A minha casa é nos seus braços
1 Passado
Notas iniciais
Nádia. Esse era o nome dela. Será que sente minha falta? Será que não teve remorso ou saudade alguma ao deixar que ele me levasse? Não havia um pingo de culpa em seus olhos. Aqueles olhos, eles pareciam dizer “Você volta logo. Vai ficar tudo bem”, mas eu nunca voltei, e não por escolha minha.
Mamãe sempre se importara comigo. Nós assistíamos Rei Leão um fim de semana e Procurando Nemo no outro, sempre esses, nessa sequência. Eu nunca me enjoava de assistir aqueles filmes, e ela nunca enjoava de ficar deitada no sofá as noites de sábados comigo, me vendo vibrar com o filme e depois, no final, me vendo adormecer no sofá. E o melhor de tudo : eu sempre acordava na cama; que nem mágica. Mesmo sendo jovem e linda, e tendo um corpo esbelto, ela gostava de cuidar de mim. Eu nunca havia a visto com nenhum homem e ficava junto comigo, todo santo dia e toda santa noite. Eu costumava ter sonhos quando adormecia, e o engraçado era que eles, ás vezes, viravam realidade. Ás vezes, mas não por algo sobrenatural ou coisa assim. Sonhava que ganhava um urso de pelúcia, algo assim, e pedia á minha mãe. Sonhos se tornavam realidade, só sonhos, e era só pedir.
Mas naquele sábado ela não viu O Rei Leão ao meu lado. Ela me dissera que não era nada tão grave, e que iria fazer qualquer coisa com sua irmã na cidade. Era a primeira vez, que me recordo, que ela saiu a noite. Vovó ficou comigo, mas eu dormi no meio do filme.
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Eu estava sentada, escorada em uma parede amarela de algum lugar desconhecido. Havia crianças para todos os lados e, sentado ao meu lado, um garotinho com cabelos pretos tigelinha, extremamente branco, com um robô na mão. Estávamos olhando para um palhaço que estava indo embora dali, então o garotinho disse :
– Todo adulto mente!
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Acordei com um sentimento estranho. Pensei imediatamente na minha mãe. Ela foi fazer algo importante? Ela não estava com sua irmã?
Tentei apagar esse pensamento e adormeci. Percebi que estava em minha cama. Vovó deve ter me levado do sofá,como sempre Nádia fazia. E eu achei que fosse mágica, então adormeci, esperando não ter mais nenhum sonho.
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Agora eu estava em um quarto. Havia uma cama de solteiro com edredom rosa, um pequeno armário e um grande tapete branco. Era pequeno. E eu estava exatamente no centro dele, abraçando minhas pernas e chorando. Eu sentia como se alguém tivesse aberto um buraco no meu peito.
–------------------------------------------------------------------------ Acordei chorando e berrando, como uma típica criança de 3 anos. Vovó abriu a porta rapidamente e correu até mim. Ah, mas esses malditos pesadelos resolvem me atormentar de novo. Por quê? Por quê não deixaram eu apenas viver a realidade? Tinham que dar uma prévia de sofrimento antes de tudo?
– Filha, o que aconteceu? – Ela estava ofegante, parecia desesperada. Eu quase nunca chorava ou fazia escândalo por algo bobo. Eu não era o tipo de criança que chorava e berrava o tempo inteiro. Então, passadas duas horas acordada depois de ser confortada pela vovó que dissera que iria esperar até que eu dormisse bem para sair do quarto, eu consegui pregar o olho e ter um bom sono.
Mas eu havia sentido medo, um sentimento que nunca sentia, e esse sentimento nunca me abandonara até hoje. E o pior de tudo é que esse pesadelo, um dos únicos que viravam realidade, virou real. Justo o pior pesadelo que eu já havia tido, em toda a minha vida.
Eu me lembro de quando cheguei aqui. E eu sei exatamente como. Eu lembro de quando meu pai me botou no banco de trás do carro. Ele nunca me tratara bem, não que eu me lembre, mas eu não me importava com isso. Eu gostava da presença dele de qualquer jeito, mesmo que nunca fora carinhoso. A única vez que eu me lembro que ele me pegara no colo foi quando me tirou do carro, e me deixou no pátio do orfanato.
Quando saímos da casa da mamãe, eu estava no meu quarto, com trocentas barbies em volta de mim. Havia acabado de acordar e estava brincando. Minha mãe veio ao quarto e se ajoelhou a frente da cama onde eu estava sentada. Eu lembro de sua expressão, seus olhos gritavam “vai ficar tudo bem”, “acredite em mim”, mas eu não deveria ter confiado naqueles olhos. Os olhos verdes que refletiam a luz que entrava pela janela e me passaram conforto.
– É hora de ir. Eu te amo. – E ela me abraçou. Parecia uma despedida.
Meu pai entrou no quarto, me pegou no colo, e eu passei os meus pequeninos braços em volta do pescoço dele.
– Hora de ir, mocinha. – Ele até parecia bondoso. Ele até parecia que não ia fazer com que eu desperdiçasse minha vida pelos próximos 13 anos. Até que ele me deixou no banco de trás e dirigiu por um longo tempo.
