Na sala iluminada apenas pelas velas, Vitória deixou-se perder pelos beijos da jovem. Não pensou em mais nada, só sentiu que ali, nos braços de Luíza, havia paz, abrigo. Num momento entreolharam-se. A luz tão fraca, um silêncio só interrompido pelo barulho da chuva. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Vitória.
— Por que você está chorando? Luíza estava entorpecida, pelo beijo, pelo vinho, nada parecia tão claro.
— Eu não sei...Acho que porque eu não havia admitido pra mim mesma, até agora, que eu ainda posso ser feliz, mesmo que por instantes.
— Não sei mais o que são instantes nem eternidade depois que te conheci! Luíza beijou Vitória novamente, que a interrompeu delicadamente.
— Luíza...espere...- e, sentando-se no sofá, Vitória tentava compreender o que se passava. A jovem levantou o corpo e aconchegou-se junto dela. — Eu estaria mentindo se dissesse que não tinha percebido nada, que não sentia nada...Eu só penso nesse seu rosto lindo desde que te vi. Eu só não sei...
— Está arrependida? Luíza teve medo da resposta que poderia ouvir.
— Não...mas se não fosse pela sua iniciativa-e Vitória riu-se da situação- eu acho que jamais faria..
— Jamais me beijaria? Por quê? Você acha errado?
— Você acha certo?
— Eu só sabia que não podia resistir mais a esse sentimento! Você não sabe o quanto eu pensava em você, deitada naquela cama do hotel, no quanto eu sofri hoje ao ver sua tristeza...eu nunca tinha beijado uma mulher antes porque eu nunca me senti assim em relação a uma mulher. Na verdade eu nunca me senti assim na minha vida...
— Eu sou uma velha, Luíza!
Não, não é! Você ouviu o que eu te disse? Eu te amo! Eu te amo, Vitória! E se você sente ao menos alguma coisa...
— Alguma coisa? Meu Deus, eu estou apaixonada por você! Eu só não tinha admitido a intensidade deste sentimento!E agora? Você é uma menina...E sua tia! O que ela iria pensar?

Nesse momento, o telefone da casa tocou. Luíza segurou Vitória sugerindo que não atendesse.


—Pode ser importante!

Luíza já imaginava bem de que se tratava.


— Emília! E Vitória ficou muda por instantes.- Sim, ela está aqui. Você não sabia?


Luíza teria que enfrentar a tia, e mesmo antes que Vitória desligasse, tratou de recompor-se, calçar os sapatos. Levantando-se do sofá, pediu que Vitória lhe passasse o telefone.


— Vou chamar um táxi assim que a chuva acalmar e conversaremos no hotel, tia!


Vitória caminhava pela sala atordoada.

— Por que você não me disse que ela não sabia que estava aqui?
— Porque ela não me deixaria vir e eu não queria confessar isso a você.

— Por que não? Por certo ela não sabe...
— Não..nem imagina...- e a jovem encaminhou-se em direção a Vitória, tomando-lhe o rosto pelas mãos. — Entenda que eu fiz tudo por impulso, eu nem pensei...eu só precisava te ver! Eu só quero estar com você desde o primeiro dia! Os desmaios, a falta de ar, eu sabia que era tudo você, mesmo antes de te conhecer ...era você! Eu não sei explicar...parecia que você não me era estranha, nem esse lugar...

— Mas, Luíza, e agora? A vida não é um conto de fadas, um reencontro de outras vidas...

— E se for? O que importa é que nos amamos. É tão simples...

— A sua ingenuidade te faz parecer que tudo é simples...não, não há nada simples. Sua vida não é aqui! E quando for embora?

— Eu não vou...

— Eu vou chamar o táxi para você, a chuva já melhorou. Eu preciso ficar sozinha, pensar...Vá acalmar sua tia que está uma fera! Mas, por favor, não mencione nada! Não importa o que ela fale!

— É claro que não...ela nunca entenderia.

Antes de sair, Luíza implorou por mais um beijo que Vitória negou.

— Não sabe como é difícil pra mim esta situação toda, Luíza! Parece que a felicidade bate à nossa porta, mas não é simples assim quando não se é mais tão jovem...acho que já sofri tanto que me protejo antes que o sofrimento me derrube novamente...

Luíza sinalizou que compreendia mas no caminho para o hotel sentiu-se uma boba, mesmo sem arrepender-se de nada. Um beijo, um beijo que talvez não significasse para Vitória o mesmo que havia significado para ela.