Domingo pela manhã, a campainha toca, primeiro, Virginia pensou que fosse um sonho, deixou para lá, mas insistiram, ela desperta, pensando que que poderia ser algo sério, como um vazamento no apartamento debaixo, um incêndio ou mesmo um assalto, vestiu um roupão sobre a camisola, caso tivesse que fugir ou ficar refém no quarto do zelador com os outros vizinhos. Mas, qual foi a surpresa, ao olhar pelo visor, enxergou Jonas, olhando para os seus próprios pés. Ele havia voltado, mesmo ela tendo o expulsado na outra noite, talvez, veio buscar a garrafa quase vazia de rum. Atrás da porta, ficou indecisa do que fazer, estava despenteada e com a cara amassada de sono. Mas, por que deveria se preocupar com isso? Fechou melhor o roupão, passou a mão nos cabelos e abriu a porta, encontrando o sorriso de Jonas.

— Bom dia, Virginia.

— Bom dia, Jonas. Veio buscar sua garrafa? Eu vou pegá-la.

— Não, não é nada disso! Eu vim convidá-la para um passeio.

— Um passeio? Por quê?

— Porque é domingo e tem sol lá fora.

— Eu não sei... Tenho tanta coisa para fazer.

— Como o quê?

— Como...- Olhou em volta, ganhando tempo. – Preciso lavar roupa e tirar o pó dos móveis.

— Não pode fazer isso mais tarde?

— Mais tarde?

— Se quiser eu posso ajudá-la depois.

— Você quer me ajudar a lavar roupa?

— Sim, se sair comigo agora.

— Você é muito insistente.

— Sim, eu sou.

Derrotada, ela soltou um longo suspiro.

— Entre e espere que vou trocar de roupa – Ela já estava na porta do corredor, quando voltou. – Quer um café?

— Não, obrigado.

— Pois eu quero, não começo o dia sem um café. — E foi para cozinha, colocou água e pó de café na cafeteira. – Por que não convida aquela sua amiga, qual é mesmo o nome dela?

— Tati?

— Sim.

— Porque não estou a fim.

— Eu não entendo por que você quer passar uma manhã ensolarada de domingo, com uma velha.

— Você não é velha.

— Tudo bem! Então, por que comigo?

— Não sei, mas gosto da sua companhia.

A cafeteira começa a fazer barulho, o vapor quente sobe e o aroma de café fresco se espalha pelo ar.

— Eu não sou uma boa companhia nem para mim mesma.

— Por que você acha isso? Eu acho você muito engraçada.

— Eu tenho certeza que você é maluco. Vou mudar de roupa e já volto.

Virginia foi para o seu quarto e deparou com uma mulher sorridente no espelho, que há tempos não via. O que ela estava fazendo ali? Só por que o esquisito garoto do dragão a convidou para sair? O que será que ele queria com ela? Talvez, fosse algum tipo de psicopata ou pretendia dar um golpe nela, tirar-lhe o seu dinheiro, apesar que ele não parecia nada disso. Talvez, fosse só um garoto solitário que queria companhia, mas por que ela?

Agora, outro problema, o que vestir para andar por aí, em um domingo de sol? Já não pensava nessas pequenas vaidades, há algum tempo. Não tinha nada apropriado, pois não fazia isso nem quando Theo estava vivo. Theo. Ele morreu em um domingo, não se lembrava se fazia sol ou não, só se lembra de ele saindo, o barulho da porta se fechando, de voltar a dormir e acordar com o telefone, depois, tudo se apagou da sua memória, se misturaram em imagens desconexas e confusas. Por que não falou com ele antes de sair? Bastava algumas palavras e ele ficaria por alguns minutos a mais e nada teria acontecido, quem sabe o motorista já teria batido contra a parede, sem que Theo estivesse no meio.

— Virginia, vai demorar muito? – Ouviu a voz de Jonas.

— Já estou indo.

Pegou uma roupa qualquer e se vestiu, a mulher sorridente já não estava mais lá, quando ela saiu do quarto.

