A me conduzir
5 Capítulo 5
Claro que depois de ouvir algumas provocações de Marciel, Lemuca e Bete por chegarmos mais tarde e juntos a ponto me deixar extremamente corada, fugindo do assunto e indo direto pra Sala Cristal pra se juntar a todos. Hoje era dia de quentão, feito pela Bete, então todos estavam bem animados, puxando músicas de bailão pelos instrumentistas da noite, dançando e se divertindo.
—Quentão? — Bete me oferece já no copo de plástico, a qual eu seguro pela borda ao ver a fumaça avisar o quão quente estava.
—Claro! — Logo ao responder, vejo Fernando se aproximando para mostrar algo em seu celular. — Quer quentão também?
—Olha isso, a foto que te falei. — Ele me mostra em seu celular e então olha pra Bete e pro quentão nas minhas mãos — Claro, quero sim, por favor.
—Cuidado que tá bem quente. — Bete avisa quando entrega o copo para ele também. — Tô tão feliz vendo vocês… Elena tá com um brilho diferente desde que chegou aqui, sabia?
—Bete… — Reviro os olhos envergonhada, vendo-o me admirar por um instante, como se quisesse comprovar o que foi dito.
—Fico feliz em saber disso. — Ele sorri para nós duas um tanto sem jeito também.
Talvez pelo efeito do quentão, mas de repente alguém estava dançando com uma vassoura, enquanto outra parte das pessoas dançavam em duplas; homem e mulher, mulher com mulher e homem com homem, todos se divertindo muito e gozando do momento. Fernando e eu dançamos juntos, com a vassoura e com outras pessoas até voltarmos a nos encontrar de novo como par; jogamos UNO, cantamos e ouvimos piadas proibidas para menores da Bete. Realmente aquele dia havia sido incrível e era bom demais pra acabar tão rápido.
No último dia de oficinas, todo mundo estava a mil por hora pra tentar dar conta de estudar e ensaiar tudo que ficou atrasado, correndo contra o tempo. Na aula de regência não era diferente e os regentes selecionados repassavam com a turma as últimas vezes, tentando não esquecer de nenhuma entrada ou dinâmica em seu gesto.
E quando todos se deram conta, já era sábado à noite, véspera do encerramento do seminário. É o clássico dia em que todos dizem que não irão virar a noite — porque no domingo o café sai às 5:00 para dar tempo de todos chegarem ao culto de encerramento -, mas no fim das contas vão dormir às 3:00 para acordar duas horas depois, mortos de cansados.
Durante alguma parte do dia, Fernando disse que precisava buscar algo no quarto e me convidou para acompanhá-lo. No fim, escovamos os dentes juntos enquanto fazíamos uma sessão de caretas e o ajudei escolher a camisa para o encerramento, admirada por cogitar a validez da minha opinião.
E depois do último dia de farra, às 2:00, Fernando me acompanhou até o meu alojamento e eu sabia que ali seria nosso momento de despedida a sós. A manhã de apresentação seria agitada e não teríamos um momento sozinhos para nos despedir e algo me dizia que seria difícil continuarmos com aquilo. Talvez fosse mesmo apenas um romance de seminário que termina após a última nota tocada.
—Esse vídeo… — Ele aponta a câmera frontal do celular para nós dois, abraçando-me por trás enquanto filmava — é pra você não esquecer de mim, combinado?
—Quem disse que eu vou esquecer?
—É pra garantir que não. — Ele beija minha bochecha e depois me dá um selinho rápido.
—Eu não quero que acabe. — Viro-me para olhá-lo, quase como uma súplica.
—Nem eu.
E por um momento eu não sabia dizer se estávamos falando do seminário ou de nós dois, só sei que terminamos o vídeo com algumas caretas e depois uma despedida num abraço demorado e silencioso, enquanto a garoa do sereno caía sobre nós até que um de nós decidisse se soltar do aconchego.
—Amanhã durante a minha regência vou dar uma piscada pra ti, combinado? — Ele diz se divertindo com a ideia.
—Duvido! — Provoco-o e ele apenas ri e se despede com mais um beijo, antes de me deixar.
Como esperado, a manhã do domingo já começa alvoroçada. Pessoas acordando atrasadas, outras já voltando do café da manhã, instrumentistas colocando seu instrumento no carro, pessoas combinando caronas e outros que pareciam nem ter acordado ainda.
Minha voz estava arranhando um pouco por conta do sereno de ontem, mas eu nem cogitei reclamar sobre isso. Tomei meu café da manhã às pressas com Bete, Laura e mais alguns perdidos pelo refeitório e logo estávamos nos arrumando para pegar a estrada e ir rumo à apresentação final. De longe, vejo Fernando conversando com Marciel e entrando no carro para ir, enquanto já estou na fila de carros esperando a caravana dar a partida.