Eu estava perto dele,eu não via nada de mal, nenhum tipo de culpa na expressão dele. Eu olhava pela janela e o caminho parecia não ter fim, passamos por tantos lugares, eu poderia dizer que atravessamos a cidade de Moscou, mas eu tinha 3 anos, não tinha idéia do nome da nossa cidade. Eu comecei a pensar por que ele não morava com a mamãe. E por que eu nunca fora em sua casa. Mas foi um longo caminho, e minha imaginação logo pensou que eu iria demorar para voltar pra casa. Mas eu não sabia que seria tanto tempo assim. Ele parou em frente a um prédio amarelo, com várias janelas, e definitivamente não parecia nada com um edifício comercial. Até que ele desceu do carro e me pegou no colo... ele era alto, mas eu olhava pra baixo sem medo.
Confiava nele. Eu confiava que ele não me deixaria cair. Então entramos e eu vi um monte de crianças. Algumas em volta de um palhaço ouvindo atentamente uma história, e eu queria me juntar a eles, mas eu não conseguia descer sozinha. Outras estavam sentadas sozinhas olhando pra baixo, e havia alguns adolescentes encostados na parede também de cabeça baixa, pensativas. Eu queria me juntar a todos eles e saber o que estavam fazendo. O que havia acontecido com eles. Meu... meu Pai entrou no elevador e apertou logo o último andar. Eu nunca saia de casa sem saber aonde estava indo. ... a minha mãe, ela sempre me dizia algo antes de me levar a qualquer lugar. Eu queria saber o que estávamos fazendo ali.
– Mas que garotinha linda! – Uma senhora um pouco idosa aproximou-se de nós. – Sabe, o senhor deve deixá-la no pátio. Fernando está contando uma história emocionante aos garotos, ela vai se encantar ! – A voz dela era empolgante. Eu queria saber tudo sobre aquele lugar e o que as pessoas faziam ali.
– Oh, certo. Suponho que devo voltar lá embaixo. Estarei aqui em um minuto.
É claro. – Ela sorriu pra nós, mas meu pai parecia apenas querer sair dali logo de uma vez. Descemos e havia um pouco mais crianças na roda. Ele me pôs no chão a alguns metros da roda, e me beijou na testa. Não havia nenhum laço de amor entre nós e também não havia uma fração de tranqüilidade naquele beijo.
– Fique bem. Eu volto logo. – Mas apesar da sua expressão, eu confiava nele do mesmo jeito. E me sentei junto com as crianças. Oh, as crianças. Hoje com 16 anos penso como fui tão ingênua a ponto de não perceber o que estava acontecendo ali. De confiar nele, que havia me visto pouquíssimas vezes desde que eu nasci. Mas era meu Pai, não havia por que não confiar nele. Na verdade, havia, mas a ingenuidade nunca me deixou perceber. Não até aquele momento. Nenhuma pessoa, para mim, tinha maldade, e eu aposto que era assim para maioria das crianças ali, pelo menos para as que não estavam de cabeça baixa escoradas na parede. Eles pareciam chateados, pareciam estar a espera de algo. Algo que nunca viria, e, provavelmente, estavam. Eu fiquei por dois minutos escutando atentamente a história que o palhaço contava, mas logo me levantei. Eu queria mesmo saber o que havia com aquele lugar. Então eu fui até um garoto com cabelo preto “tigelinha”, e me sentei ao lado dele.
– O que “cê” tá fazendo?
– Quem era aquele homem que tava com você?
– Ele é o meu pai.
– Que bom que você tem um. – Eu sorri. Não tinha a mínima idéia do que ele estava falando, na verdade eu achei que ele estava brincando comigo. Mas ele foi sério.
– Todo mundo tem um, né? – Falei inclinando a cabeça, confusa.
– É mesmo?
– Num sei. – Eu me levantei e corri pra falar com aquele homem. Ele havia parado de contar histórias e as crianças haviam se retirado. Eu achei que seria bom falar com ele, mas na verdade, eu achei que seria bom falar com todos no mundo. Criança têm uma tolice tão alegre e fofa.
– Moço. – Ele era realmente muito alto, eu balancei um pouco a calça dele na altura do tornozelo, pra que ele olhasse pra baixo e me desse atenção.
– Olá mocinha. Quer um pirulito?
– Brigada, mas minha mãe me disse pra nunca aceitar coisas de estranhos.
– É um bom conselho. – Ele disse, sorrindo. – No que posso ajudar você?
– Eu tenho uma pergunta.
– Manda ! — Ele disse, empolgado.
– É verdade que todo mundo tem um pai, né?
O sorriso dele se apagou rapidamente. Eu também não saberia responder isso á uma criança de 3 anos em um orfanato. Ele me olhou como se estivesse confuso com a pergunta, e pensou um pouco antes de me responder.
– Todo mundo tem um pai. Nem sempre eles estão com a gente, mas.... Ah, sim, todo mundo tem um pai.
– Brigada, moço.
Eu falei, e corri pra me sentar ao lado do menino novamente. Ele permanecia com a cabeça abaixada.
– O que que você foi “falá” com aquele “homi”?
– Eu fui perguntar se todo mundo tem um pai, ué.
– O que ele disse?
– Claro que sim.
– Ele disse a verdade?