— Você demorou.

— Desculpe. Quer café? – ela perguntou, pegando um par de xícaras iguais e indo para a cafeteira, mesmo antes da resposta.

— Quero, obrigado.

Derramou o café fumegante nas duas, sentido o reconfortante aroma.

— Açúcar ou adoçante?

— Açúcar.

— Leite?

— Não, obrigado.

— Eu tenho pão e biscoito. — Sentaram-se à mesa posta, às pressas. – Há tempo, eu não tomo café com alguém em um domingo.

— Nem eu, quase nunca acordo antes do café, em um domingo.- Ele declarou e ela ergueu as sobrancelhas. — Por que ainda está sozinha, depois de tanto tempo? – Ele colocou duas colheres de açúcar no café e mexeu.

— Não sei. Não me interessei por ninguém e ninguém se interessou por mim, depois, vem o hábito da solidão, as pequenas manias, então, fica mais fácil viver sozinha do que conviver com alguém. – Ela pegou uma fatia de pão e passou manteiga.

— Eu não gosto de ficar sozinho, não por muito tempo. – Ele pegou uma fatia de pão e passou manteiga.

— Você é jovem – Ela pingou gotas de adoçante no café.

— E daí?

— E daí que com a idade, a gente se acostuma com a solidão e até gosta dela.

— Não acredito que alguém possa gostar de ficar sozinho, por tanto tempo.

— Ninguém gosta, mas vai se acostumando, então fica difícil morar com outra pessoa. – Dá uma mordida no seu pão.

— Eu gosto da sua casa, é arrumada e silenciosa, mas, tenho a impressão que é arrumada e silenciosa demais, como se ninguém vivesse aqui dentro.

Ela o encarou, espantada.

— Você é sempre assim tão sincero?

— A maioria das vezes – ele respondeu, olhando para ela sobre a xícara.

Ela se levantou apressada, não tinha razão para se sentir assim intimidada, afinal, ele era apenas um garoto estranho, nada mais, estava exagerando, imaginando razões improváveis, afinal, ela era uma mulher quase na meia idade sem atrativos, solitária e deprimida, enquanto ele era um jovem bonito e corajoso, cheio de histórias e sonhos, pronto para enfrentar o mundo.

— Já terminou? Acho melhor a gente ir agora, está ficando tarde – disse aflita.

— Tarde para quê?

— Para tudo. É melhor irmos.

Ele engoliu o último pedaço da sua segunda fatia de pão e a seguiu até a porta. Ela se sentiria mais segura, no mundo exterior, sem aquela intimidade dada pelas paredes do apartamento, não se sentiria tão exposta e vulnerável. Entraram no elevador, em silêncio, ouvindo o barulho do motor. No 4º andar, a porta se abriu e Marilza entrou por ela.

— Bom dia, Virginia.

— Bom dia, Marilza.

A recém-chegada olhou com um certo desprezo para Jonas e deu um seco bom-dia para ele, aquela atitude incomodou Virginia, mas a outra mulher não percebeu e começou a discorrer sobre assuntos diversos que Virginia não prestava atenção, até o elevador parar no térreo.

— Vamos, Jonas – Virginia falou como uma espécie de desafio, uma provocação. – Bom dia, Marilza.

— Bom dia – diz Jonas a vizinha.

Os dois saíram primeiro do elevador, Marilza ficou para trás, sem entender o que aquilo significava, só sabia que aquele era um dos garotos barulhentos do 5º andar, então o que Virginia estaria fazendo com ele? Ela não era o tipo de moça que frequentava o apartamento deles.

Ao chegarem na porta do edifício pararam diante da cortina d’água.

— Onde está o domingo de sol? Está chovendo! – Virginia ficou espantada.

— O tempo deve ter virado.

Nesse momento, Marilza pediu licença de um jeito áspero, passou por eles, abriu o guarda-chuva e saiu para a rua, ao longe, ouviram o estrondo de um trovão.