A mulher do retrato
6 Capítulo 6
Até aquela noite, não havia passado pela cabeça de Luíza quão inadequado, errado e até pecaminoso era tal sentimento. Talvez porque ela tivesse compreendido, mesmo sem nenhuma reflexão mais profunda, que se tratava de algo que nunca se concretizaria. A condessa tinha a idade de suas avós e o pior: era uma mulher! Mas por que Deus a teria colocado em seu caminho? O que sentia era tão genuíno e tão poderoso...seria uma provação divina? A menina era religiosa e claro que essas questões a perturbaram, mas foram logo dissipadas pelo desejo incontrolável de pensar naquela mulher. Era um sonho e parecia maravilhoso vivê-lo.
Luíza desceu para o café da manhã e a mãe ainda não havia levantado.
– D. Consuelo não desceu, disse Amália. Acordou passando mal, provavelmente alguma comida não lhe tenha caído bem. Já levei um suco mas ela não quis.
Luíza subiu desesperada as escadas. O mal estar da mãe podia pôr a perder a tarde com a condessa.
– Mamãe, o que está sentindo?
– Não consigo nem levantar minha cabeça! Não, não abra a cortina! Devo ter comido ou bebido algo que não me fez bem. E o convite da condessa? Precisamos mandar avisar que não poderemos ir.
Luíza não acreditou que isto pudesse estar acontecendo. Perder tal oportunidade que parecia caída dos céus?
– Eu vou, mamãe! respondeu a menina quase sem pensar. Eu vou e represento a família!
– Que ideia, Luíza! O que teria você de interessante para conversar com uma mulher como ela? Ela convidou a mim e o convite se estendeu a você! De jeito nenhum! Chame a Amália. Vou escrever um bilhete! Ai, minha cabeça dói tanto...
– Mamãe, não podemos fazer isto! Ela pode até pensar que se trata de uma desculpa, que estamos envergonhadas, não sei...- Luíza apelou para a vaidade da mãe.
– Meu Deus...talvez você tenha razão- Consuelo pôs-se a pensar com as duas mãos na cabeça.- Talvez deva ir mesmo, tomar um chá com a senhora, dizer-lhe o quanto sinto de não poder estar presente. Quem sabe você não consegue marcar uma outra ocasião. Deus, eu nunca fico doente! Consuelo sentiu revirar-lhe o estômago.
– Luíza beijou o rosto da mãe e saiu aos pulos do quarto. Nem o receio de ficar a sós com a condessa freou o impulso de ir ao seu encontro.
Às 15h estava pontualmente descendo da charrete na frente do casarão.
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