A mulher do retrato
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Passados quatro dias, Luíza continuava prostrada na cama mas começava a aceitar os lanches que Amália lhe preparava e insistia que comesse. Consuelo fez milhares de perguntas sobre o que tinha acontecido para as quais só conseguiu como resposta “nenhum rapaz me fez mal, mamãe!”. Já não tinha mais febre, mas não tinha ânimo algum nem para sentar-se no jardim pela manhã. Consuelo e o marido decidiram que era melhor esperar mais um tempo antes de fazer qualquer acusação aos Castellini.
No quinto dia, no entanto, num rompante de agitação, Luíza saiu cedo, antes mesmo dos pais acordarem e só teve tempo de pedir um pedaço de pão com café a Amália, implorando-lhe que não contasse aos pais que havia saído.
— Eu vou cavalgar, Amália. Preciso! Se contar a minha mãe ela não me deixará sair.
— Mas você está tão pálida, menina...
— E então não é bom que eu tome algum sol, ar fresco?
Amália concordou mas teve receio de não acordar a senhora para informá-la da repentina melhora de LuÍza e acontecer algo de ruim a ela. Não se perdoaria. Mas alguma coisa em seu velho coração lhe aquietou dizendo que deixasse a jovem ir.
Luíza cavalgou em direção ao casarão mas tomou atalhos mais longos para que o tempo passasse e não chegasse cedo demais. Uma decisão lhe fizera levantar da cama e arriscar tudo. Poderia voltar para casa e jogar-se novamente naquela cama para sempre, mas não sem cumprir sua missão.
Zilda atendeu à porta como de costume.
— Bom dia, Zilda. Obviamente que desejo ver a condessa, mas fique feliz. Provavelmente será a última vez que terá que me abrir esta porta.
Zilda, percebendo sua determinação, foi avisar a patroa e pediu que ela esperasse. Voltou e pediu que subisse, a senhora a receberia em seu quarto. Ao entrar, Vitória estava de pé a sua espera.
— Bom dia, condessa. Eu sei que pediu que eu não voltasse, asseguro que depois de hoje obedecerei sua vontade. Mas hoje, só hoje, preciso falar-lhe.
Vitória pediu que Zilda saísse e as deixasse a sós.
— Ah, minha menina...
— Desculpe-me, condessa. Hoje eu vou falar. Não tenho mais vergonha, receio, não me importa o que pensará de mim...mas preciso dizer-lhe algo...preciso que saiba... Eu a amo, de todo o meu coração! Amo-te, assim como eu deveria amar um rapaz. Amo-te desde a primeira vez que lhe vi.
Vitória caminhou em sua direção. Luíza agora tinha a cabeça baixa, como se todo arrependimento do mundo lhe tivesse pousado nos ombros. As mãos da condessa tomaram-lhe a face com ternura e mais rápido do que Luíza pudesse perceber, teve seus lábios nos dela, num beijo sofrido, forte e quente. Seus braços enlaçaram as costas da condessa e não pode precisar a eternidade daquele momento. Depois, abraçaram-se e permaneceram assim por longos segundos. Quando Luíza teve coragem de encará-la, ambas se perceberam com lágrimas no rosto. Vitória mexeu em uma mecha do cabelo da jovem:
— Eu não podia imaginar que sentisse o mesmo...eu achei que fosse só admiração por mim, carinho, não sei...-disse Vitória encantada e rindo em meio às lágrimas.
— Então também me ama?
— Minha menina linda, minha Luíza, seria tão mais fácil se eu não te amasse tanto...é tão errado, eu sei, está tudo errado, eu não deveria ter te beijado...
— Está arrependida?
— Não...não! Mas eu sou uma velha, não tenho nada a perder. E você? Não quero fazer-lhe mal...
— Não é uma velha e eu quis também! Eu sonhei tanto com esse beijo, tanto...
Luíza beijou Vitória novamente, agora um beijo mais suave, paciencioso, calmo...nem a possibilidade de Zilda entrar no quarto preocupou-as.
— Eu estava pronta para sair daqui sob seu olhar severo, de desgosto, e agora...
Vitória passou o dedo em seus lábios, silenciando-a.
— Eu achei que era mais forte que esse sentimento, mas daí você adentra meu quarto, me confronta...eu não tenho mais forças para te manter longe de mim!
— Então não mantenha, não mantenha! Não lhe pergunto nada, nunca. Mas não me faça mais viver sem seu beijo, eu é que não teria forças...
Vitória lembrou-se de trancar a porta do quarto e permaneceram por mais algum tempo. Luíza precisava voltar logo pra casa antes que a mãe e o pai se preocupassem.
— Eu vou, senhora, meus pais podem vir atrás de mim!
— Depois destes beijos continuará a me chamar de senhora?
—Não! Te chamarei pelo que quiser! Eu não sei se é errado, se é pecado o que estamos fazendo mas pecaria mil vezes a viver sem você!
E desvencilharam-se num beijo apaixonado. Luíza saiu do casarão iluminada. Zilda não sabia o que haviam conversado tanto, porém teve certeza: ela estava de volta! Resmungou qualquer coisa que a menina não ouviu e subiu para ver se a patroa precisava de algo.
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