Luíza chegou, no dia seguinte, ao casarão, com todos os sonhos que cabiam em seu peito. A contragosto, Zilda já havia ordenado que um quarto lhe fosse arrumado e vê-la chegando quase como uma moradora apunhalou o peito da governanta. Sentia-se traída mas, mesmo assim, temia pela condessa. Via a menina como alguém pouco confiável e que talvez arruinasse a missão da senhora em Belarrosa.

O quarto era pequeno mas muito aconchegante. Havia um vaso de rosas vermelhas na cômoda em frente à cama que perfumava todo o ambiente. Zilda garantiu que a condessa havia supervisionado a arrumação e que ela esperava que estivesse do gosto da menina, que o que precisasse, qualquer coisa, era só chamá-la. Luíza pegou as mãos da governanta e agradeceu pelo cuidado. Zilda sorriu e, voltando à cozinha, foi obrigada a admitir que era uma moça meiga, por mais que desaprovasse sua amizade com a patroa.

Luíza começou a desfazer a mala mas foi atraída pelas rosas vermelhas. Puxou uma e teve o dedo ferido por um espinho que não havia sido tirado. Um fio de sangue, de vermelho mais vivo que o das rosas, escorreu-lhe pela mão e hipnotizou-a por alguns segundos. Depois tratou de limpar o machucado para poder continuar arrumando suas coisas. Quando Zilda lhe conduziu ao quarto, observou que ficava no mesmo corredor do de Vitória e, obviamente, tal escolha teria sido proposital. Ficou sentada na cama esperando que a chamassem para o almoço e pensando que, mesmo estando tão íntima da casa,parecia que tudo estava mais formal. Nem tinha sido levada ao encontro da condessa ainda, o que nunca havia acontecido antes.

Finalmente a encontrou à mesa, junto com todos os demais, que já sabiam que era uma hóspede agora. No horário do chá, tiveram tempo a sós entre as constantes intromissões de Zilda ou de um dos criados.

— Espere, hoje à noite, que todos durmam, observe se não há ninguém no corredor e vá ao meu quanto. A porta estará aberta, mas ao entrar, certifique-se de trancá-la bem.

E assim, após passar o restante do dia em ansiedade profunda, Luíza caminhou entre as velas acesas do corredor sem fazer nenhum barulho. Escutava o coração batendo no peito e nada mais. Abriu a porta do quarto principal, entrou e passou a chave, dando-lhe duas voltas.