A onda do medo
10 Capitulo 10
Notas iniciais
No dia seguinte eu tive alta do hospital para poder viajar nesse mesmo dia para casa da minha avó.
– Eu posso ir.- Disse Owen.
– Eu sei mano, mas eu quero ir sozinha.
Ele tinha o braço ao redor da minha cintura dirigindo-me pelo aeroporto.
– Não é boa ideia ires sozinha assim.
– Eu só estarei sozinha do avião até aterrar. E eu tenho ajudantes, lembras-te?
Disse referindo-me á enfermeira que Dr. Fell tinha arranjado para me acompanhar.
– Eu sei, mas és a minha maninha. Não gosto de tu ires sozinha assim, ainda mais depois do que aconteceu.
Descansei a cabeça no seu ombro.
– Relaxa Owen. Vou ficar bem. Eu prometo. São só duas semanas.
Ele suspirou derrotado e beijou-me na testa.
– Tu é que sabes.
–Claro que sim.
Senti uma mão no meu braço.
– É minha vez.- Disse Duke.
Afastei-me de Owen e abracei-o.
– Eu não vou dizer para teres cuidado porque esse é o trabalho de Owen.
Eu ri e beijei-o.
– E eu não esperava outra coisa.
Neil veio a seguir. Antes me ajoelharia para o abraçar mas hoje não. Eu gostaria de o fazer mas... as circunstancias sempre atrapalham.
– Neil, ficas cá até eu voltar não é?
– Sim. Vou ficar á espera que me ligues todas as noites.
– Combinado- Sorri e beijei-lhe na testa enquanto que ele me abraçava.
Minha mãe e Nat foram os próximos, sem muito para dizer. Já tinham dito tudo ontem. E por fim meu pai.
–Prometes voltar com a alma no sítio?- Perguntou abraçando-me.
– Isso não é possível, pai. Fiquei sem o surf. Mas eu prometo que vou tentar seguir em frente.
– Assim mesmo.
Despedi-me com um último aceno e segurei-me á enfermeira Tina.
–Vamos nessa?- Perguntou-me e eu ri.
– Vamos nessa.
2 Horas depois — destino
Tina pegou as nossas malas e depois de eu muito insistir deu-me uma para eu levar.
– CLEA!
Ouvi minha avó gritar e sorri.
Braços me rodearam e me puxaram contra ela. Um calor me percorreu. Nos braços de minha avó sentia-me segura.
– Lamento tanto, doçura. Minha menina.
– Está tudo bem, avó. Estou a aprender a lidar com isto.
– Sempre forte a minha menina- Senti a mão dela no meu queixo- Não deixes que isso te impeça de continuares a viver a tua vida. Ainda estás viva e de boa saúde.
– É o que eu me farto de dizer a eles, mas não me ligam.
– Eles são galinhas demais.
Eu ri e andei abraçada a ela.
– Como está Alakai?
– O mesmo doido de sempre. Ninguém o pára.
Alakai era o cão de minha avó. É um cão da montanha de um castanho lindo.
A casa de minha avó não ficava muito longe do aeroporto e depois de Tina nos deixar lá foi directa para o motel em que ia ficar prometendo vir-me buscar amanhã para os benditos exames.
– Então conta-me. Como é que isso aconteceu mesmo?- Perguntou-me minha avó um tempo depois.
Estávamos assentadas no alpendre, Alakai com o focinho no meu colo.
– Foi, muito bizarro. Nunca pensei ter tanto medo na minha vida. Num momento tive medo da água, como se ela fosse a minha morte. Quando ele me mordeu, eu… simplesmente consegui-me soltar e subir. Mas as ondas eram demais e voltei para baixo. Numa das vezes que a água me empurrou eu bati com a cabeça contra uma rocha e foi isso que me fez perder a visão.
Acariciei Alakai e encostei a cabeça na cadeira.
– Antes de chegar-mos ao hospital, ouvi o que eles diziam. Estavam todos em pânico, a gritar eu apenas queria… parar. Deixar-me levar para onde quer que fosse. Achei mesmo que ia morrer.
Esfreguei os olhos limpando as lágrimas e suspirei.
– Mas não morreste. Estás aqui. Foste forte como só tu sabes ser e sobrevives-te. És uma Victória.
Eu ri para a palavra.
Fora ela que me dera o meu segundo nome. Victória.
– O que queres fazer enquanto estás aqui?
– Hmm, eu queria descobrir o que eu posso fazer mesmo sendo cega. O que eu sou capaz de ainda fazer.
– Muito bem. Então e que tal começar-mos pelo almoço?
– Excelente ideia.
Ela pegou-me na mão e segui-a tentando afastar-me o máximo possível. Um passo de cada vez e eu estava a andar. Minha avó avisava-me quando havia algo á minha frente e eu desviava-me usando as mãos.
Não foi de muita ajuda a preparar o almoço, mas consegui pôr a mesa sem ajuda. E não parti nada, atenção a esse pormenor.
Comemos e passamos o dia a conversar.
Eu contei-lhe sobre a desistência dos meus amigos no surf, a maneira como passaram a me tratar, a sua preocupação.
Minha avó ouviu tudo com atenção como sempre acontecia, e eu podia imaginar o sorriso nos seus lábios.
Minha família tinha medo por mim, apenas reflectiam preocupação, mas minha avó apenas tinha orgulho em mim. Por eu ter conseguido sobreviver a tudo aquilo.
– A tua mãe sempre foi muito cuidadosa. Sai ao teu avô. Ela faz o que faz porque te ama, mas eu admito, é um pouco demais. Mas bem, não vieste para aqui para falar sobre tristezas. Conta-me sobre coisas felizes.
E eu assim o fiz.
Contei sobre os últimos dias antes de perder a visão. Contei o que aconteceu no festival, como todos gostaram da nossa música, contei sobre os bons momentos que tive com os meus irmãos e os meus amigos... e até falei de Kiron. Vá se lá saber o porquê.
Ficámos por ali durante todo o dia, a falar, a cantar, a tocar…
Pela primeira vez depois do que aconteceu, tudo estava no lugar.
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