– Pra que mentir?
– Todo adulto mente. O pai ou mãe de quase todo mundo aqui mentiu.
– Quem te contou isso?
– Os “minino”. — Ele disse, acenando na cabeça de alguns garotinhos do outro lado do pátio.
Nesse momento eu estava de joelhos de frente pra ele, mas resolvi sentar ao lado dele novamente. No momento em que me sentei e olhei pra frente, meu Pai estava descendo a escada. Tinha pressa, muita pressa, e não parecia calmo. Andava cada vez mais rápido e não olhava para onde estava a roda á minha procura, ele não se preocupou em saber onde eu estava, e estava quase atravessando a metade daquele enorme pátio.
– Papai ! – Eu gritei, sorrindo, ainda sentada. Mas ele não parou. Ele não olhou pra trás, e eu tive impressão de que não o faria.
– PAPAI ! – Gritei mais alto, já em pé. Ele estava cada vez mais perto da porta. Eu era o único que eu conhecia ali, que me protegia, na verdade era o único vilão, mas me protegia... pelo menos na minha cabeça de criança. Comecei a suar e fiquei assustada, ele estava indo embora, e não parecia ter o mínimo interesse em me levar junto. Ele não me deixaria ali, deixaria?
–PAPAAAI!!!!! – Eu gritei mais alto, e já começava a correr em direção a ele. Eu queria impedi-lo de ir embora, ainda com esperança de que aquilo fosse uma brincadeira.
Ele já estava a cerca de dez passos da porta e eu caí no chão,começando a chorar. O pátio começou a ficar vazio, e todos indo pra uma porta só. Já deveria ser hora do almoço e eu estava ficando com fome. Meu pai não ia na minha direção, e não ia na mesma direção deles. Ele iria embora, iria embora sem mim. Ele era meu pai, ele não podia, não podia me deixar ali. Eu estava torcendo pra que aquilo não fosse real, que ele parasse. Que aquilo fosse um pesadelo. Eu chorava, cada vez mais alto, mas não pela queda. Eu estava com medo, e ele estava me deixando. Sem nem pensar em dizer adeus.
– PA... PAPAAAAAAAAAI ! – Eu gritei o mais alto que pude. Mas ele foi embora. Estava subindo os degraus para a porta da saída. Ele subiu o primeiro rapidamente, e o segundo mais devagar, no momento em que gritei, e eu estava ofegante, e esse momento tinha me dado esperança de que ele parasse de andar. Que ele olhasse pra trás, que ele me visse ali e me socorresse como todo pai fazia. Eu estendi minha mão para a direção dele querendo impedir ele de ir embora. Mas era tarde. Ele passou por aquela maldita porta.
Então o meu choro já não fazia tanto barulho... ele tinha ido, tinha me deixado ali, sozinha. Eu em levantei do chão e corri até a porta, eu queria ir até ele, queria que me levasse embora, e corri o mais rápido que pude, até tropeçar no degrau e bater com a boca no degrau de cima.
– PAAAAAAAAI! – Eu gritei de novo, mais alto que todas as vezes. Ele não voltaria, e isso não fazia sentido algum pra mim.
– “ Machucô”? – O garotinho veio até mim, me vendo chorar, e se ajoelhou ao meu lado. Ele parecia ter por volta de 5 anos e tinha os olhos apreensivos. Eu balancei a cabeça negativamente. Ele se levantou e correu pra porta que todo mundo havia entrado e voltou depois de alguns segundos com uma mulher, que não me era estranha. A mulher do última andar, era ela. Na minha cabeça ela diria o que estava acontecendo.
– Oh meu deus, o que aconteceu? – Ela parecia preocupada, e me colocou no colo enquanto falava.
– Pra onde foi o meu papai?
– Papai vem te buscar. – Mentirosa ! Mentirosa de uma figa! — Escute, ele foi fazer uma viagem, e ele vai demorar um pouco a voltar. Nós vamos cuidar de você. – Ela disse, voltando a sorrir, como tinha feito da primeira vez que eu havia visto ela.
– Por que eu não posso ficar com a mamãe ? – Ela inclinou a cabeça, sorrindo.
– Você se machucou. Vamos fazer um curativo, tudo bem?
Eu balancei a cabeça, agora positivamente. Então ela me pegou no colo e fomos até o elevador. Fomos para cima, e uma enfermeira me atendeu. Uma hora depois eu estava dormindo na maca daquela sala, que se parecia com uma sala de hospital. Eu ainda estava me perguntando que lugar era aquele.
Até que eu acordei, e a senhora estava sentada ao lado da minha cama.
– Você está bem, mocinha?
– Papai foi viajar pra onde?
– Nem eu mesma sei. – permaneci calada,e algumas lágrimas rolaram pelo meu rosto.
– Eu quero papai aqui ! Eu quero minha mãe ! Eu quero eles agora ! – Eu não estava gritando e estava com saudade, eu queria que ele tivesse dito isso pra mim. Eu confiava que ele não me deixaria cair, mas eu caí chorando por ele, e ele não fez nada, ele havia ignorado tudo aquilo. Ele havia ignorado meus gritos de mágoa a procura dele, e eu não entendi o por que. E ele saiu mesmo assim, correndo de sua filha. Tentando não ouvir os gritos desesperados, e sem sentimentos de culpa. Pelo menos foi o que pareceu.
