A montanha de Hafar.
1 Epílogo
Os ventos rugem forte,
Os ventos trazem a sorte
O vento leva a canção
Os ventos conduzem as esperanças
De quem sofreu pela traição.
A primavera acabara a um mês. Foi um tempo de risos e canções, em que as espécies achavam seu parceiro ideal, a primavera instigava o amor. Claro, isso foi a um mês. Agora, no verão, não havia mais riso em quase noventa por cento das aldeias de Costa Ribeirinha. Não depois do Rei.
O Príncipe Sonor avançava por entre as vilas em alta velocidade. Seu garanhão, Alvo, respirava com dificuldade, seu corpo estava suado e as pernas doloridas. Sonor não podia parar. Em seu encalço, três das mais terríveis criaturas ganhavam terreno. Ogros. Sua pele marrom avermelhada, áspera, cheia de sujeira e sangue, era a característica da espécie. Tinham um sorriso escárnio amarelado, com dentes afiados e tortos saindo da boca larga, que ia de orelha a orelha. Eram redondos e gordos, suas cabeças eram como ovos deitados, com duas pequenas fendas onde estariam a orelha. O nariz era só uma massa sem forma na frente dos olhos. Tinham pernas curtas para suportar o peso do corpo, mas ainda assim eram rápidos.
Sonor arriscou uma olhada para trás, dois dos ogros que o seguiam haviam sumido por entre as árvores, uma estratégia para pega-lo.
– Mais um pouco, Alvo. Estamos quase lá. – Assim que o príncipe terminou de proferir essas palavras uma das criaturas pulou em sua frente. Alvo freou na hora exata e empinou, jogando Sonor no chão, o terror assolando o pobre cavalo. Outro ogro veio pelo lado, impedindo a passagem. A criatura sorriu.
– Ora, ora, principezinho. Acha que pode fugir assim tão fácil do Rei? Não. Queremos que venha conosco, amigavelmente. – O ogro sorriu na última palavra. Seus olhos deixando claro que não havia nada de amigável na proposta deles. Alvo relinchou alto, empinando novamente quando outro ogro fechou um cerco entre o príncipe. – Depois, é claro, vamos comer este belo garanhão.
Alvo relinchou novamente. Sonor tirou a espada do cinto. As três criaturas riram.
– Um palito de dente? Quanta consideração, majestade.
Sonor pensou rápido. Não precisava matar os três ogros, apenas aquele que lhe impedia de passar. Segurou a rédea de Alvo com uma mão, olhando os olhos do animal. Havia uma conexão magica com Alvo e Sonor, algo que ultrapassava o tempo. O cavalo resfolegou e se acalmou, preparando-se para correr novamente. Então Sonor atacou. Deu um corte certeiro no pescoço do ogro, que começou a sangrar na hora. Os outros dois urraram de fúria, mas Sonor não ficou tempo o bastante para ver o que fariam. Montou Alvo, que já saia de um meio trote para corrida e avançou. Meio minuto depois ouviu os sons dos pés dos ogros no chão de barro. Atiçou Alvo ainda mais. Estavam quase.
Então tudo mudou. O ar pareceu mais rarefeito, as árvores pareciam murchar. O murmúrio dos pássaros da noite se acabou, e Sonor pode perceber que estavam mortos. O chão ficou negro como piche e os ogros cessaram sua corrida, olhando o príncipe com um sorriso horrível, deram meia volta e foram embora. Sabiam que algo pior estava vindo. Um vento gélido passou pelo manto do príncipe. Alvo empinou e fugiu, correndo para salvar a vida. Do chão brotaram mãos dos falecidos da aldeia e junto uma sombra negra. A Mão do Traidor. A sombra devagar tomou a forma de um manto negro, com olhos vermelhos. Sonor sabia que era o fim. A Mão se estendeu e o envolveu em um turbilhão de ódio e desespero. O terceiro príncipe fora capturado.
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