A me conduzir
3 Capítulo 3
—Vocês vão para a Sala Cristal também? — Bete me alcança enquanto todos estão saindo da capela para tomar seus rumos. — Eu trouxe ingredientes pra fazer quentão, mas tô em dúvida se faço hoje ou amanhã.
—Eu tô exausta… talvez amanhã eu vou. — Laura responde, se dirigindo ao seu dormitório, pela primeira vez sem cogitar a possibilidade de me seguir.
—Vamos ver como está a animação da galera, mas qualquer coisa faz amanhã. — Sugiro, já acompanhando ela até o saguão principal.
—Ou tu quer ver quem vai estar lá? — Bete me olha como quem já havia percebido algo no ar, mas eu me faço de desentendida e a olho com um ponto de interrogação no meio da cara. — Eu vi na aula de Canto Popular… ele é bonitinho mesmo.
—Vou fingir que não sei do que está falando. — Acabo deixando um sorriso escapar.
Se criou uma “tradição” de ir até a sala cristal após a meditação para fazer uma espécie de confraternização com todos do seminário, com direito a música ao vivo, vinho e piadas de todas as classificações. O mais desafiador era não fazer barulho extremo ao ponto do pastor interromper a “festa” e mandar todo mundo para seus dormitórios, porque havia ‘toque de recolher’ às 23:00, mas ninguém se despedia antes disso.
A roda de músicos que iriam tocar já estava formada e as primeiras músicas já envolviam todos a cantar junto e batucar em qualquer cantinho que produzisse um som para acompanhar. Uns jogavam UNO em uma mesa, outros ping-pong, mas a grande maioria se sentava em rodas para conversar, beber e cantar; no caso é onde eu sempre fico.
—Bete, a nossa contadora de piadas oficial! — Lemuca se aproxima de braços abertos para abraçá-la e conduzi-la até a roda de conversa que já estava afiada; e se vira para mim com sua expressão de julgamento — E por favor não me desaponte e me diga que aprendeu umas piadas novas também.
—Eu já falei que não é a minha praia, eu deixo esse pódio pra Bete. — Respondo, rindo de sua reação falsamente desapontada.
—Quer vinho? — Débora aparece de repente ao meu lado segurando uma garrafa de vinho e uma taça.
—A galera tá animada e com sede pelo visto. — Digo enquanto vejo a garrafa quase vazia encher minha taça.
—Quero ver no sábado à noite se todo mundo vai estar com a mesma animação. — Ela ri, se dirigindo até o balcão para deixar a garrafa vazia.
—Loira! — Eric vem na minha direção, rindo como sempre — Tu já tá aqui bebendo? Onde tem vinho?
—Tu que tá chegando tarde, a galera correu pra cá depois da capela. — Respondo enquanto procuro em volta alguém com uma garrafa de vinho. — A menina do lado da Débora tem vinho.
—Gostasse da aula de regência hoje? — Ele olha pra mim sem esconder a cara de debochado.
—Não entendi… — Olho-o desconfiada, me perguntando se ele estava se referindo ao mesmo que estava pensando, mas misterioso como sempre ele apenas desconversou.
—Não, por nada não… Vou pegar meu vinho.
Depois de uma taça de vinho, vejo que minha chefe do trabalho havia me mandado mensagem e primeiramente não ia responder, mas respondo dizendo que veria sobre o assunto só depois do feriado, porém a mensagem não estava enviando. Precisei sair da Sala Cristal que ficava no subsolo, para ir até a zona do Wifi, até que finalmente consegui enviar a mensagem.
—Tá tudo bem? — Alguém me pergunta e eu congelei ao ver Fernando na minha frente enquanto segurava um cajon.
De onde ele tinha vindo? Como eu não notei a aproximação daquele perfume amadeirado que agora parecia ser absorvido em mim? Estávamos sozinhos naquele segundo e ele olhava diretamente pra mim, então descartei a hipótese dele ter se referido a outra pessoa. E tentando sair do estado de choque, dou um sorriso rápido e sem graça.
—Tá, tá tudo bem sim, é só… pegando Wifi.
—Que bom. — Ele parece realmente mais leve depois da minha resposta e então desvia o assunto. — Vai descer? Marciel pediu pra que eu fosse buscar o cajon, agora é que vai ficar bom.
—Claro! – Respondo, guardando o celular no bolso imediatamente e acompanhando ele escadas abaixo — Estava mesmo me perguntando se algum baterista ia ter a boa vontade de acompanhar a galera.
—Levando em consideração que só tem dois bateristas e um deles já estava aí embaixo… quer dizer que estava me esperando? — Ele pergunta e me olha convincente de que sabia que estava certo, soltando um sorriso logo em seguida. — Brincadeira… Mas achei que a gente não fosse sair só da troca de olhares.
E depois de soltar essa já estávamos na Sala Cristal, interrompendo a nossa conversa. Ele vai direto até a roda de músicos que estavam tocando e sem esperar muito senta em cima do cajon para acompanhar e animar a galera, enquanto eu ainda processava o que tinha acontecido.
Fale com o autor