A mulher do retrato 2
5 Capítulo 5
Notas iniciais

Luíza voltou calada para o hotel. Sentia-se bem fisicamente, mas ainda um desassossego no peito que não podia explicar e que não mencionou à tia.
Em São Paulo, havia acabado de se formar engenheira agrônoma. O estágio em Campobello poderia servir para um projeto de pós-graduação. Há poucos meses rompera um namoro de dois anos. A viagem, àquela altura, só poderia lhe fazer bem, e, como recomendara o pai, era preciso que a herdeira da Beraldini se interessasse mais de perto pela empresa. O pai e o irmão eram os proprietários. Com a morte do tio, Emília, por já trabalhar na empresa ao lado do marido, pareceu o nome certo para continuar gerindo os negócios. O pai de Luíza era médico, não entendia nada de vinhos, mas a filha poderia ser útil um dia.
Enquanto Luíza descansava, Emília estudava planilhas sem parar, com um sorriso estranho nos lábios.
—Ofereci-lhes 7 milhões, já falei, não é? Vão aceitar! Poderia ter oferecido 6 milhões e eles aceitariam. Estão falidos! Mas é uma bela casa...
— Se a vinícola for tão boa quanto a casa...Mas a dona Vitória me pareceu uma mulher triste...
—É fria! Não se iluda!
—Como pode falar alguma coisa dela? Nem a conhece!
— Foi minha impressão, ué? Não posso ter impressões?
Luíza virou-se na cama chateada. Não admitia que a tia estivesse avaliando uma pessoa tão superficialmente. Havia sido tão gentil com elas, algo lhe dizia- porque ela também podia ter impressões- que Vitória era o oposto do que Emília pensava.
No dia seguinte, a tia acordou indisposta e com enxaqueca.
—Que droga! Parece que alguma coisa está impedindo que eu possa fazer este negócio! Luíza, me faça o favor de ligar à Vitória se desculpando e remarcando para amanhã a visita. Ou talvez para hoje à tarde...
— Ficou trabalhando sem parar, ontem...
Luíza pegou o telefone aborrecida, mas uma ideia lhe surgiu, de repente:
— Eu vou! Faço a visita e amanhã vamos de novo. Posso ver coisas que me interessam, a terra, a qualidade dos vinhedos...
— De jeito nenhum!- respondeu Emília.
— Pode parecer que está desinteressada, que a enxaqueca é uma desculpa...que estaria olhando outras vinícolas por aqui...
— Luíza, deixe que de negócios cuido eu!
— Então eu vou descer para o café e trazer o seu! Ligo para dona Vitória da recepção. E depois vou sair para uma volta. Não se importa, não é?
—Não, vou ficar deitada mesmo! Não quero comer nada! Só não vá longe.
Luíza deu um beijo na tia e pegou as chaves do carro sem que ela percebesse. Em meia hora batia na porta da casa de Vitória.
— Bom dia!
— Bom dia, meu bem! Sua tia está no carro?
— Não...não acordou disposta. Ela sofre de enxaquecas. Pediu desculpas e que eu remarcasse a visita para amanhã, apesar de essas crises durarem dias...
— Que pena! Vitória também sentiu o que parecia um entrave à venda da Vinícola.
— Mas eu vou! Estou aqui para isso!
— Você?
— Engenheira agrônoma recém-formada, muito prazer! E esticou a mão para ela, rindo-se.
Permaneceram apertando-se as mãos e olhando-se fixamente.
— Mas tão novinha...E Vitória soltou sua mão, um tanto sem graça. -Então sua tia lhe autorizou...
— Não! Também não poderia avaliar sozinha...Minha tia virá o mais rápido possível.
— Bom, então vamos, engenheira recém-formada!
No caminho para a Ventura, Luíza contou sobre a morte do tio, sobre a Beraldini, mas nada que tivesse a ver com o negócio. Vitória mostrou-lhe a sede, os vinhos, mas o que lhe interessava eram os parreirais.
— Podemos ir?
— Sim, claro!
E eram, para os olhos da menina, maravilhosos. Tudo naquela plantação, no gosto das uvas, nos procedimentos lhe pareceram impecáveis.
De volta, Vitória insistiu que almoçasse com ela.
— Negou-me ontem já o convite!
— Está bem! Mas devo voltar logo. Minha tia pode precisar de mim.
Vitória avisou a cozinheira enquanto Luíza observava a casa. A decoração era de um bom gosto imenso.
— Eu fui muito feliz aqui, eu e meu marido! É uma pena ter de vendê-la!
— Eu sinto muito!
— É muito grande só para mim e meu enteado, de qualquer forma.
Luíza aproximou-se do piano de cauda que havia na sala.
— Sabe tocar?
— Pouco, Vitória...mas gosto muito...
— Toque alguma coisa para mim enquanto esperamos o almoço ficar pronto!
Pareceu-lhe quase uma ordem que não poderia recusar. Mas, mesmo envergonhada, sentou-se ao piano. E ao começar a tocar, uma emoção tomou-lhe por completo. Tanto que logo perdeu as notas.
— Saint-Saens...como é lindo! Continue!
— Luíza respirou fundo e recomeçou. E teve a nítida impressão de já ter feito aquilo antes, a cabeça de Vitória recostada na poltrona, os olhos fechados...E sem que pudesse perceber, a vista escureceu-lhe e desmaiou, para o desespero da senhora.
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