Notas iniciais
"Le Cigne" - Saint-Saens https://www.youtube.com/watch?v=zNbXuFBjncw

Luíza voltou calada para o hotel. Sentia-se bem fisicamente, mas ainda um desassossego no peito que não podia explicar e que não mencionou à tia.

Em São Paulo, havia acabado de se formar engenheira agrônoma. O estágio em Campobello poderia servir para um projeto de pós-graduação. Há poucos meses rompera um namoro de dois anos. A viagem, àquela altura, só poderia lhe fazer bem, e, como recomendara o pai, era preciso que a herdeira da Beraldini se interessasse mais de perto pela empresa. O pai e o irmão eram os proprietários. Com a morte do tio, Emília, por já trabalhar na empresa ao lado do marido, pareceu o nome certo para continuar gerindo os negócios. O pai de Luíza era médico, não entendia nada de vinhos, mas a filha poderia ser útil um dia.

Enquanto Luíza descansava, Emília estudava planilhas sem parar, com um sorriso estranho nos lábios.

—Ofereci-lhes 7 milhões, já falei, não é? Vão aceitar! Poderia ter oferecido 6 milhões e eles aceitariam. Estão falidos! Mas é uma bela casa...

— Se a vinícola for tão boa quanto a casa...Mas a dona Vitória me pareceu uma mulher triste...

—É fria! Não se iluda!

—Como pode falar alguma coisa dela? Nem a conhece!

— Foi minha impressão, ué? Não posso ter impressões?

Luíza virou-se na cama chateada. Não admitia que a tia estivesse avaliando uma pessoa tão superficialmente. Havia sido tão gentil com elas, algo lhe dizia- porque ela também podia ter impressões- que Vitória era o oposto do que Emília pensava.

No dia seguinte, a tia acordou indisposta e com enxaqueca.

—Que droga! Parece que alguma coisa está impedindo que eu possa fazer este negócio! Luíza, me faça o favor de ligar à Vitória se desculpando e remarcando para amanhã a visita. Ou talvez para hoje à tarde...

— Ficou trabalhando sem parar, ontem...

Luíza pegou o telefone aborrecida, mas uma ideia lhe surgiu, de repente:

— Eu vou! Faço a visita e amanhã vamos de novo. Posso ver coisas que me interessam, a terra, a qualidade dos vinhedos...

— De jeito nenhum!- respondeu Emília.

— Pode parecer que está desinteressada, que a enxaqueca é uma desculpa...que estaria olhando outras vinícolas por aqui...

— Luíza, deixe que de negócios cuido eu!

— Então eu vou descer para o café e trazer o seu! Ligo para dona Vitória da recepção. E depois vou sair para uma volta. Não se importa, não é?

—Não, vou ficar deitada mesmo! Não quero comer nada! Só não vá longe.

Luíza deu um beijo na tia e pegou as chaves do carro sem que ela percebesse. Em meia hora batia na porta da casa de Vitória.

— Bom dia!

— Bom dia, meu bem! Sua tia está no carro?

— Não...não acordou disposta. Ela sofre de enxaquecas. Pediu desculpas e que eu remarcasse a visita para amanhã, apesar de essas crises durarem dias...

— Que pena! Vitória também sentiu o que parecia um entrave à venda da Vinícola.

— Mas eu vou! Estou aqui para isso!

— Você?

— Engenheira agrônoma recém-formada, muito prazer! E esticou a mão para ela, rindo-se.

Permaneceram apertando-se as mãos e olhando-se fixamente.

— Mas tão novinha...E Vitória soltou sua mão, um tanto sem graça. -Então sua tia lhe autorizou...

— Não! Também não poderia avaliar sozinha...Minha tia virá o mais rápido possível.

— Bom, então vamos, engenheira recém-formada!

No caminho para a Ventura, Luíza contou sobre a morte do tio, sobre a Beraldini, mas nada que tivesse a ver com o negócio. Vitória mostrou-lhe a sede, os vinhos, mas o que lhe interessava eram os parreirais.

— Podemos ir?

— Sim, claro!

E eram, para os olhos da menina, maravilhosos. Tudo naquela plantação, no gosto das uvas, nos procedimentos lhe pareceram impecáveis.

De volta, Vitória insistiu que almoçasse com ela.

— Negou-me ontem já o convite!

— Está bem! Mas devo voltar logo. Minha tia pode precisar de mim.

Vitória avisou a cozinheira enquanto Luíza observava a casa. A decoração era de um bom gosto imenso.

— Eu fui muito feliz aqui, eu e meu marido! É uma pena ter de vendê-la!

— Eu sinto muito!

— É muito grande só para mim e meu enteado, de qualquer forma.

Luíza aproximou-se do piano de cauda que havia na sala.

— Sabe tocar?

— Pouco, Vitória...mas gosto muito...

— Toque alguma coisa para mim enquanto esperamos o almoço ficar pronto!

Pareceu-lhe quase uma ordem que não poderia recusar. Mas, mesmo envergonhada, sentou-se ao piano. E ao começar a tocar, uma emoção tomou-lhe por completo. Tanto que logo perdeu as notas.

— Saint-Saens...como é lindo! Continue!

— Luíza respirou fundo e recomeçou. E teve a nítida impressão de já ter feito aquilo antes, a cabeça de Vitória recostada na poltrona, os olhos fechados...E sem que pudesse perceber, a vista escureceu-lhe e desmaiou, para o desespero da senhora.