A me conduzir

2 Capítulo 2


Na quinta-feira, lá estava eu chegando no horário do café da manhã do seminário, junto com mais duas instrumentistas que tocavam na mesma igreja que eu e como eu sabia o caminho, acabei oferecendo carona a elas.

O local era um centro de eventos com três prédios de dormitórios, várias salas de amplas para as oficinas, a parte do refeitório, o quiosque e a capela, onde acontecem as meditações matinais e o culto de encerramento do dia, quando alguma oficina sempre apresenta alguma coisa para os demais participantes.

Todos pareciam muito animados já cedo enquanto tomavam seu café da manhã e por mais que estivesse surtando de felicidade por estar ali, estava concentrada em encontrar alguns rostos específicos que só via durante os dias de seminário, ou seja, uma vez por ano. Porém, para minha infelicidade, meu olho se firmou em Laura, que estava sentada numa mesa sozinha aos fundos. Não acreditei que ela realmente falou sério quando disse que vinha, mas no fim, nem me surpreendi tanto porque ultimamente sua obsessão por fazer o que eu faço e estar onde estou está bem escancarada.

Cumprimento alguns com acenos e outros com rápidos abraços e beijos e então me sirvo no buffet, me deliciando com tudo o que eu via. E enquanto enchia minha xícara de café, minha consciência parecia me esmurrar enquanto pensava em sentar em qualquer mesa que não fosse a de Laura. Pois bem, não consegui ignorar o fato de que era a primeira vez que ela vinha e estava literalmente sozinha… e acabei sentando com ela.

—Posso?

—Claro. — Ela sorri sem jeito, ajeitando seus óculos escuros que prendiam seu cabelo para trás, como um arco. — Não te vi ontem.

—É porque eu cheguei só agora. — Respondo automaticamente, sentindo involuntariamente sair uma pitada de sarcasmo.

—Eric também ia vir hoje, né?

—Sim.

—Elena! Chegasse! — Alguém me abraça por trás da cadeira calorosamente e somente depois de conseguir raciocinar após o susto, que notei ser Bete, a mulher mais leve que já conheci.

—Acabei de chegar! — Sorrio largamente, dando espaço para que se sentasse ao meu lado na mesa. — E tu?

—Eu já vim ontem a noite, fui uma das primeiras a chegar. — Ela ri, exteriorizando sua espontaneidade. — Senti sua falta ontem.

—Eu tinha que dar aulas… — Faço uma expressão desanimadora — Mas vim o mais cedo que pude pra não perder o primeiro café da manhã pelo menos.

—Oi Bete, é bom te ver também. — Laura puxa a conversa para si, vendo que por um momento havíamos ignorado sua presença.

—Oi Laura, não sabia que gostava desse tipo de seminário. — Ela diz em tom de apontamento, mas logo parece desviar a tensão — É bem divertido e as pessoas… ah, é tudo de bom. A comida então, nem se fala!

—Pois é, a Elena sempre fala do seminário e o Eric também sempre vem, né? Aí eu fiquei com vontade de conhecer…

—Bem-vinda. — Digo com um sorriso rápido para tentar encerrar o assunto.

Após a meditação matinal na Capela, todos os professores se posicionam à frente do altar para se apresentar e orientar os oficineiros dos locais que cada um terá que se destinar. A minha primeira oficina era regência com Eric e seria na capela, despedindo-me de Bete que seguia para outro local e vendo que precisaria aturar Laura por mais algum tempo. Sem surpresa nenhuma, havia escolhido a mesma oficina que eu e claro, sentou-se ao meu lado. Eu realmente não queria ter nada contra ela, mas por algum motivo, ela parecia um carrapato na minha vida que tentava me sugar e de alguma forma, ser eu.

—Então vamos lá, começar com a nossa ginástica básica! — Eric diz, todo empolgado, após de já ter feito algumas piadas e pego no pé de alguns dos participantes. — A gente vai mexer muito o braço, então bora alongar.

E enquanto todos se levantavam para se alongar, movendo o pescoço de um lado para o outro, vi pela primeira vez as pessoas que estavam na oficina. Até então, meu foco era o ranço com Laura e o incômodo que me causava, e isso me fez bloquear o restante em volta, até o momento em que meu olho bateu em um rapaz que estava a algumas cadeiras de distância. Ele parecia esnobe demais para olhar para os lados e me notar enquanto se alongava, mas eu não sou muito parâmetro para julgar isso.

