A mulher do retrato
9 Capítulo 9
Luíza não sentiu-se bem com o convite. Não queria incomodar de modo algum, forçar uma intimidade que não existia e agora aquela chuva que a prendia no casarão e ela não sabia pelo que esperar. Mas não tinha escolha, ela não poderia mesmo sair em meio ao temporal.
— Sabe que tenho jantado na maioria das noites no meu quarto? Não tenho ânimo para descer- disse a condessa.- Mas você estando aqui já faz com que minha noite seja diferente. Você toca piano, decerto?
— Toco, senhora, mas não muito bem.
— Ah, mas toque alguma coisa pra mim? Sim? -pediu Vitória recostando-se na poltrona.
A menina não viu saída e sentou-se ao piano. Algumas notas saíram erradas, mas, de forma geral, tocou bem, e observou que a condessa estava de olhos fechados, apreciando a música.
Não demorou muito para que Zilda anunciasse o jantar já que tinham se estendido no tempo do chá. Desceram o sobrinho, Felipe, com a noiva e o filho pequeno. Vitória apresentou Luíza novamente e o jantar foi servido.
— Suas avós devem adorar sua companhia, Luíza- disse a condessa em um momento.
— Eu só tenho agora uma avó, mãe de minha mãe, e ela mora no Rio de Janeiro, onde meus pais se conheceram. Não tenho muito contato com ela.-
— Eu queria ter tido netos...-lamentou a condessa. -Tenho Felipe, tenho o Alex- e sorriu para o menino- e agora virão outras crianças, não é, Melissa?
— Madrinha, a senhora sabe que não desejo muitos filhos. Talvez dois, não é, meu bem?- dirigindo-se ao noivo. — E já temos o Alex, então seremos uma família de tamanho médio.- afirmou com convicção a moça.
O jantar terminara e a chuva havia quase passado e Luíza percebeu que já não deveria demorar-se mais. Despediu-se de todos e a condessa fez menção de acompanhá-la até a porta.
— Não se incomode, condessa, por favor! Muito obrigada pela tarde maravilhosa e pelo convite para o jantar. Estava tudo delicioso!
— Sabe, Luíza, pergunte a sua mãe se ainda posso aceitar o convite para o chá na sua casa.
— É claro que sim!- antecipou-se a menina. Amanhã? Minha mãe vai adorar recebê-la. E eu também!- esta última frase sentiu proferir com empolgação exagerada.
— Não...amanhã não poderei. Outro dia, outro dia...-a condessa divertiu-se com a ansiedade da menina.
Zilda acompanhou-a até a porta com ar fechado.
No quarto de Vitória, Zilda ajudava a condessa a acomodar-se.
— A senhora não deveria dar tanta importância às pessoas daqui. Parecem todas interesseiras.- disse Zilda enquanto arrumava a cama da patroa.
— Não seja maldosa, Zilda. Além disso, não preciso de seus conselhos. Sei reconhecer com meus próprios olhos uma simpatia genuína. Diante de tantos problemas, a inocência dessa menina me faz muito, muito bem.
— A senhora deve se lembrar que não é sua neta. Apegar-se, sendo que vai partir em pouco tempo, pode não ser uma boa ideia. Só digo isso para protegê-la e não para me intrometer, a senhora sabe!
— Você se intromete demais Zilda! Não preciso de sua preocupação, só de sua ajuda. Deixe-me sozinha. Boa noite!
O sono de Vitória foi tranquilo como há muito não era e com os tantos fantasmas do passado lhe atormentando, horas de paz eram-lhe essenciais.
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