– Não chore, querida. Você vai fazer muitos amiguinhos aqui.
Eu lembrei daquele menininho. Eu lembrei do que ele havia dito, e sua voz se repetiu três vezes naquela minha cabeçinha, a frase que eu não havia entendido. “Todo adulto mente”. Por que todo adulto? Eram todos, mesmo? E crianças? Crianças não mentiam? E ele, ele estava mentindo pra mim? Eu parei de chorar.
– Volte a dormir. Quando você acordar, tem várias brincadeiras legais aqui. – Eu não queria brincar. Eu queria saber onde meu pai estava, eu queria saber por que havia me deixado ali, justo ali. Eu queria voltar ao sofá de minha casa, nos braços de minha mãe, cantando Hakuna Matata ou imitando o Nemo. Mas eu a obedeci, eu dormi, ainda confusa demais.
Nos próximos dias eu brincava com as outras crianças, mas nunca mais havia falado com aquele garoto. Nunca mais tivera oportunidade de falar com ele, eu não havia o visto.
Até que quase um ano depois, aos meus 4 anos, correndo pelo orfanato eu passei por dois adolescentes conversando, e um deles dizia:
– Eu nunca quis vir pra essa porcaria de orfanato.
Orfanato? O seria orfanato? E o que seria porcaria? Não tinha idéia. Uma criança de três anos não teria idéia. Mas precisava entender aquelas palavras. Eu sabia que orfanato era onde eu estava. Mas pra que servia? Por que tinham tantas crianças ali? Eu corri atrás do adolescente, e cutuquei ele na panturrilha. Era mais alto que o meu pai. Ele olhou pra baixo.
– O que é “olfanato”? — Perguntei, confusa.
– Qual o seu nome, garotinha? – Ele se abaixou. Parecia muito legal.
– Agnes.
– Bem, pequena Agnes, é onde nós estamos agora.
– Por que tem tantas crianças aqui? – Ele olhou pro seu amigo, como quem dizia “cara, o que eu faço agora”?
– Bem... Os pais, eles, bem, colocam as crianças aqui – ele voltou a olhar pra mim, como se tivesse decidido o que iria dizer. – e dão para adoção. Alguns pais, não todos.
– O que é adoção? Por que eles fazem isso? Meu pai me deu? – Eu o deixei sem saber o que dizer. Abriu a boca pra falar algo mas demorou pra dizer as palavras. Eu estava ficando chateada, enfezada, não gostei de ouvir aquilo. Ele engoliu em seco e jogou seus cabelos castanhos, que caiam acima dos olhos, para trás.
– Adoção é quando as crianças que ficam aqui, são, bem, levadas por pessoas. As famílias vem aqui e levam as crianças pra viver uma nova vida. Os casais que têm filhos fazem isso, quando, quando eles precisam, ou querem. – Ele falava pausadamente. Eu fiquei realmente triste, brava, irritada, foi como levar um soco no estômago. Ele me deu pra outra família vir e ficar comigo? Eu simplesmente não acreditava naquilo. Meu mundo caiu.
– Quê? Eu não quero outra família ! Eu quero os meus pais! – Eu começava a chorar. Eu havia sido abandonada ali? Esse era o motivo de ele friamente virar as costas pra mim e não olhar pra trás? Ele havia me deixado ali por livre e espontânea vontade. Eu não sabia que estava com raiva dele ou de mim mesma. O garoto arregalou os olhos, ele percebeu que era melhor não ter me dito aquilo.
– Calma, calma, não chora. Não. – Ele falava,e seu tom acusava “droga, por que eu fiz isso?”. Não sabia o que fazer. Ele colocava as mãos na cabeça e eu resolvi gritar menos, resolvi tentar me acalmar. Por que eu senti que ele teria problemas. Mas logo que parei eu saí correndo o máximo que pude, lembrando do dia que eu caí chorando pra ele me levar embora. E eu aqui no chão, como naquele dia, a garota que não tinha forças mais pra correr. Eu sentia uma dor de cabeça imensa vir agora. Eu comecei a chorar, até que apareceram funcionários e me socorreram.
– Ei, acalme-se ! O que aconteceu ? Por que está chorando?
– Eu quero o meu pai ! Eu quero ir embora daqui ! – Eu me sacudia no colo do homem de uniforme branco. – Eu sei que ele não vai voltar. Vocês mentiram pra mim, eu quero ele aqui, agora! – Eu disse a ultima palavra mais alto, morrendo de chorar. O choro transtornado de uma criança que não veria sua família nunca mais. Que nunca mais voltaria para casa, e que tinha certeza que não encontraria outra.
Que foi deixada ali por seu próprio pai. Ele imediatamente me levou até aquela mulher, de novo.
– Jessica, eu não sei, ela estava chorando.... ela quer o pai dela. – Ele parecia muito, muito sem jeito. Eu só queria sair dali, sair dali naquele exato momento, direto pra minha casa. Mas nunca mais voltaria pra lá.
