A liberdade em um olhar
4 Sorrisos
Notas iniciais
Susan abriu a porta, indicando para que a neta entrasse no quarto que lhe foi preparado.
–Bom, espero que seja de seu agrado. Santana me pediu para que tentasse deixar o mais parecido possível com seu quarto em Lima. Para que não se sinta tão deslocada, entende?
–Não, vovó. Sinceramente eu ainda não entendi o que você e a mamãe têm em suas cabeças.
–Brittany, coopere conosco, por favor. Sua mãe e eu só queremos o seu bem e você sabe muito bem disso.
–Está bem. Não está mais aqui quem falou- levantou as mãos, jogando sua mochila ao pé da cama- Só não sei a que demônio eu vendi a alma para merecer coisas como essa. Perdi o direito de decidir sobre minha própria vida. Isso é humilhante!
–Não, Brittany, você perdeu foi o juízo. Quem já se viu deixar a escola em último plano só para ficar de farra com os amigos? Você já foi melhor que isso, filha- Susan disse em um tom apaziguador, no intuito de fazer a neta se abrir, mas por sua postura de dureza, ela sabia que isso não seria fácil.
–Não sou mais criança, dona Susan. Sei muito bem o que faço de minha vida.
–Pois eu discordo- a senhora fechou a porta atrás de si, colocando-se de frente para sua neta- Se mete em brigas, falta a escola para ir a lagos beber, invadi escolas e sabe-se lá Deus o que mais. Bela forma de demonstrar que sabe o que faz da vida, Brittany. Por acaso pretende se tornar uma delinquente, líder de gangue ou sei lá, uma riscadora de paredes?
–O termo certo é pichadora de paredes, vovó- a loira andava pelo o quarto, observando cada coisa por ali com o cenho franzido.
–Tanto faz. Você não se tornado, o nome que se exploda- ela riu da avó, se aproximando do computador sobre uma mesinha próxima a janela.
–Desde quando no meu quarto de Lima tem um computador de última geração e um tablet que deve custar mais do que o Mackinley inteiro?- ela perguntou, pegando o aparelho e o analisando- De quem é?
–É seu.
–O que?- a loira encarava a avó em intriga- Meu nada.
–É sim. Santana pediu que trouxessem um dos mais avançados para lhe ajudar nos estudos. Ela é bem criteriosa quanto a isso, devo ressaltar.
–Mas por que me comprou essas coisas? Sou apenas a babá temporária do filho dela- a loira procurava entender o porquê de tudo isso. Por que uma mulher rica e bem sucedida como Santana se preocuparia com uma aluna do quarto ano do ensino médio, neta de sua governanta, que até agora não tinha demonstrado nada de bom que pudesse oferecê-la?- Não sou nenhuma necessitada que precisa da caridade dela, dona Susan.
–Não, filha. Santana só se preocupa com seu aprendizado. Só quer ajudar, pois seu pai serviu com o dela no exército. Foram bons amigos nessa época.
–Mesmo assim, devolva a ela. Não quero- Brittany entregou o aparelho para a avó, achando aquilo totalmente desnecessário.
–Mas, amorzinho, não quer nem pensar no assunto?- Susan perguntou na esperança da neta reconsiderar com sua decisão- Vai ver que...
–Não, devolva. Já disse que não preciso da caridade de ninguém. Se fosse por mim, nem estaria nesse lugar chato. Aqui tudo cheira a coisa velha- rodeou o quarto com os olhos em desdém- E essa Santana é meio chatinha com toda essa educação e felicidade às torras. Quem em sã consciência sorri tanto? Isso chega a ser entediante.
–Brittany, Santana é uma pessoa muito doce e atenciosa, não vá lhe atacar com as palavras grosseiras, como aprendeu a fazer só Deus sabe onde. Essa não foi a educação que lhe demos, então, por favor, aprenda a controlar essa sua rebeldia sem limites- Susan advertia a neta, que revirou os olhos pelo o sermão, indo até o enorme closet no fundo do quarto. Ela detestava isso e muitas vezes nem prestava atenção ao que lhe diziam, como agora.
