Luíza chegou ao casarão dias depois e não podia imaginar- nem ela e nem Vitória- que menos de quinze dias a separavam daquela sala e do quarto principal. Vitória havia voltado pra casa sem saber o porquê de tal proposta durante o chá, naquele dia, mas já sentindo, até mesmo pela experiência, que algo mais sério lhe estava acontecendo e teve medo. Mas não podia voltar atrás e nem queria. Não havia sido apenas o casamento de Felipe que a levara a Belarrosa e agora mais coisas a prendiam lá, parecia que o destino a queria naquela cidadezinha que lhe fizera tão mal no passado, um passado que agora unia-se ao presente de forma misteriosa.

Vitória esperou por Luíza, que chegou para o almoço e ficaria, de acordo com o que havia combinado com a mãe da menina, até depois do jantar. Zilda recebeu a jovem carrancuda, enciumada, enquanto Vitória sentia-se extremamente feliz e era o que importava. Ficaram conversando na saleta enquanto o almoço não era servido.
— Já avisei a Zilda sobre sua ajuda nos preparativos para o casamento embora me fazer companhia seja sua maior obrigação!- disse a condessa rindo. Luíza nunca havia recebido dela mais que um sorriso e pareceu-lhe ainda mais encantadora.
— Estou a sua disposição, condessa Vitória! — disse a menina rindo também e fazendo-lhe uma reverência.
— Você nunca amou, Luíza? A pergunta direta da condessa desconcertou a jovem.
— Como, senhora?
— Ora, a pergunta foi simples. Se já amou, se já apaixonou-se por um rapaz...
— Não! — respondeu a menina. — Bom, na verdade sim...mas não fui correspondida, senhora!
— Isto me surpreende muito. Como alguém não se apaixonaria por você? Luíza sentiu a face corar.
— A senhora deve ter despertado muitas paixões, não é? Quer dizer, me desculpe...eu não deveria ter falado isso, me desculpe!
Vitória olhou profundamente em seus olhos enquanto tomava um cálice de aperitivo.
— Despertei, sim! Eu fui uma mulher muito bonita! -respondeu a ela sem nenhuma modéstia. -E amei também...eu acho que ninguém deveria passar pela vida sem amar...
Luíza surpreendeu-se por ter dito, ainda com tão pouca experiência em relação aos sentimentos, o mesmo à amiga dias antes e agora ouvir o mesmo da boca da condessa.
— Ainda é bela! Bela e encantadora!- disse Luíza olhando fixamente nos olhos dela também. De onde havia tirado tal coragem, não sabia dizer.
Vitória sorriu e acrescentou:
— Eu sei que é sincera e fico muito, muito feliz de ouvir um elogio seu ainda que eu não me veja assim.
O almoço foi servido. A tarde, passaram conversando e, após o jantar, Vitória já não tinha mais dúvidas da armadilha que o destino havia lhe reservado. Pensou, no entanto, de outra forma: Deus estaria lhe dando uma chance de felicidade ao final de tudo. E decidiu que deixaria seu destino nas mãos da menina. Provavelmente, Luíza só estaria empolgada com sua presença na cidade. Não passava disso. Ela iria embora para São Paulo e tudo se resoveria. Sentiu o peito apertar, mas o sofrimento já lhe era costumeiro.