A mulher a quem ele chamou de Jessica me pegou no colo e me levou pelos corredores,tentando correr, sem sucesso por causa da idade. Até que ela abriu uma porta e girou uma cadeira. A minha primeira vez na sala da diretoria. Me colocou na cadeira e se abaixou o máximo que pôde para olhar nos meus olhos, e quando eu estava olhando pra ela, ela começou a falar.
– Agnes. Nós vamos cuidar de você, você pode encontrar um novo lar. Você vai encontrar uma família. — Aquilo era demais para uma criança de 4 anos.
– Eu não quero outra família! Só quero minha família de volta! – Eu gritava e chorava, fazendo a situação ficar mais escandalosa o possível. Encontrar outra família? Aquilo não entrava na minha cabeça.
– Agnes, olhe bem pra mim. Eu não tenho culpa de você estar aqui, e eu não posso te levar de volta. Eu nunca quis que você chorasse. A sua família te deixou aqui, eu estou cuidando de você, Agnes. Você tem que aceitar isso. – Eu acho que ela havia se esquecido que eu era uma criança de 4 anos. Que ela havia esquecido que uma criança quer o que quer, que dêem pra ela e não se importam se não há uma maneira. E se você não dá, elas vão chorar. Será que ela havia esquecido mesmo de que estava falando com uma pessoa que havia acabado de sair das fraudas? – Um dia, Agnes, você terá que aceitar isso. – Ela disse, arqueando as sobrancelhas. É claro que eu não havia parado de chorar. Ela olhava nos meus olhos, era estranho, ela me olhava como se no fundo conseguisse olhar bem ao fundo dos meus olhos, como se ela conseguisse entender o que eu estava sentindo apenas se concentrando nos meu olhos que não paravam de derramar as lágrimas. Como se ela conseguisse ver... ver absolutamente tudo o que eu pensava, tudo o que eu sentia. A intensidade do olhar dela me fazia sentir isso. Eu não havia parado de chorar, mas diminuí um pouco, eu estava tentando entender a situação, por que ela olhava tão fundo nos meus olhos. Era um olhar compreensivo e dizia “você não precisa disso, você não precisa chorar”, e de alguma forma eu me sentia mais calma. Isso fez estranhamente com que eu parasse de pensar nos meus pais, na minha família, pelos segundos que ficamos ali, perdidas nos olhares umas das outras. Até que ela se levantou e deu um beijo na minha testa, saiu e me deixou ali sozinha.
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Eu acordei no lugar onde ela havia me deixado, mas ainda estava de dia. Suponho que tenha dormido cerca de uma hora e meia, e sentia o rosto estranho por causa das lágrimas secas. Mas em questão dois segundos eu lembrei o que havia acontecido ali e comecei a chorar, mas dessa vez baixo. Um choro tímido, mesmo que não havendo ninguém ali. Então eu nunca mais veria a minha família. Então foi por isso que minha mãe disse “é hora de ir” antes de meu pai me pegar no colo e me levar naquele maldito carro. Por isso ele me deixou chorar, caída no chão, sem se importar com como me sentia. Por isso ele estava andando apressado, por que ele queria se livrar de mim logo. E ao me lembrar dessas coisas eu chorava cada vez mais, e fiquei por cerca de meia hora ali, com as mãos no rosto chorando, bem, se eu tivesse a minha idade não seria assim, mas veja bem, eu tinha 4 anos. Até que me saí bem. Resolvi me levantar e sair. E não, eu não me orgulho de ter chorado por aquele homem.
Jessica me mostrou o meu quarto no orfanato, e eu fiquei ali, pensando em tudo. Estava com uma dor de cabeça infernal, mas a dor que me atingia não era só na cabeça. Era dentro de mim, era no meu coração, tocando o ponto fraco de qualquer inocente criança, os pais. A dor de saber que nunca mais teria a benção da sua mãe novamente.
Uma raiva do meu pai cresceu em mim ao passar dos anos, eu me lembrava todo santo dia quando eu abria os olhos de manhã, eu me lembrava do dia em que eu caí e me machuquei chorando pra que ele não fosse embora, ao menos para que não me deixasse ali. Eu gritei o mais alto que pude. Mas ele foi embora, talvez sem uma fração de culpa, ouvindo meus gritos. Ouvindo-me gritar sem olhar pra trás, sem se preocupar em me acudir. Então eu estou até feliz, por que eu criei meio que um ódio dele. Pelo menos eu não estou com as pernas encolhidas chorando loucamente. É melhor sentir ódio do que isso, pelo menos eu acho. Eu acho que naquela época não era exatamente raiva. Ora, um criança de 3 anos nunca conseguiria odiar o pai totalmente. Pode ser que hoje, com 16, eu o odeie com todas as minhas forças, mas naquela época eu apenas queria ele de volta, e eu estava brava,apenas brava com ele por que não vinha me tirar dali.
Seis meses depois de saber a verdadeira razão por estar ali eu tive um sonho. Eu sonhava que estava dormindo, até que o meu pai chegou atrás de mim, me vendo dormir. Ele tocou meus cabelos castanho-escuros e depois mexeu no meu braço com cuidado. O cuidado de um pai,coisa que ele nunca demonstrara comigo.
