A mulher do retrato
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Vitória sabia que tinha dado o golpe perfeito ao atingir as expectativas de Consuelo em relação ao futuro da filha. Mas sabia também que muito do que falara, ela mesma acreditava: Belarrosa não era lugar para uma moça tão bonita, inteligente e especial como Luíza. Levá-la para São Paulo, apresentá-la à sociedade, quem sabe até arranjar-lhe um bom casamento de fachada, fazia-se necessário e, logicamente por amá-la tanto, preocupava-se com seu futuro.
Consuelo sentiu-se tentada a aceitar a proposta da condessa e convencer o marido de que era o melhor para a filha. Sentia também que não aceitá-la seria uma grosseria-mais uma, pensou, depois da briga de Luíza com Zilda- e não via porque dizer não, embora fosse sentir imensa falta da menina. Em Belarrosa, se Luíza não tinha arrumado um partido até agora, certamente ficaria solteira e isso ela não permitiria.
Naquele fim de tarde, Peixoto chegou e Consuelo tratou de deixá-lo a par do convite da condessa, já plena de argumentos favoráveis à viagem da filha. Peixoto concordou, também se preocupava com seu futuro, mas não entendeu porque Luíza teria agora um quarto no casarão. Por mais que a condessa visse na menina uma neta, não entendia tal necessidade.
Mas a jovem já havia arrumado até sua maleta para os próximos dias e ansiava por estar a sós com Vitória novamente. Não sabia o que iria acontecer. Ela iria até seu quarto? Ela iria ao dela? Zilda nada veria? Carinhos como aqueles da carruagem se sucederiam? Isso a assustava um pouco, mas sabia que tinha que confiar na condessa. Ela era uma mulher experiente. Ademais, o que poderia temer?
Colocou duas camisolas bonitas na mala; os vestidos seriam os mesmos de sempre. Perfume, coisas de higiene. Quando Consuelo entrou no quarto com Peixoto para dar-lhe a resposta que levaria à condessa, Luíza já tinha tudo pronto. Peixoto disse que, apesar da falta que ela lhes faria, dizer não a um convite desse, por mais estranho que tudo, até ali, lhe parecesse, seria perder uma chance que a vida estava oferecendo. Luíza beijou-o muito e agradeceu aos dois pela permissão. Também tranquilizou-os de que a condessa ainda ficaria um tempo em Belarrosa, os arranjos para o casamento do sobrinho ainda não estavam prontos.
Naquela noite, Luíza sentiu que agora, enfim, seriam felizes, ela e sua condessa. Nada nem ninguém poderiam atrapalhá-las. Ainda pensava, contudo, que se Vitória realmente confiasse nela, teria lhe contado os tais segredos do passado. Imaginou, por um momento, que talvez ela não a amasse tanto assim. E se ela fosse só mais um capricho para aquela senhora que tudo tinha, tudo podia? Mas se não a amasse, por que a levaria para São Paulo? Estaria já cansada dela quando fosse hora de deixar o sul...
Preferiu confiar em seu coração, que lhe dizia que Vitória a amava muito. E adormeceu.
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