O som do trovão cortava a alma daquela fria tarde de verão. O céu cinza se tingia com flocos brancos como a tinta que escorre em uma pintura aquarela. Os raios dançavam em um ritmo místico próprio e único. Pode ser que mais de um caia no mesmo lugar, mas nenhum será igual ao outro. Nunca o são. E ela sabia disso enquanto os observava silenciosa. Ela absorvia o tremor e rugido das trovoadas, se derretia na luz dos raios e se sentava sob a proteção gelada e cinzenta celeste.
Enquanto observava toda aquela glória tão comum e tão singular ao mesmo tempo uma frase de sentido amargo ganhava forma em sua mente.
''Que ironia o céu esconder a cor azul que ele tanto se orgulhava por possuir'', ela pensou.
Ah! E ele?
Ele estava no momento indo conhecer a terra de um novo ponto de vista. O loiro de olhos azulados estava preso em um caixão negro impecável que descia por dentro de uma cova no momento. Sentada ao lado dele a morte se encontrava. Olhava diretamente para a caixa que guardava os restos de menino de tamanha alegria como era Naruto. Ninguém que estava ali, exceto os pais dele e a minúscula família Hyuuga, havia visto o estado em que se encontrava o falecido.
E quem diria que o Uzumaki voltava para sua cidade natal todos os verões? Ou que ele morasse com a família Uchiha por que seu pai é embaixador da Alemanha e sua mãe dona de uma das maiores empresas de energia solar? Quem saberia que o poderoso Hiashi Hyuuga havia viajado até aquele país para fazer negócios com os pais do garotinho que ele mesmo ria por ficar se declarando por sua única filha?
A resposta é: ninguém.
Assim como ninguém saberia que, no mesmo dia que Hinata pode brincar na lama e sentir uma alegria infantil genuína, eles se encontrariam com a família Uzumaki em um restaurante. Ninguém adivinharia que Sakura surgiria andando do outro lado da rua e muito menos que o loiro a reconheceria e correria para conversar com ela. Mas nada disso importaria se o que se seguisse não fosse tão incomodo.
Aquele carro veio em alta velocidade de faróis acesos e seguindo todas as regras de trânsito. O motorista tentou desviar quando viu uma cabeleira dourada reluzir sob a bela luz do luar. Então um carro derrapou, uma mulher gritou, um corpo se desmanchou e o mundo pareceu se mover em câmera lenta e ir rápido demais no mesmo instante.
Em questão de segundos um menino tinha seu corpo atravessado entre o interior e o exterior do automóvel. O vidro estilhaçado cravado em cada parte de sua carne crua que, naquela hora, ainda fazia questão de deixar um líquido viscoso e rubro correr rumo ao chão.
Ela viu quando a morte chegou insensível quanto a comoção de todos e colheu a alma do pobre mortal. Ela observou aquelas tão conhecidas feições femininas e angulosas brilharem à luz de uma ambulância. Observou aquela mão de dedos delgados acariciarem o corpo frio em uma despedida. Sentiu a dor rasgar seus ossos quando aqueles olhos sem vida da coletora se fixaram nos seus.
As imagens de uma mãe e uma irmã, deitadas em meio à neve agarravam seus braços como tentáculos de um polvo faminto. A morte sorria apoiada no capô do carro enquanto via ela se contorcer em meio a memórias e ficar parada no lugar simultaneamente. Nos braços da adolescente jazia um menino que um dia ela admirara, mas no momento aquilo pouco importava. Quem provocara o acidente fora ele mesmo ao tentar perseguir uma rósea menina — que continuava do outro lado da rua, mas estava desmaiada nos braços de seu pai- e Hinata mal o olhava. O que capturava seus olhos era o sangue tingindo seu vestido exatamente como naquele dia tantos anos antes.
Saindo de sua coletânea de memórias os olhos da Hyuuga se fixaram nas mechas negro-azuladas da Morte. A ceifadora sorria sem mostrar os dentes e muito menos emoção para ela. Era um sorriso seco e sem significado algum. Apenas uma máscara. Algo que pedia para quem vê-se que interpretasse como quisesse. Mas Hinata era tão bem treinada nessa arte como aquela que sorria, por isso não procurava nada por trás da máscara.
Eram duas bonecas de porcelana em meio ao cenário melancólico.
A Hyuuga fechou os olhos e respirou fundo. O mundo ao redor dela desapareceu. O ar denso se dissipou. Tudo que havia ali era ela e seus pensamentos. Ao abri-los novamente e sentir a realidade golpeá-la, percebeu que sua companhia havia desaparecido e que apenas seu pai e primo estavam ao lado dela. Com um suspiro pesado se aproximou de um uma mulher de sedosos e lisos cabelos escarlates, citou uma das metáforas criadas para momentos como esse que ouvira de uma amiga de sua mãe quando esta morreu, fez o mesmo com o marido dela, um homem que era a cópia mais velha de Naruto, deu as costas educadamente e se afastou.
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