Luíza precisava bradar ao mundo seu amor ao mesmo tempo que não poia dizer a ninguém coisa alguma. Nunca iria realizá-lo mas ela tinha agora convicção que viver sem nunca ter amado de nada valia. O que faria quando Vitória fosse embora ou o que faria para que ela não fosse era a grande e única aflição. Talvez, com a visita dela a sua casa, conseguisse alguma nova informação que lhe ajudasse, mas nada indicava que teria sucesso e o mais certo era que a senhora iria mesmo embora e tudo pareceria apenas um sonho.

Passados dois dias, como Consuelo havia mandado dizer à condessa que teria o prazer de recebê-la qualquer dia que ela desejasse, chegou à casa dos Peixoto a carruagem, muito "chic", o que deixou os empregados de boca aberta, principalmente Amália, que foi recepcioná-la. Beijou a mão da condessa, o que teria deixado Consuelo morrendo de vergonha, mas ninguém viu. Luíza correu à porta e disse à governanta que conduziria, ela mesma, a condessa, dispensando Amália para que cuidasse do chá.

— Minha menina!, disse Vitôria quando a viu.

— Senhora, como está?, e a menina já exibia um largo sorriso.

Consuelo, então, também apareceu à porta e cumprimentou a condessa, não esquecendo de desdobrar-se em desculpas pela tarde em que não pode ir a sua casa.

O chá foi servido e em nada ficava devendo ao chá que Vitória havia convidado.

— Obrigada por ter recebido Luíza naquele dia, condessa!, disse Consuelo ainda se desculpando.

— Mas se a visita dela foi a mais prazerosa desde o dia em que cheguei...- e piscou para a menina, o que a fez ruborizar além de estar muda há alguns minutos.

— Foi um prazer para mim, a senhora não pode imaginar!

Vitória não era dada a esse tipo de visita, normalmente a aborrecia muito, mas um desassossego a obrigara a ir a casa dos Peixoto, talvez a promessa que havia feito a Luíza, pareceu-lhe tão entediada , coitada, e Zilda era uma companhia tão desagradável...

— Luíza me contou que volta para São Paulo tão logo seu sobrinho se case. E quando será? indagou Consuelo que também se preocupava com a estadia da condessa, embora por motivos tão diversos dos de Luíza.

— Eu gostaria que tudo se acertasse em uns três meses no máximo, respondeu Vitória.

Ambas, mãe e filha, permaneceram caladas.

— Luíza me disse que tem vontade de estudar fora de Belarrosa...

— Sim, sim, mas nós preferíamos que ela se casasse logo, as amigas, algumas já estão noivas para se casar...

— Ocorreu-me algo agora, mencionou Vitória, como vocês estão indecisos quanto ao futuro de Luíza e ela me disse que não há muito o que fazer por aqui...-e Vitória já não sabia porque estava dizendo aquilo- Eu pensei que ela pudesse passar alguns dias comigo, fazendo-me companhia...

— Eu adoraria, adiantou-se a menina e, olhando pra mãe, percebeu Consuelo um tanto confusa.

—Deixe-me explicar,continuou Vitória. Pode parecer estranho, mas a juventude de sua filha me traz uma vida, uma alegria a que já não estou mais acostumada, uma vontade de viver que preciso muito enquanto eu estiver aqui em Belarrosa. O meu filho...meu filho morreu aqui, o lugar me deprime muito...E é uma menina inteligente, doce, educada, pode ajudar Zilda a preparar as recepções e até mesmo as providências para o casamento de Felipe.

— É claro que vou! -adiantou-se Luíza sob o olhar reprovador da mãe.

— Eu nem poderia oferecer-lhe nenhum pagamento porque seria ofensivo, você não é uma serviçal. É apenas um convite, alguns dias da semana...

E o chá correu bem, a condessa se foi, dando um tempo para que pensassem na proposta, Luíza disse à mãe que a decisão era dela e que iria aceitar o convite de Vitória, mesmo Consuelo afirmando que não fazia o menor sentido tal convite, que não entendia. Mas Luíza não se importou com o porquê. Iria. O destino lhe estava dando uma oportunidade, mesmo que não soubesse de quê.