P.O.V. Henry.

Eu levei Marina para conhecer o castelo e ela apesar de impressionada ficou enjoada.

—Você está bem?

—Eles são... muitos. Moça! Ei moça desce dai!

Ela correu até uma sacada e gritou:

—Não! Ela... ela já tava morta. Fica difícil dizer, com esses figurinos eu fico tão confusa. Não percebo a diferença entre vivos ou mortos.

—Do que está falando?

—Eu consigo ver tudo. É meio que uma maldição.

—Você é amaldiçoada?!

—Não. Eu esqueço que aqui feitiços existem mesmo. To falando que é um fardo mais do que um dom.

—Um dom?

—Eu consigo ver através do véu. O véu que separa os vivos dos mortos.

—Porque não vamos dar uma volta?

—Ta bem.

—Mande o cavalariço preparar meu cavalo.

—Sim, sua Alteza.

—Alteza. Que coisa mais de gente chique.

Ela ficava olhando fixamente o parapeito da janela.

—Quer saber, eu não vou ficar aqui parada vendo esse eco da morte.

Marina subiu no parapeito da janela.

—Moça. Moça. Moça! Me ouça!

Saia de meu caminho. Não tente impedir-me.

—Você não pode se matar.

—Eu prefiro ir para o inferno do que viver para ser desonrada diante da sociedade.

—Você não pode se matar. Porque você já ta morta.

—Está falando sandices.

—Pensa bem! Porque eu posso te ver e ninguém mais pode? Porque eu posso te ouvir e ninguém mais pode?

—Eles podem ouvir-me.

—Tenta ai. Tanta falar com alguém que não seja eu.

—Servo! Servo! Servo!

—Viu? Eles não te veem e nem te ouvem porque você ta morta. Você está do outro lado do véu e nós estamos desse lado.

—Se você está desse lado como você chama, porque pode me ver e ouvir e eles não?

—Herdei da minha mãe. Você deve ter ouvido falar ou lido em algum lugar, mas nunca pensou que fosse verdade, mas ela era. Sou igual a ela. Chamam o que eu sou de elemental. As elementais tem... um pé de cada lado.

—O que?

—Me escuta dona Fantasma. As elementais existem em dois lugares ao mesmo tempo, ás vezes mais de dois. Aqui desse lado e do outro lado onde você está agora. Por isso eu consigo ver você, por isso eu consigo ver tudo.

—Eu sou Lady Marie de Castleburry.

—Eu sou a Marina Galindo. Henry?

—Sim?

—Já ouviu falar de uma tal Lady Marie de Castleburry?

—Já. Dizem as más línguas que ela se engraçou com um servo e ficou grávida, mas os pais a deserdaram e mandaram cortar a cabeça do servo e ela se atirou de uma janela.

—É verdade o que ele disse?

Eu amava Maximilian e ele me amava. Nós iríamos fugir juntos e construir uma vida, teríamos o nosso filho. Eu era dele e ele era meu.

Ela começou a chorar. Chorar de tristeza.

—Sinto muito. E a criança?

—Max. Veio me buscar.

—Ta acontecendo. Ela ta atravessando. Vai, vai com eles.

—Obrigado. Marina Galindo.

—De nada. Eu consegui.

Ela então chorou de felicidade.

—Agora isso é um dom.

Marina pulou do parapeito da janela de volta pra dentro.

—Isso foi intenso.

—O que?

—Pena que vocês não conseguem ver. Ele veio buscar ela, ele e a menininha. Maximilian era o nome do servo, eles levaram ela para o além.

—Venha comigo.

Eu a levei até o estábulo onde o cavalariço já estava me esperando com o meu cavalo.

—Aqui está Alteza Real.

Eu rapidamente subi no cavalo.

—Venha.

—É melhor não. Esse bicho vai me derrubar.

—Esse é Koda. E ele não vai te derrubar.

—Eu não sei andar a cavalo Henry. Sou uma garota da cidade.

Eu desci do cavalo.

—Venha Marina.

—Ele vai me morder.

Tive que colocar sua mão sob o pescoço de Koda.

—Da pra sentir o coração batendo. A minha prima Lucrécia é que é boa com cavalos. Ela tem uma égua chamada Apple Pie. Significa torta de maçã, porque a fazenda Milagre é a maior produtora de maçãs da Argentina.

Eu a peguei de surpresa e a coloquei encima de Koda.

—Henry... Henry eu quero descer. Me desce daqui, ai ele tá se mexendo.

Algo deve tê-lo assustado e ele saiu correndo.

—Henry! Socorro!

—Marina! Parem o cavalo!

Felizmente os servos conseguiram parar Koda antes que ele derrubasse Marina.

Eu montei e assumi as rédeas.

—Consegue controlar?

—Consigo. Vamos dar uma volta por Kingslanding.

—Vai devagar e não deixa ele me derrubar.

Vi que ela estava encabulada de segurar-se em mim. Então, peguei seus braços e os coloquei á volta de minha cintura.

—Não entenda isso mal.

—De forma alguma senhorita.

Nós paramos um pouco no bosque. E ela me disse:

—Você parece mesmo saído de um livro de contos de fadas. Nada disso parece... real. Entende? Você é bom demais pra ser de verdade.

