A mulher do retrato 2
7 Capítulo 7
Vitória não foi à cidade e também não ligou no hotel. Sentiu que poderia parecer interesse aquilo que, na verdade, era uma genuína preocupação com alguém que mal conhecia. Mesmo aflita pelo resto da tarde e da noite, tentou conter-se. A única coisa que fez foi mandar um funcionário levar o carro de Emília à cidade. Mesmo sem perguntar, achou que poderiam precisar do carro para ir à Penedo pela manhã embora Emília já tivesse combinado com um taxista a viagem.
Sentada à mesa, sozinha, apenas uma taça de vinho como companhia já habitual e única, seu pensamento era em Luíza. E não podia entender o porquê. Se a menina estivesse mesmo doente, estava acompanhada, sendo observada. Não havia com o que se preocupar mas também não sabia se tratava-se de preocupação ou de um pensamento fixo na imagem dela.
Logo pela manhã, Emília acompanhou Luíza à cidade vizinha para a consulta e exames. O médico chegou à conclusão que não cabia nenhum exame mais aprofundado, eram só desmaios, sem nenhum sinal de ataque epiléptico ou algo semelhante. Apenas um exame de sangue e continuar observando se não aconteceriam outros desmaios.
— A mudança repentina de ares, talvez, doutor? Ou o rompimento do namoro? perguntou Emília.
— Tia, já faz tanto tempo...
— Paixão? Humm...o médico riu-se. Não, não! Mocinhas modernas não desmaiam de paixão!
Luíza olhou envergonhada para Emília que, realmente, considerou a possibilidade. Alguma coisa devia estar acontecendo. Retornaram para Bellarosa e a menina lembrou a tia da vinícola.
— Luíza, eu vim aqui só para comprar esta vinícola. Não se preocupe que não me esqueci. Aliás, vou ligar agora para a Vitória Ventura e marcar a visita para amanhã.
— Por que não para hoje à tarde?
— É...por que não? Antes que eu ou a senhorita fiquemos acamadas novamente...
Ao pegar o telefone, a feição de Emília amargou-se. Até então havia encenado muito bem seu papel de empresária mas não sabia até quando poderia continuar.
Após o almoço, passaram as duas para buscar Vitória em sua casa. Luíza abriu a porta e pediu que ela se sentasse na frente, ao lado da tia. Vitória passou a mão em seu rosto, carinhosamente e Luíza sentiu arrepiar-lhe o corpo todo. Manteve os olhos fixos no dela, que também não os desviava dos da menina, e então decidiu entrar. Cumprimentaram-se, ela e Emília, com um aperto de mão.
— E seu enteado? Não vai conosco?
— Não, Bento não dormiu em casa hoje...
Vitória sabia que Bento deveria ser mantido afastado do negócio até que ela estabelecesse tudo.
A visita foi proveitosa, Luíza fez questão que a tia visse também os vinhedos e como era boa a terra. Sentaram-se para um café no escritório principal.
— Então, Vitória, me agrada muito a vinícola, as terras, a casa. Já disse e agora reforço: pago 7 milhões por tudo!
— Por mim, é só assinarmos os papéis. Mas ainda preciso consultar meu enteado.
— Acha que amanhã já consegue me dar uma resposta?
— Certamente! respondeu Vitória, que obteria o aval de Bento mesmo que tivesse que caçá-lo pela cidade e convencê-lo do negócio.
— E depois ficam aqui por quanto tempo? Desculpem a curiosidade...eu só...
— Bom, imagino que uns dois a três meses, até que eu consiga enviar funcionários para tocar a Vinícola daqui, não é?
Vitória e Luíza entreolharam-se como a entender da mesma forma a expressão "apenas três meses".
— Mas e o estágio de Luíza?
— Ah, isto ela precisa ver quanto tempo, junto á faculdade...Emília respondeu mesmo sabendo que levaria a menina de lá com ela depois de cumprir seus planos.
— Eu tenho certeza que bem mais tempo que isso, tia! Além do mais, gostei tanto do lugar...
Vitória sorriu.
— Desculpe a intromissão, Vitória, mas onde pretende morar após a venda da casa?
— Emília, eu iria justamente lhe sugerir um acordo. É claro que a casa será sua, mas até que não a coloque à venda, imaginei se não poderia continuar vivendo lá. É claro que é um pedido delicado, estamos falidos, não poderia lhe pagar um aluguel pela casa...
— Claro, Vitória! Claro! É um prazer!
Vitória não pode conter o ar de embaraço pelo pedido, mas realmente não tinha para onde se mudar. Havia a casa onde a cunhada, Zilda, ofereceu-lhe um quarto modesto, mais por educação que por real desejo de sua companhia.
— Eu nem imagino o valor da casa, mas deve ser um preço alto, minha tia não encontrará facilmente compradores que paguem o que ela vale.- disse a menina sorrindo, tentando desfazer a situação incômoda.
Emília deixou Vitória com o sentimento de parte do plano cumprida e um sorriso malicioso chamou a atenção da sobrinha.
— O que foi, tia?
— Estou feliz, Luíza! Muito feliz!
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