Aos catorze anos de idade, Hinata viajou com a família para a Alemanha. Hiashi negociava com algumas empresas alemãs na época e, como era época de férias, resolveu levar filha e sobrinho consigo. A garota amou poder beber chocolate quente todas as manhãs enquanto observava as ruas de arquitetura tão diferentes das de seu país. Ela fotografava quase tudo que via e divertia sua pequena família com as fotos que batia em momentos inoportunos.

Neji acompanhava a prima rua após rua estoico. Ele basicamente não saia sorrindo em suas fotos ou fazia comentários sobre o lugar. O garoto estava ocupado demais tentando afugentar os olhares masculinos que recaíam sobre sua protegida. Ele agia como um verdadeiro guarda-costas ao lado dela.

O momento preferido dos dois era quando paravam para comer em algum lugar e ele a puxava para si. O mais velho a envolvia com seus braços longos e fortes e a fazia recostar-se sobre seu peitoral. Ficavam abraçados por um longo tempo, apenas sentindo a troca de calor entre eles. Ele bebericava seu café amargo e se preocupava em fulminar a suposta concorrência com o olhar. Ela aproveitava o gesto de carinho do primo e apenas fechava os olhos enquanto deixava o cheiro da bebida dele invadir seu nariz e bebia seu chocolate quente.

A menina não se importava com toda a situação, pois sabia que, assim como Hiashi, seu primo era ciumento e possessivo, sempre marcando território á sua maneira. Ela se sentia bem em saber que ele não lhe era indiferente e que se importava a ponto de transmitir a imagem de namorados para os outros.

Ah!, como a Hyuuga amava poder reclinar-se contra o muro solido que era o peitoral dele e ser envolvida pelos seus braços.

Ambos gostavam de sentar em um banco próximo ao hotel no horário em que o sol se punha para assistir as crianças alemãs brincarem. Com o queixo apoiado no ombro do primo e braços envolvendo firmemente um dos dele, a menina fantasiava sobre qual seria sensação de poder brincar na lama como aqueles garotos de cabelos limão, alaranjados e castanhos faziam. Com o calor da prima envolvendo um de seus braços e aquecendo seu coração, Neji assistia tudo imerso em lembranças de sua infância.

O menino que nesse ano era estoico não o era há muitos anos atrás. Quando mais novo, antes de se mudar para viver com o tio, ele morava com seus pais. A mãe resolvera engravidar novamente, mas acabou por morrer no parto quanto ele tinha quatro anos, a imagem que ele tinha dela era composta por fotos e sua voz era a única coisa dela que ele realmente se lembrava. Ela cantava como ninguém, seu soprano foi o que seduzira Hizashi e o fizera se apaixonar e por fim casar-se com ela. Hinata possuía um soprano tão semelhante que cortava lhe a alma vê-la cantar como a mãe que ele perdera tão cedo, mas assim como o pai, ele não podia deixar de ansiar vê-la cantar de novo e de novo.

Quanto ao seu pai, o Hyuuga se orgulhou de ver-se como filho de um dos soldados do Batalhão de Operações Policiais Especiais. Desde muito pequeno a visão de seu pai em uma farda preta o agradava imensamente. Por anos vê-lo voltar para casa naquela roupa foi sinônimo de alegria. Os dias em que o homem voltava para casa fardado e anunciava que ele teria uma folga para aproveitarem juntos eram os mais felizes.

Havia um ritual entre pai e filho que pertencia somente a eles. O mais velho só pedia uma folga quando a primeira chuva do ano era anunciada e então, o soldado e a criança corriam para o quintal e esperavam o aguaceiro cair para poderem brincar na lama até o queixo começar a bater.

O dia em que a primeira chuva caiu e ao invés de seu pai outro homem de farda apareceu foi o dia mais infeliz de toda a sua vida. As palavras daquele soldado contando que Hizashi Hyuuga havia morrido durante uma operação se gravaram na mente do menino para sempre.

O maior choque de todos foi assistir seu pai ser enterrado enquanto um homem fisicamente igual estava parado estoico ao seu lado. A partir daquele dia ele moraria com Hiashi Hyuuga, o irmão gêmeo de seu pai e a filha dele, a menina que cantava e agia como a mãe que ele perdera. A vida claramente tentava enlouquece-lo e ele deixou uma parte de sua sanidade se perder.

No quarto dia de observação o moreno reparou que havia um par de olhos azuis sobre sua prima. Seguindo a origem percebeu que quem a fitava era um senhor de idade de pele manchada pelo sol, sentado numa cadeira de rodas. A raiva que o mais velho enviava a eles o fez reparar no que ele era.

Nazista.

Nada como uma menina de cabelos negros azulados, vestido preto de mangas seguindo até os joelhos e sapatilha fechada da mesma cor com um broche dourado da Estrela de Davi grita mais que se é judia. Apertou a menina mais contra seu corpo enquanto pensava: ''antes pecar por excesso de zelo do que por falta de''. Embora esta não fosse a religião da menina e ele soubesse disso, a garota acabara de ganhar o broche de uma vendedora de antiguidades e se recusaria a tira-lo, portanto ele apenas assumiu uma postura mais intimidante.

– Hey! – um garoto grisalho gritou acenando na direção deles.

Eles olharam para o menino e logo um grupo se juntou a ele. Um menino de madeixas alaranjadas e olhos verdes olhou para os dois e gritou com nojo claro em sua voz:

– Die juden!

O grupinho olhou para o ruivo e eles começaram a brigar entre si. Uma voz atropelava a outra e Hinata apenas ria com a cena.

– O que eles estão dizendo?

– Eles estão brigando com o ruivo por ele ter preconceito contra judeus e os outros se sentem culpados e chateados. Estão mandando ele nos tratar como alemães igualmente.

– Saukerl!- um gritou para o ruivo.

Logo o menino saiu batendo o pé e o grupo voltou sua atenção para o casal de primos. A menina se levantou hesitante quando o grupo se calou e pegou a lama esfregando-a na mão. A garota corou e olhou para o primo sorrindo.

– É gelada e meio pegajosa.

– Tem lodo nessa lama. – ele declarou como se explicasse todas as duvidas sobre o universo.

– É tão diferente de tudo que já toquei.

Neji riu e pegou um pouco da lama. Aproximou-se dela e cautelosamente lambuzou a bochecha corada. Chutou a bola que estava perto dela na direção dos alemães. Eles riram e puxaram cada Hyuuga para um lado, pondo-os em times opostos. Um time jogava sem camisa e o outro com.

– Hinata, sabe jogar futebol?

– Não pode pegar a bola com as mãos a menos que seja o goleiro e o objetivo é chutar a bola pro gol.

– Exato.

Enquanto jogavam a menina brilhava de felicidade. Era a primeira vez que ela jogava. Ela solta uma gargalhada sempre que caia e a lama a sujava inteira. Desajeitadamente e com movimentos delicados ela roubava a bola das pessoas e chutava para alguém de seu time.

– Hinata, Neji!

Os dois se viraram e viram Hiashi olhando-os com um sorriso de canto quase imperceptível, mas presente. O mais velho agradeceu aos meninos por deixarem os dois jogarem e enviou um olhar de reprimenda ao nazista que assistiu a interação. O trio voltou lado a lado para o hotel e ao chegarem no saguão, a Hyuuga queria sumir ao receber tanta atenção.

– Há lama em seu rosto Hinata — sama.

– Oh!

Ela não pode evitar se sentir feliz mesmo que estivesse com dó das faxineiras que limpariam seu rastro marrom.