No caminho para a casa de Vitória, no dia seguinte, Luíza começou a sentir-se mal novamente.

— O que foi?

— Nada, tia! Só uma sensação estranha, uma falta de ar...

— Vamos voltar!

— Não! Eu estou bem, juro!

— Assim que voltarmos ao hotel vou ver se há um médico que preste nesta cidade...

Como a mansão dos Ventura ficava um tanto afastada da cidade e estavam quase chegando, Emília decidiu que seria mais prudente chegar ao destino que voltar para o hotel. Como haviam combinado, assim que o carro de Emília apontou, Vitória já precipitou-se, pegando a bolsa e a chave do carro. Bento não havia aparecido na noite anterior e teria de inventar alguma desculpa para sua ausência. Assim que Vitória abriu a porta e viu a menina descendo do carro, lágrimas lhe vieram imediatamente aos olhos. Não sabia quem ela era. Emília também descera do carro em seguida e vieram em sua direção.

— Bom dia, Vitória! Essa é minha sobrinha, Luíza! Veio comigo de São Paulo.

Vitória permaneceu como paralisada olhando para a jovem, ainda com os olhos marejados, e Luíza também a olhava fixamente.

— Tia, não me sinto bem! disse Luíza sentando-se no chão.

— Vitória, pode me trazer um copo d'água? Meu Deus!

— Vitória entrou correndo enquanto Emília abanava Luíza.

— O que você está sentindo? Me fala!

— Uma pontada no peito, falta de ar, não sei...

Vitória voltou trazendo a água e entregou o copo nas mãos trêmulas da menina. Ainda sem entender o que estava acontecendo, agachou-se no chão enquanto a olhava.

— Vamos chamar o médico aqui! Vitória, quem podemos chamar?

— O quê?

— Um médico?

—Sim, sim, eu vou ligar para o doutor Botelho. Por favor, entre com a menina e acomode-a no sofá!

Luíza, deitada no sofá, respirava profundamente enquanto Emília explicava a Vitória que o mal estar começara no dia da chegada e pouco antes de chegarem até ali.

— Eu estou melhorando, tia! Não é necessário médico nenhum...

— Agora sou eu que não vou deixá-la sair sem que o Botelho te examine! disse Vitória.

Luíza a olhou e sorriu.

— Então é a senhora a dona da vinícola?

— Sou! Sou eu...e não me chame de senhora, vou me sentir mais velha ainda assim.

— Eu sinto muito. Não queria estragar a visita...

— Luíza, a visita não tem pressa...eu sou a responsável por você aqui. Não posso arriscar sairmos sem que o médico a veja.

Depois de uns vinte minutos o doutor Botelho chegou e examinou a menina.

— A pressão está boa, os batimentos cardíacos normais...talvez tenha sido uma pressão baixa.

— E a dor no peito, doutor? interveio Emília.

— Isso precisamos ver se acontece mais vezes, com mais frequência. Pontadas no peito assustam mas não costumam ser graves se for algo esporádico. Vou receitar um remédio natural à base de maracujá. Caso ela volte a se sentir mal, leve-a ao meu consultório na cidade.

Botelho deu a Emília o cartão e insistiu que poderia ligar a qualquer hora.

— Eu posso acompanhá-las até a vinícola, doutor?

— Não haverá visita a vinícola nenhuma hoje, senhorita!

— Dona Emília, eu não vejo problema, ela já se sente bem...aconselhou Botelho.

— Prefiro deixar para amanhã! O que acha Vitória?

— Acho que é a decisão mais acertada. Mas nada impede que fiquem e almocem comigo!

— Não, Vitória! Obrigada, mas vou levar Luíza para que repouse no hotel enquanto eu trabalho. Aliás, e o seu enteado?

— Ah...nos encontraria lá...mas ligo para ele avisando! Vitória achou a mentira conveniente.

Ao despedirem-se, Luíza abraçou Vitória. Emília estranhou o comportamento da sobrinha.

— Desculpe! É que foi tão boa comigo...

— Não há de que desculpar...e venha amanhã novamente.

— Eu virei!

Luíza caminhou até o carro olhando para trás algumas vezes.

Vitória fechou a porta e permaneceu recostada nela, respirando fundo e sem entender ainda porque havia se emocionado ao ver a menina.

— Não temos intimidade com esta mulher, Luíza! Só vou comprar a propriedade dela!

— Por isso não aceitou almoçar com ela?

— Claro!

— Me parece uma boa pessoa. Não seja tão fria, tia!

— Eu não sei o que ela é e não me interessa. Foi cordial, educada. Mas negócios são negócios!