A mulher do retrato
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Não haviam combinado, as duas, naquela manhã apressada, como poderiam estar a sós novamente. Luíza chegou ao casarão à hora do almoço, como de costume, e ambas trataram-se com a formalidade anterior e preocuparam-se em trocar olhares e sorrisos sem que ninguém os percebesse. Zilda, com a mesma antipatia de sempre, fazia-se presente quase o tempo todo com a desculpa de ver se a patroa precisava de alguma coisa. Estava curiosa para saber o que dissera a menina, no dia anterior, que notícia trouxera que deixara a condessa no estado contemplativo em que a encontrou. Saberia ela do conde Bernardo? E nada lhe dissera a condessa, de quem o passado nada escondia?
Durante o chá da tarde, momentos poucos existiram em que deram-se as mãos por baixo da mesa. Vitória não via com que desculpa poderia conduzir a menina ao quarto novamente. Não poderia correr o risco de Zilda perceber qualquer coisa que fosse. E, ao final do dia, Luíza deixou o casarão sedenta pelos beijos de sua condessa. Mas não estava triste. Passaria a eternidade, se preciso fosse, somente sentada ao seu lado, adorando-a...
Na visita que se sucedera, foi surpreendida por uma ideia de Vitória, após o almoço, que solicitou um passeio pela região. Zilda disse que iria se arrumar, mas a condessa dispensou-a:
— Zilda, hoje Luíza faz-me companhia. Ah, o dia está tão bonito e eu quase nunca saio...
A governanta não compreendeu. A condessa só solicitava saídas por conta do segredo sobre o passado do filho. Teve certeza que Luíza agora sabia tudo sobre o conde Bernardo e desaprovava que a menina estivesse de posse de tal arma contra a patroa. Mas nada podia fazer...Além de tudo, a condessa a estava substituindo por Luíza, logo ela, uma pessoa tão devotada...sentiu ódio da jovem. Quem a condessa pensava que ela era? Alguém que poderia descartar assim?
Na carruagem, assim que o cocheiro fechou a porta, Luíza procurou com desespero os lábios de Vitória. Os beijos foram mais apaixonados, ambas mantinham, às vezes, os olhos abertos enquanto beijavam-se com sofreguidão. Vitória apertou-lhe pela cintura e desceu seus lábios úmidos pelo pescoço da jovem, que arqueou o corpo numa sensação que jamais experimentara. As mãos da condessa agarraram-lhe os seios fartos e Luíza assustou-se.
Ambas afastaram-se, ofegantes.
—Me desculpe! Eu me excedi...- disse Vitória, que, apesar de conhecer desejo semelhante, achava aquele tão novo quanto a menina.
—Eu...eu nunca pensei em nós duas assim...-Luíza estava corada.
— Foi quase sem pensar...olhe, minha menina, eu não sei mais coisas que você. Ou acha que já estive com outra mulher?
—Mulher?
— Ora, você não é uma mulher?
Luíza riu-se ao sentir-se, pela primeira vez na vida, uma mulher.
— Achei que não mesmo...mas não tenho do quê desculpá-la...eu só não tinha pensado...
Na sua ingenuidade, a jovem sentiu que os beijos daquele dia, no quarto da condessa, eram o ápice de sua paixão. Agora, ocorria-lhe que o que havia sentido ali, naquela carruagem, era ainda mais mágico e incontrolável.
Vitória tomou-lhe o rosto carinhosamente.
— Não precisa ser assim...
E beijaram-se novamente, agora de forma mais calma.
— Quis tanto beijá-la ontem...como faremos? Não podemos solicitar passeios quase todos os dias...
— Na verdade eu posso o que eu quiser.- respondeu Vitória. -Mas a Zilda desconfiaria do mesmo jeito...não se preocupe, vou pensar em uma solução.
— E São Paulo, agora? Não pensa mais em ir embora, não é?
Vitória passou a mão em seu rosto com um ar preocupado.
— Também vou pensar em alguma coisa.
No dia seguinte, Vitória chegou, pela manhã e sem avisar, a casa dos Peixoto. Amália lhe fez mil reverências e teve que ser afastada por Consuelo.
— Bom dia, dona Consuelo. Eu vim porque achei prudente.
— Claro, condessa. Entre, por favor.
Luíza viu-a chegar da janela de seu quarto e seu coração gelou. Desceu correndo as escadas.
— Bom dia, condessa!
— Bom dia, Luíza! Vê? Hoje a visita quem faz sou eu! e sorriu.
Luíza preocupou-se mas confiou nela, devia saber bem o que estava fazendo.
— Luíza deve ter lhes contado do desentendimento entre ela e Zilda...
— Contou sim, condessa! Ah, eu sinto tanta vergonha pelo comportamento de Luíza. A senhora já deve ter percebido que ela foi educada como uma princesa...eu não sei o que deu nessa menina...
— Pois eu sei! Minha funcionária, Zilda, é um tanto intratável mesmo...quando pedi que Luíza não voltasse mais, não sabia os impropérios que vinha ouvindo de Zilda e quanto a isso me sinto muito responsável. Fui negligente!
E desta forma, Vitória ia confirmando a versão inventada por Luíza.
— Mas o que também me trouxe aqui foi um desejo que tive e vou explicar-lhe, dona Consuelo.
Luíza percebera que aí vinha um plano e conteve o sorriso.
— Eu não deveria, mas me apeguei demais à menina Luíza. Ela é como uma neta pra mim, a neta que não tive...e me incomoda muitíssimo que uma menina da idade dela fique neste fim de mundo sem nada o que fazer... Por isso, pensei em falar-lhe e, logicamente ao seu marido, que gostaria de levar Luìza comigo quando voltar a São Paulo.
Consuelo ficou sem palavras. Luíza também.
— Veja, não quero que pensem que estou tirando-a do convívio de vocês, mas uma moça como ela precisa sair deste lugar, fazer cursos, quem sabe até arrumar um bom partido? Estando hospedada em minha casa, as possibilidades se abrem para ela. E Luíza continuaria me fazendo companhia.
Consuelo estava assustada, mas resolveu dar-lhe alguma resposta.
— Senhora condessa, Luíza não havia mencionado este seu desejo.
— Ora, como poderia? Eu não havia tampouco falado com ela.
— É claro que me deixarão ir, não é,mamãe?
— Condessa, me desculpe, mas não posso dar qualquer resposta sem conversar com meu marido.
— É claro que não! Não vim esperando uma resposta. Só quis fazer o convite. Além disso, se permitirem que ela vá, como espero, seria bom que, enquanto eu esteja em Belarrosa, ela fique hospedada em minha casa por alguns dias da semana. Tão melhor do que ir e vir em dias alternados...eu cuidarei para que um quarto de hóspedes só para ela seja preparado.
Luíza sorriu-lhe, sem que a mãe percebesse, e comemorou internamente sua astúcia. Agora só dependiam do consentimento de seu pais para serem felizes.
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