A mulher do retrato
8 Capítulo 8
Luíza ainda estava muito tensa, mas a necessidade de manter uma conversa com a senhora a entreteve embora precisasse segurar a xícara com o apoio da outra mão, com receio de que o tremor ficasse muito evidente. A menina examinava cuidadosamente a condessa enquanto ela falava, encantada. Ela era encantadora, tinha um magnetismo inexplicável para a menina. Talvez os outros não simpatizassem com ela, mas a Luíza a senhora pareceu-lhe -e estava de fato sendo- adorável. Agora, à luz da tarde, percebeu seus olhos cor de mel esverdeados, pareciam muito mais escuros à noite. E era tão bonita. Era mais jovem do que as roupas pretas, o penteado e sua postura faziam parecer. Seus lábios eram grossos, de um desenho pouco comum, misterioso, e quando ela sorria, duas covinhas formavam-se discretamente.
Zilda, a governanta, aproxima-se de vez em quando para verificar se tudo estava do gosto da senhora. Após algumas intervenções, a condesa zangou-se:
– Zilda, está tudo bem, não é um jantar para vinte convidados. Podemos nos servir sozinhas.
Zilda saiu com a cara fechada e não voltou mais mas espreitava de longe. Luíza podia vê-la.
– Desculpe-me, mas a Zilda me cansa na maior parte do tempo. Está ranzinza. É tão bom que você tenha vindo, esse ar jovem me faz muito bem.
Luíza sentiu a sensação, por diversas vezes durante o chá, de que o convite havia sido feito a ela e se estendia à mãe, exatamente o contrário do que pensara Consuelo. E sentiu-se à vontade, desejando que aquela tarde não terminasse nunca. Mas o tempo estava mudando. Uma ventania obrigou as duas a levantarem-se e, como já haviam terminado o chá, a condessa convidou-a para uma saleta. Rapidamente uma tempestade começou a aproximar-se.
– Eu preciso ir, senhora! -disse Luíza, percebendo que infelizmente estendia-se tempo demais no casarão.
– De jeito nenhum! Não posso permitir que saia com essa chuva se aproximando.
– Mas minha mãe...-continuou a menina.
– Sua mãe vai supor que você está aqui, abrigada da chuva. Não se preocupe!
Luíza agora não sentia-se mais à vontade. Pensou estar incomodando e não sabia o que fazer. Na saleta, pôs-se a observar uma foto num porta-retrato, um moço lindo, que imaginou, imediatamente, ser o filho que Vitória havia perdido. Havia um vaso de rosas vermelhas, as mesmas do jardim, ao lado.
– É meu filho!- disse a condessa com uma expressão amarga. — Você deve saber que ele morreu num acidente. Mas isso faz muito tempo...
– Eu sinto muito!-disse Luíza, de imediato.
– Eu tenho tanta, tanta saudades dele. Você não pode imaginar. — e abraçou o porta-retrato contra o peito.
Luíza quis desesperadamente confortá-la mas conteve o impulso de aproximar-se. Agora ela lhe parecia menos etérea, uma mulher de carne e osso, sofrida, comum. E pensou que era a única pessoa que começava, de fato, a conhecê-la em Bellarrosa. Vitória voltou o porta-retrato à mesa, arrumando-o.
– Bom, sabe de uma coisa?- disse, recompondo-se. Esta tempestade tem seu lado positivo. Você fica para o jantar e terei a honra de sua companhia por mais algum tempo!
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