Com duas horas de antecedência, a orquestra estava sendo montada e a Igreja sendo organizada para que a apresentação acontecesse. Enquanto isso, conversas, fotos e últimas passadas nas músicas aconteciam do lado de fora, ali mesmo no pátio. O problema é que eu estranhamente estava me sentindo um pouco estranha, como se uma febre quisesse se aflorar, me deixando um pouco lenta e cansada. Não seria isso que iria me impedir de aproveitar aquela manhã, então tentei não dar muita atenção para isso.
Fernando passa por mim quase que voando, mas não deixa de me dar um beijo na bochecha para me cumprimentar antes de seguir seu caminho, fazendo com que eu me depare com o olhar bobo de Bete, me fazendo corar. Porém, ele volta quase que no mesmo segundo, agora com uma expressão preocupada, colocando as costas da sua mão na minha testa para checar a temperatura.
—Senti que você tava meio quente… tá se sentindo bem? Acho que está com febre.
—Eu tô um pouco, mas tá tranquilo…
—Aproveita pra tomar bastante água agora, fica de olho… — Ele faz um sinal de que ele estaria me observando e então continua seu caminho com pressa.
—Querido… — Bete comenta, ainda com aquele seu olhar bobo.
A apresentação inteira foi um grande sucesso, tudo ocorreu da melhor forma possível. Dessa vez tinha optado por ficar de fora da regência, para que pessoas com menos experiências tivessem a chance, então participei cantando do início ao fim, ao lado da minha garrafinha de água. Mas Fernando iria reger. Eu tinha uma visão privilegiada dele e sequer piscava os olhos para não perder nada. Acompanhava e apreciava seus movimentos e olhares que pareciam flutuar pelo ar enquanto as notas vibravam pelos instrumentos e vozes. E em sua nota final, sustentava pelas suas mãos, ele olha pra mim e dá uma piscada, sem esconder um sorriso de gran finale. Eu poderia congelar aquele momento e guardar só pra mim.
Depois de chorar na música final da apresentação regida por Eric, percebi o quanto estava sensível e como minha febre havia piorado, mas tentei não transparecer, até porque era o momento da folia final. Após os calorosos aplausos, todos comemoram fazendo barulho e gritando, enquanto começam as sessões de fotos, vídeos e despedidas. Num piscar de olhos, o seminário havia acabado.
—Foi lindo demais! — Bete exclama, ainda extasiada tanto quanto eu.
—Eu adorei também. — Laura comenta, depois de gravar um storie da igreja quase vazia, marcando o encerramento oficial.
—E aí loira! — Eric aparece quase pulando de alegria e me abraça — Foi massa!
—Parabéns pelo arranjo! — Parabenizo-o tanto pelo belo trabalho quanto por conseguir terminar a tempo.
—E aí Bete! — Ele a abraça em seguida e depois Laura, para não excluí-la. — Parabéns pela cantoria!
—A gente já podia emendar a próxima edição, não? — Sugiro, lamentando o fim.
—Podia né?
—Oh, o teu homem tá te procurando pra se despedir lá no estacionamento. — Eric diz em tom de gozação, arrancando uma risada espontânea de mim.
—Eu também já vou me despedindo…
Então me despeço das meninas e de Eric ali mesmo, pego minha bolsa com as partituras e vou até o estacionamento. Meu coração parece disparar à medida que eu vou me aproximando dele. Vejo-o conversando com Marciel na traseira do carro com que eles vieram e ao me verem chegar perto eles se ajeitam para me receber.
—Só vou me despedir e já vamos… — Fernando avisa para Marciel, que ergue as mãos abrindo espaço.
—Sem problemas, eu estarei dentro do carro ouvindo Scorpions no último volume pra não incomodar vocês. — Marciel brinca e se despede de mim antes de entrar no carro.
—Então é isso… — Inicio, sem saber como me despedir.
—Melhorou da febre? — Ele novamente testa minha temperatura e se assusta — Tá ardendo em febre! Talvez alguém tenha algum remédio…
—Não precisa, sério. Já estou indo pra casa mesmo, aí eu tomo alguma coisa. — Tranquilizo-o, segurando seu rosto para um beijo rápido. — Vou ficar bem.
—Eu espero que sim.
—A propósito… você venceu a aposta, adorei a piscada. — Solto uma risada leve e o vejo retribui o sorriso, que se esvai para uma expressão reflexiva.
—Eu não consigo me despedir de você.
Ele me abraça e novamente ficamos em silêncio por algum tempo, cada qual tentando absorver o embrulho no estômago e as dúvidas que se passavam pela cabeça sobre o mistério do amanhã. E só depois de longos minutos é que cada um conseguiu entrar em seu carro e partir.
Gosto de pensar que nossa história terminou ali mesmo, porque ela até teve uma pequena continuação, mas não terminou como esperado. Talvez, o fim dela ainda nem aconteceu. Talvez, nos encontraremos no futuro e continuaremos a história. Ou talvez, foi apenas um romance de seminário a curto prazo que aconteceu no momento que era pra acontecer. Ninguém sabe.
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