A mulher do retrato 2
9 Capítulo 9

Luíza sabia já, muito claramente, o que acontecia ao seu coração, à sua alma. O ímpeto de abraçar Vitória, quando se despediram, foi tão fortemente reprimido que chegou a assustar-se com sentimento tão forte. Assim, durante todo o caminho de volta ao hotel, manteve-se calada. A tia nem percebeu, tão extasiada que estava com o negócio concluído. Mas, ao chegarem, interrogou a menina:
— O que você tem? Não te agrada saber que a Beraldini agora é dona de mais uma vinícola tão promissora?
— Não me agrada que uma mulher tenha construído esse patrimônio e tenha que abrir mão de tudo assim.
— Ela não construiu nada, foi o marido! E o filho do marido fez o favor de destruir para que pudéssemos agora estar fazendo um grande negócio!
— Ela ajudou a construir...ficaram casados muito tempo!
—Ora, ora...a defensora da Vitória Ventura está tristinha...
— Estou! Estou profundamente chateada! Não é porque fizemos um bom negócio que não sinta pena dela!
— Lembre-me de não te envolver em novos negócios da próxima vez!-zombou Emília.
Luíza saiu do quarto enquanto a tia mantinha o sorriso malicioso no rosto e uma taça de champagne na mão.
Dirigiu-se à floricultura que havia perto do hotel.
— Boa tarde! Eu quero um bouquet, flores bonitas! Me indica alguma?- Mas antes que a vendedora respondesse, vislumbrou umas rosas muito vermelhas.
— Aquelas! São aquelas!
— Como arrumo o bouquet? Quantas rosas?
— O quê? — Luíza estava hipnotizada.
— O bouquet!
— Ah, uma dúzia! Um arranjo simples porque as flores já são muito bonitas.
Pegou um táxi na praça. Em pouco tempo batia à porta da casa dos Ventura. Vitória abriu a porta. Notava-se que havia chorado mas um sorriso iluminou seu semblante ao ver a jovem.
— Eu não podia deixar de vir! Eu sinto muito! -Luíza lhe entregou as flores.
— Rosas príncipe negro! São minhas favoritas! Como você sabia! A moça da floricultura te falou?
— Não...eu já sabia, de alguma forma...- e sustentou um olhar meio perdido.
Luíza entrou, sentou-se e antes que falasse alguma coisa, Vitória a interrompeu:
— Por que você "sente muito"? Você não tem culpa nenhuma da nossa falência.
— Eu sei...mas se a minha tia não tivesse aparecido...
— Outra pessoa teria comprado a vinícola e eu teria aceitado um negócio muito pior por puro desespero. Olha, eu vou buscar um vaso pra colocar estas rosas lindas. Eu nem estava com fome mas a sua presença me anima. Finalmente almoça comigo? A cozinheira não veio hoje mas uma coisinha eu sei preparar! Uma salada e um salmão grelhado! É quase tudo que sei fazer mas isto eu faço bem!
Luíza sorriu:
— Claro que sim!
Enquanto esperava na sala, Bento apareceu como quem estivesse de saída.
— Você é a sobrinha da Emília Beraldini.
— Sou! Nos vimos pela manhã.
— E já veio tomar posse da casa? — a pergunta deveria soar como uma provocação e, de fato, soou.
— Não, Bento! Por mim, sua vinícola nem pertenceria a minha famîlia agora. E uma casa sempre pertence a quem sempre viveu nela, não importa quantas vezes seja vendida.
— Eu já estava de saída- disse rindo-se- e a mocinha desculpe-me a brincadeira!
Vitória não ouviu a conversa e Luíza não a mencionou.
Terminavam de almoçar e uma tempestade começava a formar-se do lado de fora.
— Talvez seja melhor eu chamar o táxi, Vitória! Uma falta de educação, eu sei, mas...
— Não, você fica! As tempestades aqui são perigosas. Sua tia vai entender perfeitamente!
— Sim, ela vai...- Luíza imaginou a cara da tia quando soubesse que ela estava lá e escapou-lhe um sorriso.
Sentaram-se na sala, no chão, em volta da mesa, ainda com a garrafa de vinho do almoço. A chuva forte, com ventos, não tardou a chegar e granizos chocavam-se aos vidros das janelas de forma violenta. As luzes se apagaram.
— Vou acender umas velas! Vitória levantou-se e encaminhou-se para a cozinha.
Luíza tirou os sapatos e deitou-se no sofá, já um pouco embriagada.
Vitória trouxe um candelabro, e, colocando-o sobre o piano, assustou-se:
— Você está bem? E sentou-se ao lado da menina.
Luíza sinalizou que sim com a cabeça e passou os dedos nos lábios de Vitória, que cerrou os olhos.
— Não me mande embora daqui, promete? Não me mande nunca!
Vitória inclinou-se sobre ela, ainda sem saber se devia...um milhão de pensamentos lhe ocorreram. Será que tudo que havia lhe acontecido era uma forma de trazer-lhe Luíza? Ou era o destino pregando-lhe uma peça? Uma moça, uma mulher...
— Por que você veio, minha menina linda? Eu preciso ouvir a verdade. Não foi para me trazer flores, nem para desculpar-se por algo que nem deveria...
Luíza procurou seus lábios, sussurrando:
— Eu amo você!
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