'' Ninguém é realmente digno de inveja, e tantos são dignos de lástima!''
– Arthur Schopenhauer
Era verão. Talvez a melhor época do ano para Hinata. Mentira, era sua segunda época favorita, pois perdia apenas para o inverno. Algo no sol forte brilhando, no sorvete em sua mão derretendo, na vermelhidão de sua pele cândida ainda que protegida pelo protetor solar fator 60, na água do mar azulada — e não cinzenta como no inverno- e no ar úmido e grudento a fazia amar tudo do período. Mas como a vida é e sempre foi uma faca de dois gumes, era exatamente devido a todos os pontos positivos do verão que ela ganhava de brinde o que mais odiava.
A menina observou as pessoas na praia. Seu olhar ia de um lado para o outro fixando-se principalmente nas belas mulheres que exibiam seu corpos esculturais em pequenos biquínis, elas trajavam peças conforme a moda e poucas deixavam estrias ou celulites a mostra. A sociedade dita um vestuário e um corpo ideal e elas seguiam o padrão. De vestido leve amarelo com bolinhas brancas e cabelo preso em um rabo-de-cavalo alto ela sentiu algo borbulhar em si.
A inveja a consumia como brasa em uma morada de madeira. Inveja dos músculos tonificados e bem definidos, da cintura fina, dos quadris arredondados, da altura, da ausência de defeitos estéticos, da pele bronzeada e do tamanho idealizado dos seios. Sentia inveja da saúde delas para se dedicarem a desenvolver o corpo ''saudável'' perfeito. Inveja da padronização entre elas e da facilidade que tinham de fazerem amigos e se sentirem felizes porque são parte integrante da regra.
– Da pra sentir sua aura maligna emanar em ondas à distancia hime.
– E-eu queria ser como elas...
– Hime...
– Elas tem liberdade! Ainda que seja só uma sensação, ainda que seja falsa, é uma liberdade.- Ela suspirou e desviou o olhar para o céu.- É ... Tão injusto. Por que tive que ser diferente? Por que não posso desfrutar dos mesmos problemas imaginários delas em suas bolhas de ignorância?
– ...
– Ah!, Neji... Me responda, me diga porque.
Silêncio.
Uma ave voou para uma palmeira da área de um restaurante chique a beira-mar. Dentro do recinto pessoas ricas discutiam assuntos politicamente corretos tomando vodca enquanto uma criança pobre as observava com interesse. O olhar analítico dos primos pousaram sobre a cena e ambos mostraram em suas faces o obvio repudio. Neji desviou o rosto novamente para ela.
– Você a viu novamente, não foi?
– Não sei do que es-está falando.- Ela virou a cara enquanto mordia o lábio rachado.
– Ela, a figura que toma o rosto — ironicamente, devo acrescentar- da primeira que roubou de você.
– A morte não... A roubou de mim. Ela não é uma ladra. Os humanos correrem para ela, então ela os recebe de braços abertos.
– Ela anda te visitando.- Não era uma pergunta.
– Essa noite, enquanto arrumava minhas malas, ela ficou sentada na minha cama. O oco que habita o vão de seus olhos me seguiam pelo quarto. Ali sentadinha, como quem não quer nada, ela me analisou e eu percebi. Ela não só quer como vai viajar conosco.
– Mas Naruto acabou de morre.
– Isso não a impede de querer mais.- A Hyuuga engoliu em seco.- Voce devia ter visto Nii-san, devia ter visto a forma que ela me olhava.
– Eu sinto muito.
Silencio novamente.
O grito da briga de duas crianças, pois uma derrubou o castelo de areia da outra pode ser ouvido.
O suor pingou no vale entre os seio da Hyuuga devido ao sutiã e ela se repreendeu interiormente pela má escolha.
– Hiashi-sama sabe?
– Hn?
– Que você tem uma companhia que nem todos podem ver.
– Não. Otou-san vai surtar se souber.
– Isso é verdade.
– Acha que um dia vou para de vê-la?
– Sim, no dia que a senhorita for de encontro aos braços dela.
Ela riu.
– Essa é a unica opção que me resta.
– Você podia voltar a frequentar o psiquiatra.
– E você sabe que já tentei, mas não há remédio no mundo que me deixe sã. Vivo na corda bamba de dois extremos.
– Ver a morte ou passar o dia dopada, realmente ver a dona ceifeira parece melhor.
– Não me leve a mal, sei que você vive no psiquiatra e se trata desde a morte dos seus pais, mas você se da bem com os remédios. Eu cheguei em um nível que só hospício na causa.
– Entre te ver indefesa no hospício e te ver conversando com algo que não vejo, por incrível que pareça prefiro te ver louca e perto de mim.
– É aí que começo a ceder a inveja. Essas pessoa são saudáveis, possuem uma vida comum, imperfeita e buscam a felicidade tão pregada pela nossa sociedade sem perceber quando passam a se afundar na indiferença. São ignorantes presos em suas bolhas de muita informação e pouco conhecimento. São tolos, mas se conformam em sê-lo.
– E voce inveja a estupidez deles.
– Não sei o que realmente invejo neles. Tem horas que sinto isso por eles, e horas que apenas sinto dó.
Ele apenas a puxou para os seus braços e beijou o topo de sua cabeça. Olhou uma ultima vez para as mulheres e homens na praia e grunhiu irritado. Desejava que a vida da prima fosse mais simples. Se a vida de ambos fosse menos amarga talvez, e só talvez, ela não precisaria invejar ninguém apenas para passar horas se sentindo mal por te-lo feito e ele não teria tão arrogante. Ambos seriam pessoas melhores e vitimas de uma burguesia cruel que estampa a futilidade a cada esquina como simbolo de felicidade. Se a vida de ambos fosse menos amarga o amor dele por sua moreninha não iria afeta-lo tanto como o faz. Afinal o desejo mais obscuro que dançava em sua mente era único: que toda aquela camada que gosta de conversas inteligentes- sem o ser- e vivem de ostentar-se enquanto menospreza o outro e agride a liberdade do outro, fosse exterminada numa guerra causada talvez por ideologias, talvez de cunho econômico, e que os malditos politicamente corretos fossem exterminados.
Ah!, mas o mundo e a vida são tão complexos e compreensíveis quanto a filosofia e religião. E os primos tinham gosto por essa complexidade e simplicidade, tinham gosto por opostos e, por mais masoquista que soe, há algo em viver de dores que confirma nossa vida e eles gostavam disso, ainda que negassem o fato.
Ambos deram as costas para o clima feliz e fotográfico e rumaram para o ponto de onibus. Afinal o verão é a melhor época pra jogar conversa fora.
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