Notas iniciais
"Dor de amor"

Ainda convalescente, Bento havia trazido uma notícia importante a Vitória. Ela decidiu que precisaria se concentrar naquilo que realmente lhe havia levado de volta a Belarrosa e que não poderia correr o risco de Luíza descobrir seu segredo. Decerto não lhe perdoaria a falha de caráter e também não queria envolvê-la nas pendências de seu passado. Escrever o bilhete à menina foi penoso, mas Zilda obviamente concordou que afastá-la era necessário para o sucesso dos planos da patroa na cidade.

De volta a casa, Luíza caiu doente. No resto do dia não teve disposição para levantar-se da cama ou fazer qualquer refeição e seu olhar perdido deu a certeza a Consuelo de que algo muito grave havia acontecido no casarão.

— Minha filha, precisa ser sincera com sua mãe. Alguém lhe fez mal naquela casa? Algum homem. Por favor, precisa me dizer!

Luíza só negava qualquer pergunta com a cabeça. Consuelo levou o drama ao marido. Peixoto disse que iria ele mesmo tirar satisfação com a condessa sobre o que quer que fosse que haviam feito à filha mas a mulher o deteve.

— Espere. Não se exalte. Vamos esperar o Dr. Botelho e ver o que ele diz...Eu só tenho medo que seja algo mais grave, que algum rapaz, um serviçal, não sei, lhe tenha feito algum mal...

— E o tal conde? Não me sai da cabeça que essa menina está apaixonada pelo conde e...não quero nem pensar! — Peixoto estava furioso.

Dr. Botelho chegou, examinou Luíza, que estava febril, e deu o diagnóstico ao casal:

— Posso estar enganado, meus caros, mas isso se chama “dor de amor”! Sorrindo, Botelho ainda continuou. -Não há nada que se preocupar. Sua filha vai suspirar por algumas semanas e é cosia da idade, que passa...

— Ela lhe disse alguma coisa? perguntou Consuelo aflita.

— Não. Não disse nada. Mas não há nada de errado com a menina. A saúde dela está ótima. Já vi acontecer e vou repetir: não se preocupem...passará...

Com a saída de Botelho, Consuelo resolveu perguntar ao cocheiro, Domingos, que era de total confiança e conhecia Luíza desde pequena, se sabia de algum rapaz, qualquer informação poderia ser preciosa.

— Não, senhora! Todas as vezes que conduzi a senhorita Luíza ao casarão, nunca notei nenhum rapaz. Ela só comentava da condessa. Ou saía reclamando da governanta, dona Zilda.

— E o conde Felipe?

— Algumas vezes o vi com a noiva e o filho nos jardins...nada incomum. A menina Luíza não melhorou?

— Não, Domingos...mas não é nada grave, segundo o Dr. Botelho. Essa Zilda...de que exatamente Luíza reclamou?

— É uma mulher carrancuda, dona Consuelo...parece que não gosta muito da senhorita Luizinha...

Consuelo suspirou e, novamente aconselhando o marido, achou prudente esperar alguns dias para ver se a filha lhe confessava alguma coisa. Não era coisa que se fizesse invadir o casarão para tirar satisfações sobre a honra da filha com um conde ou quem quer que fosse por simples suposição.

Vitória avisou Felipe que se ausentaria naquela noite, na companhia de Zilda, e talvez demorasse ainda mais um dia.

— Mas, minha tia, a senhora ainda não está boa. E também não me dá satisfações dessas incursões, desses passeios...

— Eu não tenho que lhe dar satisfações de minha vida, Felipe! Além disso sou bem grandinha para saber o que devo ou não fazer. Agradeço a preocupação mas só preciso que saiba que não fugi de casa...