A mansão Blackwood: Relatos de uma jovem escritora
2 Um fantasma no espelho
Notas iniciais
Sarah observou quieta uma figura pálida, quase transparente, parada atrás dela no espelho. Um fantasma. Assustada, ela recuou, mas o fantasma permaneceu no espelho, com os olhos fixos nela. A representação imagética figurada no móvel começou a falar, sua voz um sussurro frio que parecia vir das profundezas da terra.
Imediatamente, Sarah resgatou memórias de um período no qual conversava com um amigo imaginário chamado Douglas. Quando pequena, sua mãe, Elisa, sempre a repreendia por falar sozinha, enquanto sua avó notara que a neta possuía o mesmo dom de sua bisavó: a capacidade de ver e conversar com pessoas mortas. Um dom tardio na sua bisavó, porém adquirido cedo por Sarah. Um dom especial que transcende a compreensão daqueles que se negam a entender que existem mistérios entre o céu e a terra, ou entre o mundo dos mortos e dos vivos.
Sarah respirou profundamente; seu corpo desejava fugir. Todavia, algo fazia questão de aproveitar sua presença. Diante do medo controlado, ela voltou sua atenção para a voz abafada, entendendo cada palavra. O fantasma revelou ser o espírito de Salete Blackwood, assassinada na mansão há cem anos. Salete implorou a Sarah para descobrir a verdade sobre sua morte e vingar seu assassinato.
Intrigada e assustada, Sarah imaginou que aquele pedido seria a essência principal e o toque de veracidade perfeito para a construção da narrativa de seu futuro livro. Ansiosa com as possibilidades, ela aceitou o pedido de Salete. Em seu íntimo, ela sabia que talvez não fosse possível realizar uma investigação paranormal sozinha e, nesse momento, lembrou-se de Douglas, questionando-se se ele não era apenas um amigo imaginário, mas sim um fantasma com quem havia feito algum tipo de amizade.
Antes de deixar a mansão, Sarah avista pelas janelas o tom azul-avermelhado colorindo os vidros e as paredes e informa ao espírito de Salete que retornaria ainda naquela noite com ajuda. No caminho, Sarah observa os gatos correndo pelo quintal, com seus olhos a observando, quase que consumindo sua alma.
Fora das dependências da mansão, os cachorros movimentavam as orelhas a cada passo dado pela jovem; alguns esticavam os pescoços, uivando em sinal de alerta. Sem entender o real motivo, ela seguiu rapidamente para casa, onde desenterrou alguns momentos vividos ao lado de Douglas, como quem realiza um ritual de invocação, até que sentiu a presença do amigo.
— Quanto tempo, Sarah? — disse Douglas em voz baixa.
Douglas fitava a jovem com olhos castanhos tão escuros que mal se conseguia fazer a separação da íris e da pupila. A escuridão do seu olhar parecia prever os pensamentos de Sarah, como em um déjà vu.
— Estive na mansão Blackwood e vi um fantasma.
Douglas silenciou-se, como se houvesse desaparecido novamente. Ele notara que Sarah estava mais falante que no último encontro.
— Não vá embora! Preciso que me ajude a revelar o assassinato por trás da morte de Salete Blackwood — disse Sarah rapidamente.
— Não somos policiais, você bem sabe disso — informou Douglas, com um olhar estranho.
Sarah bufou, irritada, apontando para a janela.
— Ainda é dia, podemos pesquisar algo na biblioteca e depois partiremos para a mansão, onde você talvez consiga descobrir algo. Afinal, eu não possuo algumas habilidades que você tem.
Retrucou Sarah, saindo pela porta. Douglas, acompanhando os passos da moça, atravessou o cômodo e os corredores em pleno silêncio.
Na biblioteca pública da cidade, eles começaram a investigar a história dos Blackwood, mergulhando em antigos registros e jornais empoeirados. Descobriram que Salete era uma jovem bela e a única herdeira da família, prometida a um poderoso empresário da cidade, chamado Otoniel.
No entanto, ao folhear as páginas de alguns livros com capas artesanais, confeccionadas especialmente para a jovem, Sarah encontrou uma folha parcialmente rasgada com um texto escrito em uma linda grafia. Nele, descrevia-se, em tom amoroso, que Salete estava apaixonada por outro homem, um artista pobre chamado Ulisses.
A primeira página de um importante jornal da época, com a manchete em destaque, relatava as primeiras informações do incidente ocorrido na mansão. Na noite de Halloween de 1923, Salete foi encontrada morta em seu quarto, com um ferimento na cabeça. Otoniel foi o principal suspeito, mas nunca foi acusado formalmente. O caso foi arquivado por não apresentar evidências que levassem à prisão do verdadeiro assassino.
— Vários pesquisadores e investigadores tentaram obter respostas de forma independente e nenhum deles obteve sucesso. O fantasma de Salete sempre clamará por justiça — comentou Sarah, intrigada, deixando Douglas curioso, enquanto alguns nomes eram anotados em um pedaço de papel, antes que deixassem momentaneamente a biblioteca.
Sarah e Douglas continuaram a investigação, entrevistando os parentes próximos da família Blackwood e os moradores mais antigos da cidade. Descobriram que Otoniel era um homem ambicioso e cruel, capaz de tudo para conseguir o que queria. Ulisses, por outro lado, era um homem gentil e apaixonado, que amava Salete profundamente. Sarah começou a suspeitar que Otoniel havia assassinado Salete por ciúmes e para herdar sua fortuna.
Enquanto investigava, Sarah recebeu a informação de que uma das antigas camareiras se tornara amiga íntima de Salete. A expressão de Sarah manifestou uma certa surpresa ao se lembrar que sua bisavó trabalhou como camareira na mansão. Ao receber tal notícia, ela se questionou se a avó não saberia de algo que pudesse ajudar. Lembrou-se, então, que os assuntos referentes à bisavó eram pouco mencionados, visto que a antiga camareira entrou em profunda depressão devido a traumas vividos na mansão.
Ao retornarem à biblioteca, Sarah pedia para que Douglas voltasse no tempo e visitasse o período anterior à morte de Salete. Douglas hesitou inicialmente, mas percebeu a tensão no olhar de Sarah. Ele encostou em um dos quadros que pertenciam à família e um portal abriu-se à sua frente.
Fale com o autor