Dois anos depois da tragédia, seu primo Neji veio morar em sua casa. O garoto era alto e bonito, silencioso e bem educado. Mas por baixo da fachada séria e respeitosa se escondia um humor negro descomunalmente ácido. Ele não era arrogante por querer, era parte de sua essência. Ele evitava pensar que era superior aos outros, mas realmente era difícil e a única pessoa na qual ele era apanhado pelo pensamento de inferioridade era firmemente humilhada por ele.
Por ele.
O Hyuuga era um garoto que gostava de regras.
Uma delas – talvez a que ele considerasse mais importante – era que a pessoa que ele humilhava só podia ser rebaixada por ele e uma única outra pessoa, o próprio pai dela. E com toda sua sinceridade, que não era pouca, ele fazia questão de anunciar essa exigência e vê-la ser cumprida.
O menino estoico fazia sucesso entre as meninas. Era o pivô do time de vôlei e desde que chegou o time não perdeu nenhum jogo nas estaduais. Ainda que treinasse quase todos os dias ele não deixava as notas cair. Era um gênio belo e inteligente.
Certa menina que compartilhava uma linhagem sanguínea próxima a dele costumava compara-lo secretamente a uma versão morena do Dorian Gray. Afinal ele era belo e dissimulado como o personagem. Assim como o mesmo ele sentia prazer no que se julga errado, mas ele não cometia crimes hediondos – não que ela soubesse -, apenas sentia um enorme prazer em fazê-la se sentir inferior.
Ah!, como eram tolos aqueles que, certo dia, resolveram desafia-lo. A mente em transição cheia de hormônios, preconceitos e conhecimento de um mundo mais maduro mesmo quando eles tinham a mente de uma criança os levaram a fazer a mais estúpida das brincadeiras com o pior alvo possível. Apunhalaram quem era o ponto fraco e o ponto forte do Hyuuga novato. Falassem o que quisessem, aquele era um homem ciumento e super protetor e ninguém mexeria com ela sem primeiro passar por cima dele.
Na hora do intervalo o moreno viu um folheto. Curioso, foi até o pedaço de papel e acabou por cerrar o punho enquanto olhava a imagem. O rosto redondo de olhos claros e acinzentados de sua prima o mirava com leveza, a face se mantendo séria, mas sem pesar, apenas relaxada, já o corpo trajando apenas um biquíni roxo era roliço, obeso em toda sua glória branca. Ele abriu um sorriso de canto falso e seguiu até a mesa dos que se autoproclamavam populares. Colocou o folhetim na mesa e elogiou o trabalho, disse que se não fosse por um pequeno problema, ele poderia chegar a acreditar que ela realmente possuía aquele corpo.
– E qual seria o problema? – um garoto de cabelos rebeldes e castanhos perguntou enquanto comia suas batatinhas. – Eu não gostei da montagem, achei-a... Agressiva a imagem da doce Hinata, mas mesmo assim, admito que é um excelente trabalho. Estou curioso quanto ao defeito na imagem.
– O defeito? – o Hyuuga riu e sacou o celular. Seus dedos voaram sobre a tela até pararem e ele virou o celular para que o grupo visse a imagem. – É esse.
Uma garota de cabelos azul marinho molhado encarava-os divertida, seus lábios rubros estavam curvados em um sorriso e suas bochechas coradas. A franja que sempre lhe cobre o rosto estava jogada de lado de forma ligeiramente bagunçada, o corte de cabelo curto meio reto, meio repicado, com um sidecut na nuca, dava-lhe um ar ainda mais descontraído. Mas o que realmente chamava atenção eram os seios medianos cobertos pelo maiô azul e branco, seguindo para uma cintura fina e barriga lisa.
– Essa é a Hinata? – murmurou Sakura.
– Sim.
– Droga! – Naruto soltou.
– Nii-san?
Todos olharam para a menina de voz soprano que acabara de interrompê-los. Seu cabelo de moletom largo do colégio somado às calças largas escondiam completamente suas curvas. Os olhos de brilho sempre gentil, sempre tão doce, hoje brilhavam com algo a mais.
Raiva.
– Sim?
– Todos es-estão rindo de mim.
– Eu sei. Vamos punir o desgraçado que fez isso, certo Uzumaki?
Naruto congelou em seu lugar com o uso de seu sobrenome. Sentia o sangue correr mais rápido do que nunca. Perguntava-se como o menino descobriu que quem quebrou a regra fora ele.
– Na-Naruto-kun?
Os olhos claros dela se encheram de lágrimas. Enquanto o cinza pousava sobre o azul limpo que eram os olhos daquele garoto que por tanto tempo ela admirara, em silencio, a sua forma, mas apoiara e defendera, a menina sentiu mais um pedaço de seu pequeno coração cair. O olhar terno que ela sempre dirigira a ele deu lugar a outro. Sua raiva cobriu a tristeza e começou a se derramar em ondas para o lado de fora. Ao seu lado ela podia sentir o olhar orgulhoso que seu primo insano dirigia a ela.
Ele sempre soube que ela gostava dele. Ao contrario da crença popular, ele não era tão estúpido, a única coisa que o impediu de investir nela era que ele também tinha suas regras. Naruto Uzumaki, o capitão do time de basquete, não namorava meninas esteticamente feias. Outra barreira era a gagueira dela que o irritava em demasia. Depois de olhar a foto decidiu que ela não era má escolha e resolveu ''dar-lhe uma chance''. A pequena era conhecida por perdoar rápido, então quando ela o perdoasse ele a tornaria mais uma de sua crescente lista.
Ao ver o sorriso brotar sutilmente no rosto do alemão a sua frente a menina desejou vomitar. Olhou para o primo em um pedido mudo para que ele saísse dali com ela e ele prontamente o fez.
No decorrer daquele fim ano letivo o loiro colecionou suspensões por coisa que não fizera, mas todas as provas apontavam que sim. Do rato morto na mesa da diretora com um recadinho chamando-a de velha ao vídeo em que ele arrombava o armário com as provas semestrais para substituir a sua prova quase toda em branco por uma com as respostas corretas.
Hinata vivia grudada ao lado do primo e quando não podia ficar com ele se trancava nas cabines de estudo da biblioteca. O Uzumaki a perseguia e atormentava, sempre tentando roubar-lhe um beijo ou seduzi-la para exibi-la como namorada. Como de boba ela não tinha nada, a menina aproveitava seu rubor e ao invés de admitir que ele fosse devido à raiva, fingia que a timidez era muita e fugia.
Assim como Neji sentia prazer em insulta-la, a menina que tinha a morte como companhia sentia prazer em ver o menino fracassar. Os dois Hyuuga sempre se juntavam no fim de semana para contar a Hiashi as tentativas frustradas de um certo loiro apenas para poderem todos rir dele.
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