– Eu voltei, Agnes. Eu voltei pra buscar você. Eu vou te levar de volta.– Ele disse. Ele dizia como se quisesse que eu me empolgasse, num tom que demonstrava “olhe só, se anime ! Eu voltei por você. Nós vamos pra casa”, e eu finalmente me virei e vi seu rosto. Fiquei em transe por segundos e depois me descongelei e dei um abraço nele. Talvez o abraço mais forte que eu havia dado em toda a minha vida, e eu fechava meus olhos e começava a chorar sem barulho. Um choro de saudade.
Então a voz do garotinho que eu havia conversado entrava na minha mente pela milésima vez. “Todo adulto mente”, essa frase, exatamente essa frase que ele havia me dito. Então quando eu abri meus olhos no sonho, eu estava abraçando o nada. Não havia ninguém ali. Havia ele ido embora ou nunca estivera ali? Eu comecei a chorar desesperada. Eu saía por todo o meu quarto procurando pro ele. Ele estava na gaveta? Logo descobri que não. Até que me sentei no chão e comecei a chorar o mais alto que podia. Então eu despertei do sonho, para minha surpresa também chorando, e como havia feito no sonho, eu corri por todo o meu quarto a procura dele. Eu procurara até na minha bolsinha de lápis de cor, e é óbvio que ele não estava lá. A cada segundo o sonho passava pela minha cabeça, e no outro segundo a voz do garotinho.
Ele tinha razão? Todo adulto mentia? Ou será que tudo e todos no mundo? Seria aquilo um aviso? Eu não deveria confiar no meu próprio pai? Até mesmo aqueles olhos compreensivos da idosa Jessica que tanto me confortavam, havia uma dose de mentira naqueles olhos? Eu não poderia confiar neles? E foi a partir desse momento que eu não quis mais me enturmar, que eu não quis mais brincar, que eu não quis simpatizar, não queria mais viver a vida. Eu só queria que a primeira parte daquele sonho fosse real. A parte que eu o tinha em meus braços e que a voz do garoto não estava na minha cabeça. A parte que ele me dissera pra acordar, que me dissera que me levaria de volta pra casa. Eu queria muito que aquilo fosse real, mas não era. Infelizmente não era. A única realidade ali era eu me balançando no meio do quarto de olhos fechados com a voz do garoto na minha mente, me dizendo que todo adulto mentia. Mas isso não fazia sentido pra mim, não fazia sentido que os adultos mentiam. Que os meus pais mentiam. Mentiam ao dizer ao seu filho que o amava. Mentia ao lançar um olhar amoroso. Ele mesmo poderia ter mentido pra mim. Se o meu próprio pai me deixou no chão,chorando e gritando, sem olhar pra trás, por que eu deveria dar confiança a outra pessoa? Por que eu deveria confiar em alguém? Eu deveria expulsar todos da minha vida? Os meus pensamentos são os únicos que merecem confiança? Com o passar do tempo eu refletia cada vez mais e cheguei a conclusão que sim. Todos os dias sentada á beira da janela olhando as pessoas tocarem sua vida na rua. O quanto eu queria ver a cidade, ver a vida lá fora de novo. Mas a culpa era dele, do meu próprio pai, por culpa dele eu estou presa aqui até hoje. Se eu escutasse o meu coração, ele me fazia chorar, ele me fazia ter saudade do meu pai, e eu não queria sentir isso. Eu queria poder sentir raiva dele, eu queria poder não ligar pra ele, queria dizer que ele não importava pra mim, mas se eu cedesse ao meu coração eu nunca iria parar.
Aos 9 anos, eu havia ouvido muito falar de uma garota chamada Eliza. Mas eu não me interessava em conhecê-la, na verdade, eu ia apenas para a sala de aula. Nada de ir brincar com as crianças no pátio. Eu preferia brincar com meus pensamentos, eu precisava fazer o rancor crescer dentro de mim para superar isso, pelo menos eu achava que essa era a única forma de não passar anos pensando nele. Mas era só o que eu fazia, pensava com raiva, mas eu pensava.
Até que, nas poucas vezes que resolvia descer e ir ao pátio, havia uma garota loira andando com duas atrás dela : uma ruiva, outra de cabelos negros. Aquilo parecia coisa de filme que se passa em colegial, com três patricinhas achando que são donas do mundo. Mas em versão júnior, é claro. Ok, aquilo era realmente estranho. Mas eu me revoltei muito no momento em que ela empurrou um garoto no chão. Tinham muitas crianças correndo pelo pátio e eu não entendia a empolgação delas, mas elas pararam e concentraram toda sua atenção na situação que também havia me intrigado. Ele era negro, tinha os olhos quase pretos e era careca. Ele olhava pra ela como se não entendesse nada, dava pra notar, que ele não tinha feito nada com ela. Ele tinha a expressão um tanto desanimada que deixava muito clara a sua frustração por estar sofrendo preconceito. Eu queria socar aquela garota, quem quer que ela fosse.
– Ei ! – Eu disse. A heroína da pátria chegou. A garota ruiva se virou pra mim, e pude ver como era seu rosto. Tinha os olhos castanhos claros, seus cabelos iam a abaixo do peitoral com uma pequena trança lateral e ela vestia um vestido branco todo de renda.