—Não. Você é boa demais pra ser de verdade.

—Eu? Sério? Você bateu a cabeça? Eu não sou Lady, nem Princesa, nem nada. Eu sou a doida que fala com os mortos e faz contato físico com eles.

—Você disse que era uma elemental e que herdou isso de sua mãe.

—É. O meu pai amava ela apesar das esquisitices. Eles eram a alma gêmea um do outro.

Olhei para ela com confusão.

—Clichê eu sei, mas é verdade. Ele disse que com a mamãe foi amor á primeira vista.

—O que se me permite perguntar, o termo alma gêmea significa?

—É meio difícil explicar com palavras, mas vou fazer o meu melhor. A sua alma gêmea é aquela pessoa que no segundo em que o seu olhar cruza com o dela você sabe. Sabe que ela é o seu único e verdadeiro amor, sabe que nenhuma outra pessoa no mundo vai te fazer feliz, sabe que ela é a alma que encaixa na sua. Que completa a sua. É uma conexão mística inexplicável. É como... Romeu e Julieta.

—Romeu e Julieta?

—Nunca leu Romeu e Julieta? Bom, sorte sua que eu sempre trago um exemplar comigo era o livro preferido da minha mãe. O que Deus uniu nem a morte separa.

Ela me estendeu o livro. Era antigo, desgastado e dentro havia uma fotografia de uma mulher.

—Essa é Julieta?

—Não! É a minha mãe. Isabela.

—Ela tinha lindos cabelos cacheados e olhos azuis.

—É. Ela era mexicana, meus pais se conheceram numa viagem que ele fez á Caracas. Eles se casaram e foram passar a Luna de Miel no Peru.

—O que?

—Lua de mel. Vocês não tem lua de mel aqui?

—Não. É algum tipo de ritual?

—Mais ou menos. Ta mais pra uma tradição, depois de casar o casal faz uma viagem e fica alguns meses sozinho, curtindo a companhia um do outro, fazendo amor, viajando conhecendo o lugar, caminhando de mãos dadas essas coisas.

—E os seus pais tiveram uma lua de mel?

—Tiveram. Eles ficaram casados por dois anos antes... dela fazer a travessia.

—Fazer a travessia?

—Morrer. Eu sei que o meu pai ainda sofre com a perda dela.

—Onde você gostaria de passar a lua de mel?

—Paris. A cidade do amor. Ou talvez ir para o Peru como meus pais. Porque a pergunta?

Eu me ajoelhei diante dela.

—Henry o que está fazendo?

—Eu estou completamente apaixonado, louco por você desde o primeiro momento em que a vi. Dê me a honra de desposá-la.

—Casar? Meu pai me fez prometer que não ia casar. Henry, eu to no ensino médio não posso casar. Além do mais eu acabo de ser traída pelo meu ex-namorado e eu pensei que ele fosse o meu único e verdadeiro amor e ele arrancou meu coração. Não to pronta nem pra arrumar outro namorado, muito menos pra casar.

—Você disse não.

—Eu sinto muito, não queria magoar você. Eu só... não to pronta e não seria certo nem comigo, nem com você eu aceitar. Eu não sei como as coisas funcionam aqui em Kingslanding, mas lá de onde eu venho o casamento é o dia mais importante da vida de uma garota, é um dia especial e o casamento é tipo jurar diante de Deus que vai ficar com aquela pessoa até o fim dos seus dias nesse lado. Que será fiel, que vai amá-la e respeitá-la até que a morte os separe e isso não é pouca coisa Henry.

—Marina...

—Além do mais, pelo que eu sei os Príncipes se casam com Princesas e eu não sou Princesa, nem duquesa nem nada. Eu sou só a filha do Diretor de uma escola de dança. Eu não sirvo pra ser Princesa, eu quero ser dançarina. Eu sou uma artista. Sou cantora, sou dançarina, pianista, flautista. Não tenho etiqueta, nem título, nem nada disso. Como é que eu vou ser Rainha Henry?! Nem consigo manter os peixes do meu aquário vivos por mais de dois dias! Como vou Governar sete reinos duma vez?

—Da mesma forma que fez o espírito de Lady Marie ver a luz. Da mesma forma que me fez ver a luz mais brilhante do mundo, você. Você Marina Galindo é a luz mais brilhante que os Deuses colocaram no mundo.

—Essa é a coisa mais romântica que já me falaram. Leia o livro.

—Eu posso ficar com ele?

—Eu empresto. Mas, não posso te dar. Se fosse qualquer outro livro eu daria, mas esse exemplar era da minha mãe ela deixou pra mim tem até uma dedicatória. Por favor, entenda. Eu juro que se fosse qualquer outra coisa, uma coisa que não fosse da minha mãe eu te daria.

—Entendo. Posso ao menos lê-lo?

—Claro. Leve o tempo que precisar. Só tenha cuidado tá? É insubstituível.

—Tudo bem. Eu o tratarei com esmero.

—Acho melhor a gente voltar. Está ficando tarde.

—Vai me ensinar a cavalgar um dia?

—Claro.