A me conduzir
4 Capítulo 4
Depois de ter soltado aquela ontem à noite, não nos falamos mais diretamente. Cada um estava interagindo com grupos de pessoas diferentes e mais olhares eram trocados enquanto todos cantavam juntos e se tornavam um grupo só. Mas ele tinha razão e precisávamos sair dos olhares. Então após a aula de regência, ia aproveitar pra puxar assunto, já que seria o horário do almoço, mas a oficina tinha terminado e ele já tinha saído da capela.
—Muito interessante tuas oficinas. — Digo, lançando uma indireta no ar que fez Eric pegar a referência de primeira. — Inclusive tem um rapaz…
—Sabia! — Ele aponta pra mim exortando a animação que ele aparentemente estava guardando para essa ocasião. — Mas disfarça que ele tá vindo.
O silêncio paira imediatamente, enquanto Eric ajeita suas partituras dentro da pasta a eu finjo ajudá-lo a organizar as cadeiras. Fernando tinha esquecido sua pasta com as partituras embaixo de uma das cadeiras e nós três acabamos saindo da capelas juntos para o almoço.
—Já decidiu qual quer reger? — Eric pergunta pra quebrar o climão.
—Eu pensei no “Glória”, mas…
—Eu tava pensando nessa. — Digo em voz alta sem querer o que eu estava pensando e ele olha para mim interessado.
—Não, tudo bem, pode ficar com essa, eu gostei da “Adestes” também…
—Não por isso, pode reger o “Glória”, eu tava só pensando alto, nem sei se quero reger… — Dou de ombros já me arrependido por ter dito em voz alta.
—Não, tudo bem, você fica com o “Glória” e eu com “Adestes”, tá tudo certo. — Ele olha pra mim convincente.
—Vocês sabem que eu que vou decidir quem rege né? — Eric se gaba, encerrando a conversa com uma risada.
Nem preciso dizer que a partir daí, nos aproximamos. Se é que dá pra chamar assim, porque quanto mais conversávamos, mais me dava a impressão que nos conhecíamos a muito tempo… talvez pudesse chamar de reencontro. Não lembro de ter me aproximado de alguém tão rápido quanto dessa vez, de ter criado uma intimidade e conexão surreal; e não é mentira.
Almoçamos com um grupo de músicos, do qual eu conhecia todos, e o assunto foram as pérolas e os recém memes criados nas oficinas. Os olhares continuavam, mas agora com uma pitada de provocação sutil; seja de forma verbal ou de uma cutucada aqui e uma esbarrada suave ali. A verdade é que passamos todas as horas livres conversando e fazendo um aleatório questionário envolvendo comida preferida, estação do ano, animais de estimação e um debate quase filosófico sobre funk carioca e Beethoven.
Naquela noite eu jantei com Bete, outras amigas de longe e claro, com a intrusa da Laura. O assunto até começou falando sobre as oficinas, mas sabia que terminaria falando de mim e Fernando.
—Achei que iam jantar juntos também. — Laura lança no ar, olhando Fernando de longe. — Ele é bonitinho né?
—O que eu vou te dizer…
—Tô te sentindo tão mais iluminada, sabia? — Bete comenta, me olhando com uma expressão quase encantada. — Vocês combinam.
—Ah, para Bete… — Acabo deixando um sorriso sem graça escapar, enquanto sentia meu rosto corar.
—Tão falando de quem? — Thaís olha em volta tentando identificar quem poderia ser.
—Vai dizer que não percebeu ainda? — Laura diz quase num sarcasmo.
—O Fernando, que tá no quarto com o Marciel. — Bete inocentemente revela, até porque sabia que seria evidente em pouco tempo.
—Falando nisso, com licença… — Digo ao ver que Fernando havia se levantado e feito um sinal para segui-lo.
—Vai na meditação depois?
—Vou sim, encontro vocês lá.
Ao sair do refeitório, Fernando me recepciona com um sorriso e começa a puxar conversa sobre o jantar, até que chegamos na churrasqueira. Era uma espécie de Deck próximo a muitas árvores, com vista para o rio, com uma churrasqueira e alguns bancos e mesas de madeira. Papo vai e papo vem, ele aponta para ao longe, propositalmente chegando mais perto de mim para que eu seguisse a direção do seu dedo.
—Tá vendo aquela ponte?
—Sim, eu adoro olhar pra ela. O sol se põe bem naquela direção e eu adoro a paisagem que fica com a ponte em…
—Já foi lá?
—Ér… não… — Franzo a testa, sem entender porque até hoje não havia me ocorrido aquela ideia.
—Então vou te levar lá.
—Como você sabe como chega lá se é a sua primeira vez aqui?
—Quem disse que é a minha primeira vez? — Ele diz, atiçando a minha curiosidade e a minha memória, cogitando a possibilidade de nunca ter reparado nele até então. — No seminário é a primeira vez, mas já vim em outros eventos aqui.
Então caminhamos para fora do centro de eventos sem deixar que o silêncio tome conta um segundo sequer, até que chegamos na ponte. De perto, era ela muito diferente do que eu imaginava. Era uma ponte pêndulo, mas com uma estrutura forte o suficiente para passar carros, se pudesse.
—Ai droga… — Ele deixa escapar nitidamente sem querer e desvia o olhar para alguma coisa.
—O que aconteceu?
—Não, nada. — Ele sorri, tentando disfarçar.
—Tem medo de altura?
—Não, pior… — Ele parece constrangido pelo que ia falar em seguida — Você vai rir de mim, mas eu tenho medo de aranhas.
—Jura? Por essa eu não esperava. — Deixo escapar um sorriso incrédulo.
—E qual o teu medo mais bizarro? Ou é a senhorita bravura em pessoa?
—Então… Você que vai rir de mim, porque eu tenho pavor de palhaços. — Ergo os ombros me sentindo vulnerável ao soltar um segredo que poucos sabiam.
—Jura?! Na verdade eu que não esperava por essa.
—Mas então de altura não há problema, posso pular à vontade? Sempre quis fazer isso… — Começo a dar leves pulos, sentindo a ponte ondular por inteiro.
—Não! — Ele fica nervoso e não sabe se ri ou se tenta imediatamente me parar. — Vem aqui, sua doida!
Ele me puxa pelo braço enquanto não segura a risada, assim como eu. E quando me dou conta, estamos basicamente colados um no outro, diminuindo a risada aos poucos para dar lugar a uma troca de olhares mais intensa. Ele sutilmente tira uma mecha de cabelo que havia voado e estava preso em meus cílios, enquanto ele sorria docemente.
—E vamos ficar só na troca de olhares de novo? — Ele provoca, olhando agora para os meus lábios, esperando que eu reagisse.
E então nos beijamos pela primeira vez. E como beijava bem. Sua mão se firmava entre minha nuca e abaixo da orelha, enquanto minhas mãos pousavam na sua cintura. E ao sentir um pingo de chuva na minha testa, eu recuo rapidamente, olhando para o céu e percebendo que realmente ia começar a chover.
—Melhor a gente voltar. — Digo, pegando o celular para ver as horas — Eita, perdemos a meditação…
—Ops. — Ele sorri de um jeito safado e então verifica seu celular também — Ih… Marciel me mandou um monte de mensagens, dizendo que tem gente te procurando.
—Acho que não vamos passar despercebidos.
—Conhecendo ele como conheço, não mesmo. — Ele ri um pouco nervoso, enquanto apressamos o passo para chegarmos antes da chuva.
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