.
Eu poderia gostar dela, mas a minha cabeça está sempre noutra menina.
E agora ela está mais longe do que nunca.
– Mas eu não te amo, Nely. Nunca o fiz. És bonita, arranja alguém que goste de ti. Comigo não dá mais.
Afastei-a de mim e deixei-a lá a gritar.
Porque ando sempre com as malucas?
Na manhã seguinte levanto-me cedo como sempre, mas a minha prancha fica em casa encostada a um canto.
–Ainda não é hoje amiga.- Sussurrei para a prancha e suspirei saindo de casa. Sabia que ela ia ficar ali por uns tempos.
Quando chego á praia a primeira coisa que vejo é uma menina de cabelo loiro comprido encaracolado na areia com um cão cor de arreia.
Eu podia conhecer Clea a quilómetros de distância.
Duke, Owen e os outros estavam na água e senti raiva por os irmãos dela. Eles não deviam deixá-la sozinha.
E se lhe acontece algo?
Abanei a cabeça e andei até ela.
– Pará!- Disse Clea rindo.
O cão lambia-lhe a cara enquanto ela ria.
Sabia bem ouvi-la rir. O simples som da doce voz dela me fazia sentir algo dentro de mim.
Eu sabia o que era.
Sabia-o desde que ela tinha 8.
– Ei, Sullivan.- Disse sentando-me ao lado dela.
Ela virou a cabeça para me olhar mas os olhos dela estavam para baixo.
Até assim ela era bonita.
– Ei, Kiron- Disse entre o riso.
Ela era a única pessoa que me chamava pelo meu primeiro nome e eu gostava disso. Da forma como ele parecia de outro língua na boca dela.
Ó deus, a boca dela.
Concentra-te Kiron, porra.
– Quem é o, lambidas?
Ela riu mais.
– É o, Dóris.
– Dóris, não é nome de mulher?- Provoquei.
– Cala a boca!
Sim, ela ainda era a minha Clea.
Eu ri e olhei para o mar.
Eles estavam a arrasar nas ondas.
–Porque não estás no mar?
Virei-me para ela.
– Não me apetece.
Ela ergue as sobrancelhas.
– Sempre te apetece. O que mudou?
–Apenas não tenho vontade agora.
Ela não estava a acreditar em mim, mas não queria dizer a verdade. Pelo menos ainda não.
– Quando foi a ultima vez que surfas-te?- Perguntou-me depois de um tempo.
O que eu ia-lhe dizer?
A última vez foi quando quase morresses-te?
– Um dia destes.- Disse.
Ela revirou os olhos.
– Quando, Kiron?
Miúda, chata.
– Posso responder por ti?- Ela não esperou pela minha resposta e continuou- Foi á dois meses atrás antes de um ataque de tubarão. Acertei?
Ela conhecia-me, não lhe podia esconder nada.
– Talvez.
– Kiron- Ela gemeu o meu nome e enterrou a cabeça entre o pêlo do cão.
– Porquê eles te deixaram aqui sozinha?- Perguntei mudando de assunto.
Ela levantou a cabeça.
– Porque eu os obriguei.
Eu sorri.
– Pois, porque tu és uma miúda dura, não é?
– Tens alguma dúvida?- Ela empurrou-me com o ombro fazendo-se de forte.
Eu ri.
– Nenhuma. Sorte a minha se pensar o contrário.
Ela revirou os olhos mas sorriu.
Deitou-se para trás e Dóris deitou-se ao lado dela.
Ela mexia na camisola mostrando um pouco do umbigo.
– Posso ver?
Ela mordeu o lábio inferior mas assentiu.
Puxei a camisola dela para cima para revelar uma fileira de marcas vermelhas na sua pele de porcelana. As marcas começavam de cima para baixo conforme o tubarão lhe mordeu.
Merda, deve ter doido.
Toquei devagar fazendo estremecer.
– Tudo bem?- Perguntei.
Ela assentiu e continuei.
Podia sentir os batimentos do seu coração na minha mão. Ela era quente e suave.
– Como foram as duas semanas na tua avó?- Perguntei para romper o ar tenso.
– Foi bom. Apreendi a fazer quase tudo, sozinha.
– Como o quê?
– Cozinhar está fora de questão, mas posso por a mesa, já consigo descer as escadas, já me visto quase sozinha, até aprendi a tricotar
Eu ri.
–A tricotar?
– Sim- Disse escondendo um sorriso.- Já sou razoavelmente boa.
Eu ri ainda mais e deitei-me ao lado.
–Pára de te rir de mim!- Disse não conseguindo esconder o sorriso.
– Vamos lá, Clea. Eu nunca te imaginei a tricotar.
– Para dizer a verdade… eu também não.
Eu ri e deitei-me de lado para ficar a olhá-la.
Disse eu não me cansava.
– É a primeira vez que me chamas Clea.- Disse depois de um tempo.
– É?
Ela assentiu.
– Erro meu- Disse fazendo-a rir.
– Posso… posso pedir-te um favor?
– Chuta.
– Podes cá vir amanhã?
– Posso. Porquê?- Perguntei curioso.
Ela mordeu o lábio inferior.
– Preciso de ir até á água, mas eles não me querem levar. E sozinha não é boa ideia eu ir.
Lá isso tens razão.
– Se vais sozinha para a água eu mato-te- Disse sem poder-me impedir.
Ela revirou os olhos.
– Por isso é que preciso da tua ajuda. Eu quero ir, eles não me deixam, és a minha única opção.
– Fico feliz por ser a tua ultima escolha.
Ela abriu a boca e depois fechou-a.
– Não é isso que eu queria dizer Kiron.
– EU sei. Estava brincar.
– Então…
– Então, tudo bem. Eu posso-te ajudar quanto a isso.
Ela sorriu aliviada.
– Obrigado.
Eu sorri como um bobo.
O que sempre fazia quando estava ao lado dela.
– Sem problema. Precisas que te vá buscar a casa?
– Não. Eu posso andar só, desde que leve Dóris.
Assenti mesmo que ela não visse.
– Encontra-mo-nos aqui de manhã?
– Combinado.
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