Bento apareceu em casa no início da noite e Vitória o esperava ansiosa.
— Preciso conversar com você, Bento, e preciso, preciso que entenda que esta proposta realmente nos caiu do céu...
— A tal proposta da empresa de São Paulo? Quando você...? Quanto querem pagar?
— Sente-se, Bento! Não vou conversar com você andando de um lado pro outro...
— Já vi que a tal proposta não é tão boa...Manda aí, Vitória! Quanto?
— Sete milhões!
— De jeito nenhum! Bento levantou-se e começou a andar pela sala novamente. -É pouco! A Vinícola vale mais! E tem a casa...
— Uma vinícola falida, cheia de dívidas, vale mais o quê, Bento? Você vai assinar esse contrato pelo nosso bem! Eu acho até que não receberemos mais proposta nenhuma, quanto mais tão boa assim...


Bento saiu batendo a porta da sala, sem responder nada. Vitória recostou-se no sofá derrotada, cansada de todos os problemas que já tinha. Suportar o temperamento do enteado já vinha sendo uma obrigação há muito tempo. Se ele sumisse por dias novamente, o que lhe pareceu mais provável, toda a negociação com Emília teria sido em vão e continuariam endividados e mal vistos na cidade. Vitória também sabia que o gênio impetuoso de Bento poderia trazê-lo de volta em minutos e foi o que aconteceu.


— Está certo , Vitória! Vamos fazer o negócio! O que lhe fizera mudar de ideia não importava a ela. Bento era assim, imprevisível.

Alguns dias depois, o tempo da papelada ficar pronta, assinaram o contrato de compra e venda ambas as partes. Vitória não disfarçou seu desapontamento ao ver uma enorme placa de madeira onde se lia Vinícola Beraldini substituir a da vinícola Ventura. Não entendeu que necessidade Emília tinha de mandar fazer uma placa e a troca de nomes tão rapidamente, mas parecia imensamente satisfeita. Luíza sentiu-se comovida com a tristeza de Vitória mas não teve coragem de se aproximar nem naqueles momentos de formalidade e nem depois, quando se despediram.


— Quanto à casa, Vitória, fique sossegada! Não é minha prioridade agora!
— E qual é sua prioridade, tia? Luíza interrogou Emília de forma provocativa, o que lhe desagradou.
— De negócios falaremos depois!


Luíza estranhou o comportamento da tia durante toda aquela manhã. Tinha um brilho malicioso nos olhos que ela nunca havia visto.

Vitória entrou no carro com Bento mas não sem antes olhar demoradamente cada canto da vinícola. Luíza chegou a sentir ódio da tia ao presenciar a cena e desejou, do fundo do coração, não ser uma Beraldini, não fazer parte da família que humilhava aquela mulher.