A mansão Blackwood: Relatos de uma jovem escritora

1 Capítulo 1: Bem-vinda à mansão, Sarah!


A noite de Halloween caía sobre a pequena cidade de Crystal Ville como um manto de mistério. As ruas, ornadas com abóboras sorridentes e teias de aranha artificiais, ocultavam segredos sombrios. No centro da cidade, a velha mansão Blackwood, abandonada há décadas, erguia-se como um monumento ao passado, sussurrando contos de tragédia e mistério.


Sarah Ewalin, uma jovem aspirante a escritora com predileção por narrativas de terror, sentia-se irresistivelmente atraída pela mansão. Aos dezessete anos, com cabelos negros como a plumagem de um corvo, estatura mediana e corpo esguio, ela vivia a ânsia aventureira da adolescência. Seus olhos brilhavam com uma curiosidade insaciável, decidida a explorar a mansão Blackwood naquela noite de Halloween, armada apenas com sua câmera, um bloco de notas e uma garrafinha com água.


Nos arredores, as casas decoradas com temas assustadores agitavam as crianças que peregrinavam de porta em porta, gritando: "doces ou travessuras!". A algazarra criava um burburinho entre os moradores, que enchiam os baldes dos pequenos "monstros" com guloseimas. Próximo à mansão, os cachorros latiam para Sarah, como se soubessem de algo ou tentassem alertá-la para que não prosseguisse.


A jovem, aproximando-se da fechadura enferrujada, repousou as mãos sobre o ferro descascado. O portão deslizou suavemente, abrindo uma passagem estreita, na medida exata de seu corpo. O jardim abandonado, com diversas árvores ocultas pela vegetação alta, servia de abrigo para vários animais, incluindo um número incontável de gatos. Na entrada, a velha porta de madeira, com batentes em aço e um pequeno sino que outrora servira de campainha, rangeu quando Sarah a empurrou.


Ao adentrar o velho imóvel, a jovem sentiu um arrepio. O ar denso, carregado de uma energia estranha, prenunciava algo incomum. O amplo salão, decorado com dois luxuosos lustres de âmbar de dezoito braços cada, atestava o antigo bom gosto e a elegância da família Blackwood, a quem a jovem faria uma homenagem ao escrever uma história baseada na vida da principal família de Crystal Ville.


As paredes, amareladas pelo tempo, guardavam as marcas de quadros que haviam sido saqueados, enquanto outros, que compunham o acervo da ilustre família, estavam agora expostos na biblioteca pública da cidade.

Um pequeno tablado despertou em Sarah a lembrança de sua avó materna, que costumava reproduzir as histórias de sua mãe, que trabalhou como camareira para os Blackwood em seu período áureo.


Ela caminhou pelos corredores empoeirados, com seus passos ecoando no silêncio sepulcral. As janelas, com poeira incrustada, dificultavam a visibilidade para a área externa da mansão, e a escada semicircular que ligava os andares ainda ostentavam o enorme tapete vermelho encardido.


No momento em que colocou o pé esquerdo no degrau, sentiu a vibração de notas musicais se espalhar pelo chão de tacos de madeira. Imediatamente, Sarah voltou o olhar para o pequeno tablado, certificando-se de que não havia ninguém. Apenas o vazio, banquetas e suportes para microfones. A jovem, com o corpo enrijecido, suspirou, voltando seus pensamentos para a realidade do momento: não havia ninguém além dela mesma ali.


Após uma breve pausa e usar um remédio para enjoo, Sarah retomou sua caminhada em direção ao segundo andar, com seus olhos fixos na subida, enquanto sua curiosidade a instigava a olhar novamente para o tablado. Em sua mente, ela repetia: "não há mais ninguém aqui"... Até que, o som de uma nota de piano ecoou no ar. Seus olhos voltaram para o tablado, onde não havia nada além de um gato de pelagem preta, caramelo e olhos castanhos esverdeados que girava em torno do próprio corpo e deitava de barriga para cima, arranhando o ar como se estivesse sendo afagado. Sarah esboçou um leve sorriso e seguiu em frente.


No segundo andar, um longo corredor dava acesso a vários cômodos e a uma pequena entrada que escondia uma longa escada, por onde Sarah desceu, atravessando uma porta que levava a um imenso labirinto, onde ela fotografou algumas estátuas, flores que insistiam em nascer mesmo em meio ao abandono. Após alguns minutos e vários cliques fotográficos, Sarah observou a posição do sol, refazendo o caminho que fizera anteriormente. No alto da escada, ela seguiu pelo longo corredor, vasculhando algumas salas que agrupavam altas estantes semelhantes aos móveis de escritório ou até mesmo uma biblioteca particular.


Adentrando em um dos quartos.

Sarah caminhava, esquadrinhando cada detalhe. Sacando a câmera fotográfica do bolso, ela começou a registrar a cama robusta, as poltronas, os baús e uma penteadeira com seu banquinho, cujo espelho antigo era emoldurado em madeira escura. Ao se aproximar, viu seu reflexo turvo e levemente embaçado. Usando a manga da blusa para remover parte da poeira, percebeu que algo estava diferente. As manchas provocadas pela umidade deixavam seus cabelos levemente esbranquiçados, fazendo com que seu reflexo parecesse mais velho. Diante da ilusão momentânea, ela verificou as fotografias na câmera, montando roteiros e narrativas para inspirar sua futura história de terror.


O gato visto anteriormente atravessou o quarto e pulou na cama, assustando Sarah, que instintivamente levou a mão ao peito, sentindo o coração disparar. Balançando a cabeça negativamente, ela reclamou com o gato pelo susto, como se ele pudesse entendê-la. Voltando a olhar para a câmera, ela se alegrou com a nitidez das imagens, capturando os detalhes. Curiosa para registrar seu reflexo no espelho, ela se posicionou em frente ao móvel, sorriu e pressionou o botão da câmera. Em seguida, conferiu a foto, na qual apareciam seus cabelos longos em tom preto empoeirado. A passos lentos, o bichano caminhou em direção a Sarah, roçando-se em suas pernas e soltando pequenos miados, até subir na penteadeira, utilizando o pequeno banco como escada. Sarah, observando o gato deslizar as patas dianteiras pelo espelho, tentou retirá-lo para evitar um acidente. Sem conseguir acreditar, seus olhos congelaram, um nó se formou em sua garganta: o gato se sentou, abanando o rabo com o olhar vidrado em seu próprio reflexo, lambendo o espelho como quem acaricia alguém que lhe alisa os pelos..