– Perdeu alguma coisa aqui? – Ela disse com as mãos na cintura. Seus olhos eram desafiadores e cruéis, talvez ela achasse que com eles lançaria lasers em alguém. Parecia ter 10 anos.
– Quem botou na sua cabeça que você poderia tratar alguém assim? – Eu disse, em alto tom. Apesar dos olhos cruéis, ela tinha a feição de uma garota doce e convincente. De uma garotinha sorridente agarrada com o pai. Mas ela não agia como dava a impressão. Não mesmo.
– E quem pediu sua...
– Ninguém precisa ter pedido minha opnião, mas ao invés de maltratar os outros você devia caçar algo que preste para fazer.
– Que educação maravilhosa você tem. Só podia ter chegado aqui cedo. – Ela fez a típica mão de patricinha.
– Maravilhosa mesmo, não xinguei ninguém. Eu cheguei aqui cedo sim. Mas eu tenho ética o suficiente pra não ser alguém como você. – O garotinho havia se levantado do chão. Ele parecia ter 7 anos, e deu um pequeno aceno pra mim, como se dissesse “obrigado, basta” e foi se sentar em um banco por volta do pátio, de cabeça baixa. Eu saí de lá, entendendo o olhar do garoto, assim que ela arqueou as sobrancelhas e fez cara de “como você ousa?”. Eu odiava descer para o pátio, por que tinham muitas crianças correndo felizes, o que eu com toda certeza não entendia como elas conseguiam aceitar o fato de que tinham sido deixadas pelos próprios pais ali. Como elas conseguiam processar aquilo? Como eram alegres daquele jeito?
2 anos depois, com 11 anos, depois de muitos bate bocas com Eliza (aquela garota me irritava mais do que qualquer coisa), Jessica me chamou na sala dela, depois das aulas diárias. Eu não dava uma palavra com Jessica desde o dia que ela me mostrou meu quarto... fazia anos que eu não falava com ela, a pouco mais de sete anos. Eu estava curiosa pra saber o que ela queria e tinha na mente que ela me diria pra me enturmar, pra comer mais. Eu não me preocupava em comer, as vezes acordava com olheiras bem marcadas no quarto e preferia não sair dele. Antes eu odiava Jessica, mas hoje eu passo muito tempo com ela, e por incrível que pareça eu gosto dela. Ou dos livros dela. Eu fico lá dentro da sala da diretoria, lendo livros, e ela sempre fala comigo. Não é tão ruim assim.
– Jessica? – Eu disse, entrando devagar na sala dela. Estava... bem, estava com o rosto envelhecido. Mas no mesmo pique. – Me chamou? – eu não chamei ela de Sra. Jessica, mas ela não pareceu ter se incomodado nem um pouco com isso.
– Olá, querida. – Ela disse, fazendo um gesto pra que eu me sentasse. Eu obedeci. – Eu imagino que você se perguntou o por que de seu pai ter te deixado aqui desde que caiu no chão, chorando pra que ele não saísse por aquela porta. – Ela falava pausadamente tentando tomar cuidado com as palavras, mas não era bem isso que estava fazendo, na verdade, estava jogando tudo aquilo na minha cara, estava me fazendo lembrar do momento em que cheguei ali. Eu quase deixei as lágrimas caírem, mas eu fechei os olhos e respirei fundo.
– Você observou tudo aquilo e não foi me ajudar? – Ela assentiu. Que desumana !
– Era preciso. E o seu pai poderia fazer o que quisesse, da forma que quisesse. A minha tarefa é cuidar de você. Na verdade, foi a forma que o seu pai escolheu de te deixar. Sem se despedir. – Era como se ela medisse as palavras e acabasse falando exatamente as que iriam me magoar. – Eu nunca quis que você chorasse, na verdade eu nunca quis que nenhuma criança aqui ficasse sentada de cabeça baixa se perguntando se seus pais um dia iriam voltar e dar um abraço nelas. Eu queria que todas elas saíssem pulando sem se lembrar disso. Algumas o fazem, mas é por que ainda não sabem por que foram deixadas aqui. E todas são deixadas por um motivo, Agnes. – Exatamente como estavam quando cheguei aqui, que afastadas das crianças alegres sendo ouvintes de um homem simpático, as crianças de cabeça baixa, e eu me perguntara por que estavam assim. O garoto. Eu não via o garoto a anos e a voz dele entrava na minha cabeça do mesmo jeito. Aquilo era o mais estranho de toda a história, uma única frase que ele dissera me causava um mundo de perguntas na cabeça que eu não sei e nem saberei a resposta. – Enfim, você... você está interessada em saber como seu pai te deixou aqui? É a sua história, Agnes. A sua dolorosa história que se eu fosse você preferiria não saber. Mas se você escolher ouvi-la, você não pode culpar ninguém por isso. — Eu olhei pra outra direção. Todos esses anos eu fiquei treinando meu cérebro pra ter raiva daquele homem e agora eu me daria por vencida pra ouvir como e por quê aquele homem havia me deixado aqui? Eu voltaria a chorar baldes por esse motivo, tendo feito tanto esforço pra ter ódio? Sim. Eu faria isso. Por que era possível ouvir a razão em vez do coração quando estava sozinha no meu quarto, mas realmente impossível quando me ofereciam a oportunidade de saber como havia parado ali e por que.