Após uma longa sequência movimentando os braços intercalando entre compassos binários, unários, ternários e quartenários, começamos o estudo e prática de repertório. Uns, mais fáceis e outros, mais difíceis de serem lidos à primeira vista, mas todos estariam na apresentação final para reger. Porém, apenas quatro regentes seriam selecionados para tal, levando em consideração que haviam cerca de dez pessoas na oficina e apenas quatro partituras.

A hora do almoço era um caos ainda maior, porque agora todos comentavam algo que aconteceu na oficina, trocavam ideias e enchiam o refeitório de risadas. Dessa vez, sentei junto com Bete e Eric que já haviam escolhido sua mesa, mas assim que eu me sento, surge Laura com seu prato de comida ocupando um lugar na mesa falando pelos cotovelos.

—Aquela ginástica toda me deixou com os braços doendo, acredita? Quase não consegui trazer o prato até a mesa. — Ela ri sozinha e Eric apenas esboça uma risada leve pra manter sua aparência de “ser celestial que é amigável com todos”.

—Te prepara pra ano que vem então, porque todas as aulas de regência começam assim. — Digo a ela, me referindo as aulas da faculdade.

—Mas eu já tô tendo aula de regência.

—Mas então… ? — Olho para ela interrogativa e ela nitidamente se sente encurralada.

—Ah, não sei… deve ser o calor. — Ela tenta se justificar e desvia o assunto para ir buscar algo para beber.

—Que grossa. — Eric diz a mim, tentando não rir, assim que ela se distancia.

—Mas também…

—Respira porque é só o primeiro dia. — Bete diz rindo, afinal, sabia que nossos ímãs eram opostos.

Depois, um momento pós almoço com horário livre, que a maioria aproveita para dormir, eu pego minhas partituras de regência e vou para a sombra da árvore de onde dá vista para todo o campo de grama e para a Capela ao fundo. Faço minhas marcações de entrada, dinâmica e momentos de atenção com meu marca-texto e depois vou para a escadaria do saguão principal roubar um pouquinho do Wifi, já que é o único local em que a internet realmente funciona.

Rolando as conversas virtuais e respondendo as mais urgentes, percebi que estava mais interessante a conversa que rolava poucos metros de distância entre o garoto da oficina de regência com outros dois participantes das quais eu conhecia. Por um momento eu fiquei observando sutilmente a maneira que ele se portava e até tentando ouvir o assunto de longe, como forma de tirar uma conclusão se ele parecia ser realmente alguém que valesse a pena conhecer, até porque no quesito beleza ele já havia sido aprovado.

E quando não estava conversando com colegas, ficava procurando pelo garoto da oficina de regência por entre as pessoas, esperando que ele magicamente viesse puxar assunto comigo. Por mais que eu tentasse me distrair com as pessoas, com a troca de ideias que rolava, era ele quem me distraía de fato.

Na parte da tarde fui a mais uma oficina. Essa, sobre Canto Popular, que abrangia tanto um canto em grupo com músicas só populares, quanto técnicas vocais. E por talvez ironia do destino, ele estava nessa oficina também — assim como Laura -, mas ele não se sentou ao meu lado — e sim, Laura; mas até que foi bom, pois eu tinha a possibilidade de observar ele discretamente só de longe. Fizemos uma dinâmica de entrosamento do grupo que foi tão divertido a ponto de por alguns minutos, me fazer “esquecer” de observar o tal garoto misterioso;pelo menos eu descobri o nome dele, mas até então era só isso.

O dia estava findando e se encerrava a meditação da noite com uma apresentação do grupo de flautas e teclados, apresentando o que fora aprendido e desenvolvido no primeiro dia de oficina. Laura havia sentado ao meu lado, mostrando que não havia feito nenhuma amizade nova para se desvencilhar um pouco de mim, tirando fotos e filmando tudo o que acontecia e em uma dessas fotos, ela me mostra uma que num primeiro instante não dou muita importância; até notar que ao fundo, o garoto, que agora sabia que se chamava Fernando, aparecia na foto olhando para nossa direção.