A moça e o dragão

7 Comida chinesa e beijos insanos


— Jonas, você acha mesmo que é seguro andar no elevador com essa chuva? — Virginia estava receosa, lembrando-se do que aconteceu no último temporal, permaneceu parada diante da porta do elevador, enquanto, já lá dentro, Jonas a mantinha aberta, apertando o botão.

— Não tenha medo. O que pode acontecer?

— O elevador parar e nós ficarmos presos outra vez.

— Ou não. Prefere arriscar ou subir sete andares pela escada? E se acontecer, faremos companhia uma ao outro.

— Tudo bem, eu vou – decidiu, entrando ainda vacilante.

Jonas apertou só o botão do 7º andar, Virginia percebeu, mas não disse nada, talvez, ele estivesse sendo apenas gentil para que ela não ficasse no elevador sozinha.

— O que acha de assistirmos um filme? – Jonas propôs e Virginia o fitou espantada.

— Nós dois juntos?

— Fica mais fácil, se você quiser?

— Por que você perderia a manhã de domingo comigo?

— Eu não estou perdendo nada, só acho que poderíamos fazer companhia um ao outro – Ele deu de ombros.

— Eu não sei...

— Por que não? Ou você tem algo melhor a fazer?

— Não, mas... — O elevador parou antes ela que pudesse arranjar uma desculpa convincente, talvez, nem tivesse com vontade. — Tudo bem, mas não assisto filme de guerra, nem de final triste.

Algum tempo depois, sentados cada um em uma ponta do sofá, assistindo um filme despretensioso, sem muito interesse, Jonas parecia entediado, enquanto, Virginia fingia que prestava atenção, tensa e imóvel, os braços cruzados na frente do peito. Felizmente, o filme terminou, Virginia respirou aliviada, imaginando que Jonas ia embora logo, agora, mas, ao invés disso, ele se espreguiçou preguiçosamente.

— Não gosto desse tipo de filme – ele revelou.

— Eu, também, não.

Os dois se entreolharam e riram.

— Podemos sair para almoçar – ele propôs.

— Ainda está chovendo.

— Podemos pedir alguma coisa.

— Por quê?

— Porque precisamos comer. Por que você sempre pergunta por quê?

— Pergunto?

— Pergunta.

— Eu não sei – Ela deu de ombros. – Só queria entender por que você está aqui.

— Porque eu quero. Então, vamos pedir algo? — Ela assentiu com a cabeça. — Tem um restaurante chinês aqui perto, que sempre peço, não é caro e a comida é boa, pode ser? – ele quis saber.

Novamente, ela assentiu com a cabeça.

Minutos depois, pedido feito, só restava esperar, sentaram-se no sofá lado a lado, um incômodo silêncio se instalou entre eles. Virginia sentiu o ombro de Jonas roçar de leve o seu, mesmo com esse leve toque, seu corpo reagiu com um calafrio que percorreu sua espinha. Pensou no que estava acontecendo com ela para agir assim, deu um pulo e alcançou o controle remoto, começou a mudar de canal velozmente, para manter a mente ocupada.

— Que tipo de filme você gosta de ver? – Ela procurou algum assunto.

Foi quando Jonas tirou o controle dela e segurou a sua mão. Virginia poderia ter puxado a mão de volta, libertando-se, ter brigado com ele, o mandado embora, mas não fez nada disso, ficou ali parada, assustada, sentindo a pele dele, um tanto áspera, contra a sua, o calor, que aos poucos foi se espalhando pelos braços delas, ombros, peito, cabeça, estômago, pernas, no meio das suas pernas, como se descongelasse aos pouquinhos.

Ele sorriu, os dentes deles eram levemente tortos, mas lhe davam personalidade. Foi aí que ela percebeu o sorriso dele se aproximando, mais e mais dela, as bocas se tocaram de mansinho, seus lábios formigando, uma sensação boa, como há muito não sentia, uma vontade de continuar. Aquilo a assustou, não podia ser, não podia se sentir assim tão... viva, ainda mais com aquele rapaz tão estranho, com um dragão desenhado na pele, cabelos raspados e brinco na orelha. Mas, o toque da mão dele na sua pele era tão bom, seus lábios quentes e macios, sabia que precisava parar, se afastar, mandá-lo embora do seu apartamento, da sua vida, pois como ele se atrevia a fazer que ela se sentisse assim, novamente. Jonas se aproximou mais um pouquinho, com cuidado, envolveu a cintura dela, aquilo já estava indo longe demais, já que ela percebia seu sangue fluir quente, nas veias fugindo da sua cabeça e indo para a parte de baixo do seu corpo, para entre as suas pernas, que queimavam. Não podia ser, isso era impossível, há quanto tempo isso não ocorria, sentir o desejo a consumindo, os pensamentos se desconectados.

Os braços dele a estreitaram ainda mais, língua dele úmida e quente invadiu a sua boca, ela a recebeu sem timidez. Não aquilo era um absurdo, como podia? Ela tinha que parar...os braços delas se ergueram e envolveram o pescoço dele. Aí o interfone tocou, ela se separou em um pulo, constrangida, sem saber o que dizer.

— A comida chegou – ela disse, sem graça, passando a mão nos cabelos, alisando a roupa. – Acho melhor, eu ir atender.

Ele balançou a cabeça afirmativamente e ela foi.

Almoçaram na mesa da sala quase em silêncio, Virgínia com palavras educadas e gestos corteses, tentando manter uma certa distância.

— O que você quer, Virginia? – Jonas perguntou, de repente.

— Como assim?

— Pois eu quero você.

— Eu? Por que, se deve haver um monte de Tatis, Carolines e Amandas atrás de você? Por que você quer ficar com uma velha deprimida como eu?

— Porque eu gosto de você. Gosto de ficar contigo. E você?

— Eu gosto de você e tenho medo.

— Medo?

— Medo de ser feliz e deixar de ser, de novo.

— Você aprendeu que não dá para prever o futuro, por que não viver o presente e ser feliz hoje?

— Você não entende que eu estou bem confortável com minha vida atual!

— Que vida é essa?

— A minha vida! Segura e confortável, sem atropelos! Eu nem sei porque estou tento essa conversa com você.

— Porque eu sou teimoso e não acredito em você.

— Se você não acredita em mim é problema seu! Essa conversa está ficando muito esquisita.

Virginia se levantou e começou a recolher as embalagens de comida vazias sobre a mesa, levando-as para a cozinha e colocando-as na lixeira. Jonas a seguiu, parando bem atrás dela.

— Sabe por que eu não acredito? Porque você poderia ter me mandado embora, mas não me mandou.

Virginia se virou abruptamente, com os olhos em chamas, irritada.

— Você é...

E foi quando Jonas a abraçou e a beijou, ela retribuiu o beijo, sem pensar em mais nada. Não podia negar, que sentia falta de outro corpo contra o dela, da entrega dos beijos desvairados, já fazia tanto tempo, fingindo não se importava, que estava morta, em estado de hibernação, até podia ouvir o gelo se partindo, libertando sua alma adormecida. A primavera voltou! Mas logo com aquele garoto. Aquele garoto. Aquele homem. Aquele homem, que sentia entre as pernas, por quem estava atraída, que a fazia arder de novo, viva. E no relance de sanidade, afastou-se, o encarando, e agora?