– Sim, eu quero saber. – Ela respirou fundo e juntou as mãos.
– Seu pai, Adam, ele se casou com uma mulher – eu imaginava essa mulher ser minha mãe. – e ele teve uma filha com ela. Essa mulher,ela se chama Alice. – Eu devia ter ficado com um bico maior que o mundo, e olhei pra baixo. Ela devia ter dito Nádia. – E um dia ele foi a um jantar com amigos do trabalho. Dentre eleles, estava Nádia, sua mãe. E ele ficou... ficou cego por ela, acho que podemos descrever assim. E não há salvação, Agnes, pra quando uma pessoa pensa em outra a cada minuto. Era o proibido, mesmo que fosse quebrar a promessa que ele fizera no casamento, na frente do padre. Era o que o coração dele queria, Agnes, e não havia uma salvação pra isso. Nunca tem. – o coração? Acho que foi bem mais a cabeça de baixo. Eu me perguntei se ela queria que eu sentisse a intensidade da história toda ou se ela queria que eu entendesse a atitude que meu pai tivera. Ou se queria que eu pensasse que traição é algo justificativo.
– Eles não foram... – Ela parecia ter medo de prosseguir a frase.
– Amantes? – Ela assentiu.
– Não por mais de uma semana. Mas foi o bastante pra você estar aqui hoje. Então, você era uma bastarda para ele e para a família dele. Não sei como sua mãe permitiu, ou se ela permitiu, mas sei que essa é a história da sua existência.
Resumindo, um erro. Eu me levantei e saí da sala. Eu abri a porta e fiz um barulho como se tivesse arrombado, e eu corri para o quarto.
E foi a partir desse momento que eu comecei a pensar e procurar descrições para o que eu era. E não encontrava nada de bom para descrever isso. Eu era o fruto de erro,simplesmente um erro que não era meu. E eu estou aqui por um erro que eu não cometi, inclusive. E fui descartada, fui jogada nesse lugar, o que piorou a descrição de mim mesma. Um lixo. Lixo é descartável, pode ser jogado em qualquer lugar, assim como ele tinha feito comigo. E além do mais, ninguém quer o lixo. Nem o meu próprio pai queria, o que ou quem iria gostar de mim? Iria se importar? E depois de me comparar ao lixo eu ria da minha própria cara. Sarcástica. Que idiota, Agnes. Ninguém precisa de lixo. E ninguém precisa de mim. Mas eu não chorei por isso. Eu me recusei a me sentir triste por causa dele a partir daquele momento. E assim comecei a descer no pátio no máximo uma vez na semana,a comer de 6 em 6 horas e a não me dar nada bem com funcionários, sendo no mínimo muito fria com eles.
E todas as perguntas voltaram a minha cabeça e acompanhadas de muitas, muitas outras. Quantas mentiras meu pai havia contado pra mim? Onde estaria o garoto que me dissera a frase que causou tantas questões em minha cabeça? Ele teria sido adotado? Eu devia ter ido ao pátio mais vezes e tentado conseguir outra família? Por que Eliza era tão cruel? Minha mãe estava sendo sincera comigo quando me dissera eu te amo? Por que se amasse, ela não deixaria que meu pai me deixasse naquele lugar. Eu não tinha motivos pra sorrir, pra descer ao pátio e brincar com as outras crianças. Não tenho coisas e pessoas pra me apegar, e isso seria perda de tempo. Eu não tinha nada pra aproveitar, nenhum único momento. Eu não ganharia nada me preocupando com algo ou alguém. Ninguém faria o mesmo.
Eu gostaria que todos no planeta se colocassem no meu lugar, no lugar de todas as crianças ali. Se imaginassem vivendo em um único lugar, observando as pessoas tocando a vida delas pela janela sem poder tocar a sua, sem ninguém pra falar além do próprio pensamento. Eu gostaria que todos imaginassem se não tivessem a mãe dizendo “boa aula” ou “ bom trabalho” todo dia, sem a motivação do pai pra subir na vida, comida de vó e um turbilhão de outras coisas que uma pessoa realmente feliz tinha. Que todos imaginassem o contrário, que fora deixado pelas pessoas que amava e confiava incondicionalmente, que essas pessoas te largassem chorado no chão por elas, quando tinha apenas 3 anos. Não, eu não quero que todos no mundo sejam tristes, mas que pensassem um momento, que há milhões de sorrisos em todo o mundo nesse momento, milhões de pessoas se divertindo com quem amam e milhões de crianças sem essa oportunidade. Sem sorriso, também sem choro, aliás, sem sensação alguma. Eu aprendi que existe uma grande diferença entre viver e apenas estar vivo. E ninguém, eu sei, ninguém gostaria.
Ás seis da manhã eu abro meus olhos pra fazer o que sempre faço em quase todos os meus dias de vida, se é que faz sentido chamar ela assim.
Ah, mas talvez eu não seja, basicamente, um lixo.
Posso ser também o nada.
Ou, não sei, qualquer coisa que ninguém quer e ninguém se importa. E que desejam se livrar logo.
Ou então, simplesmente, Agnes Valdivitch.
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