A mulher do retrato
11 Capítulo 11
Luíza precisava bradar ao mundo seu amor ao mesmo tempo que não poia dizer a ninguém coisa alguma. Nunca iria realizá-lo mas ela tinha agora convicção que viver sem nunca ter amado de nada valia. O que faria quando Vitória fosse embora ou o que faria para que ela não fosse era a grande e única aflição. Talvez, com a visita dela a sua casa, conseguisse alguma nova informação que lhe ajudasse, mas nada indicava que teria sucesso e o mais certo era que a senhora iria mesmo embora e tudo pareceria apenas um sonho.
Passados dois dias, como Consuelo havia mandado dizer à condessa que teria o prazer de recebê-la qualquer dia que ela desejasse, chegou à casa dos Peixoto a carruagem, muito "chic", o que deixou os empregados de boca aberta, principalmente Amália, que foi recepcioná-la. Beijou a mão da condessa, o que teria deixado Consuelo morrendo de vergonha, mas ninguém viu. Luíza correu à porta e disse à governanta que conduziria, ela mesma, a condessa, dispensando Amália para que cuidasse do chá.— Minha menina!, disse Vitôria quando a viu.— Senhora, como está?, e a menina já exibia um largo sorriso. Consuelo, então, também apareceu à porta e cumprimentou a condessa, não esquecendo de desdobrar-se em desculpas pela tarde em que não pode ir a sua casa.O chá foi servido e em nada ficava devendo ao chá que Vitória havia convidado. — Obrigada por ter recebido Luíza naquele dia, condessa!, disse Consuelo ainda se desculpando.— Mas se a visita dela foi a mais prazerosa desde o dia em que cheguei...- e piscou para a menina, o que a fez ruborizar além de estar muda há alguns minutos.— Foi um prazer para mim, a senhora não pode imaginar!Vitória não era dada a esse tipo de visita, normalmente a aborrecia muito, mas um desassossego a obrigara a ir a casa dos Peixoto, talvez a promessa que havia feito a Luíza, pareceu-lhe tão entediada , coitada, e Zilda era uma companhia tão desagradável...— Luíza me contou que volta para São Paulo tão logo seu sobrinho se case. E quando será? indagou Consuelo que também se preocupava com a estadia da condessa, embora por motivos tão diversos dos de Luíza.— Eu gostaria que tudo se acertasse em uns três meses no máximo, respondeu Vitória. Ambas, mãe e filha, permaneceram caladas.— Luíza me disse que tem vontade de estudar fora de Belarrosa...— Sim, sim, mas nós preferíamos que ela se casasse logo, as amigas, algumas já estão noivas para se casar...— Ocorreu-me algo agora, mencionou Vitória, como vocês estão indecisos quanto ao futuro de Luíza e ela me disse que não há muito o que fazer por aqui...-e Vitória já não sabia porque estava dizendo aquilo- Eu pensei que ela pudesse passar alguns dias comigo, fazendo-me companhia...— Eu adoraria, adiantou-se a menina e, olhando pra mãe, percebeu Consuelo um tanto confusa.—Deixe-me explicar,continuou Vitória. Pode parecer estranho, mas a juventude de sua filha me traz uma vida, uma alegria a que já não estou mais acostumada, uma vontade de viver que preciso muito enquanto eu estiver aqui em Belarrosa. O meu filho...meu filho morreu aqui, o lugar me deprime muito...E é uma menina inteligente, doce, educada, pode ajudar Zilda a preparar as recepções e até mesmo as providências para o casamento de Felipe. — É claro que vou! -adiantou-se Luíza sob o olhar reprovador da mãe.— Eu nem poderia oferecer-lhe nenhum pagamento porque seria ofensivo, você não é uma serviçal. É apenas um convite, alguns dias da semana...E o chá correu bem, a condessa se foi, dando um tempo para que pensassem na proposta, Luíza disse à mãe que a decisão era dela e que iria aceitar o convite de Vitória, mesmo Consuelo afirmando que não fazia o menor sentido tal convite, que não entendia. Mas Luíza não se importou com o porquê. Iria. O destino lhe estava dando uma oportunidade, mesmo que não soubesse de quê.
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