A mulher do retrato
10 Capítulo 10
Luíza também teria uma noite maravilhosa. Livre da tensão que a dominara durante toda a visita, teve tempo de pensar em tudo que havia vivido, antes tão distante do casarão, agora tão mais próxima. Recordou o que conseguia. O nervosismo era um inimigo e tanto quando tudo que lhe bastaria era estar sentada em frente à condessa, admirando cada palavra sua, cada gesto, os sorrisos poucos mas encantadores. A ocasião havia demandado mais da menina, embora sentisse que havia se saído bem. Em meio às lembranças tão recentes, uma frase da senhora não lhe saía do pensamento e inquietava seu coração: "Parto para São Paulo após o casamento de Felipe!". Algo contra o qual não havia o que pudesse fazer. E agora tinha certeza do que antes era só uma impressão: um dia sem vê-la seria um dia perdido.
Consuelo ficou felicíssima quando soube que Vitória ainda viria a sua casa e não havia declinado o convite. Uma honra, sem dúvidas. Ficou orgulhosa da filha e por alguns dias teria com o que se ocupar, mesmo tratando-se apenas de um chá. Luíza pôs a mãe a par do que havia conversado com a condessa.
— Mas então não se demora aqui? Se o sobrinho já está até noivo...
— Não sei quanto tempo, ela não falou!- suspirou a menina.
A mãe imaginava entender a menina, sempre tão entediada depois da escola. E agora que havia festas e encontros, de repente tudo voltaria a ser como antes.
Luíza aproveitou a manhã para cavalgar. Não chegaria perto do casarão como havia feito, embora, se fosse vista por Felipe ou por Zilda, bastava dizer-lhes que costumava incluir a região em seu percurso diário. Mas preferiu ficar nas terras do pai . Havia mandado entregarem um bilhete a Marcela, uma amiga da cidade vizinha com quem havia sempre estudado. Recebera a confirmação que poderia vistá-la à tarde e foi o que fez.
Marcela sempre fora uma das melhores amigas e estava noiva de um rapaz com quem Luíza não simpatizava. Só fazia falar dos preperativos para o casamento que só aconteceria no ano seguinte, o que entediava Luíza demasiado.
— Você gosta dele? Digo, o que você sente?
— Claro que sim, Luíza. Ele é gentil, me faz rir.
— Só isso?
—Como "só isso"? Há moços que não são divertidos, Luíza!
—Mas você não sente o coração disparar, como se fosse desfalecer? Algo mais forte?
— Isso é bobagem de livro, Luíza. Ninguém sente isso, a não ser mocinhas dos romances.Fazem a gente acreditar que o amor é isso mas é muito mais simples, é a amizade, a convivência!
Luíza lamentava pela amiga que, talvez, jamais viesse a conhecer o amor e se contentava com um relacionamento fadado ao tédio e à indiferença.
— Pois eu já senti tudo o que os livros descrevem e não me conformaria em viver sem nunca ter amado.
—Quem é?- perguntou a amiga atônita.
— Você não conhece. É de Belarrosa.
— É pobre? É pobre! Tenho certeza! Luíza, você não pode fazer isso com seus pais!
— Não é pobre e não vou lhe dizer nada! Você só precisa saber que o amor existe. Vai se casar com esse seu noivo chato e nunca vai amar na vida!
— Você não conhece o Gustavo.
— Conheço o suficiente e ele me dá sono. E você não o ama! Fato! Não tem medo de viver sem amor?
Luíza deixou a amiga desconfiada da existência desse alguém e cheia de perguntas. Para Marcela, a amiga devia estar inventando histórias. Mas preocupou-se com o "viver sem amor".
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