–Você fala como se eu fosse atirar a ceguinha pela janela mais próxima- riu da própria piada, porém Susan não gostou nem um pouco.
–Não se refira a ela assim, Brittany. Sua deficiência nunca lhe deu motivos de se revoltar para o mundo, como você faz. Pelo o contrário, isso só serviu para que ela desse a volta por cima e se tornasse essa pessoa tão especial que é hoje, um alguém que todos gostam e admiram- Susan dizia em um tom orgulhoso da latina que criou com tanto carinho e dedicação.
–Nossa, você enche o peito para falar dela como se fosse a oitava maravilha do mundo- comentou, achando exagero a forma que sua avó sempre se referia a sua patroa.
–Não exagero com minhas palavras, Brittany. Santana é tudo isso e muito mais.
–Sim, ela é perfeita. Vou falar o que meras mortais como eu veem a vida, vovozinha- saiu do closet e foi até Susan.
–Filha...
– Nós, vovó, sem muitas alternativas acabamos tendo que casar com o sem futuro do namorado, ex jogador de futebol da escola, a quem nos trai e nos enche de filhos para anos depois morrer de um enfarto por consumir muito álcool e gordura, fazendo-nos assim mães solteiras de filhos que no futuro vão repetir as mesmas idiotices que fazemos quando adolescentes ou morrer antes mesmo de completar dezoitos anos por tanta droga que usa ao invés de estar na escola estudando. Isso é fato- sentou-se na cama, cruzando as pernas, sendo assim ainda encarada com espanto pela avó- Pessoas como Santana andam por aí em seus carros importados, com mansões exageradas e sem muito uso, para só assim se manter superior ao vizinho bilionário. Se ela anda sorrindo toda pomposa, mostrando aqueles dentes estupidamente brancos, é pelo simples fato de nunca ter economizado até os últimos centavos do lanche da escola, para pela primeira vez na vida comprar um celular que se preze. Esse celular que fora tomado pela mãe só porque procurou um pouquinho de diversão para esquecer a droga de vida que anda tendo.
–Eu fico triste por pensar assim da vida, minha filha.
–Pois não fique, vovozinha- aproximou-se da avó e tocou-lhe o ombro- Não penso nada, essa é a verdade nua e crua, como a covardia que você e a mamãe plantaram contra mim, mas sabe... Deus escreve certo por linhas tortas.
–Ainda bem que sabe disso- foi a vez de Susan ser sarcástica- Se você tivesse a real noção do que na verdade está acontecendo, não estaria dizendo isso. Pena que Rose não me deixa contar a você.
–Dizer o que, que ela tem uma doença grave e só me contou agora para que eu viesse parar nesse antro?- Susan congelou- É, eu sei, vovó. Pra você ver como mamãe joga limpo comigo. Não deixou que eu ao menos ficasse para ajudá-la. Achou melhor me deixar a uns bons quilômetros dela para sofrer a distância e me torturar mais porque não tenho um tostão furado no bolso para lhe pagar um bom tratamento- a loira se segurava para não desabar ali quando recordou desse fato. Ela ainda estava realmente magoada com aquilo e ao mesmo tempo desesperada por não poder estar perto da mãe nesse momento, mas continuava ali com sua pose de durona irreversível- Ela foi muito egoísta fazendo isso comigo.
–Filha, eu verdadeiramente sinto muito por estar passando por isso, mas não admito que pense isso de sua mãe. Rose te ama mais que tudo na vida e se faz isso, é porque sabe que será bom pra você- Brittany discordou com um gesto de cabeça e deu as costas para a avó não ver que algumas lágrimas eram impedidas de ser derramadas- E depois de tudo que você já passou, depois das broncas e suspensões que recebeu, se não tomou jeito, sinto muito, mas isso faz você a egoísta da situação.
–Quero agradecer por todo apoio que a senhora tem me dado. Não sabe o quanto isso me deixa feliz- Brittany disse com ironia, passando as mãos nos olhos, no intuito de afastar as lágrimas dali.
–Eu amo você, filha. Peço que pense bem no que quer da sua vida e que se lembre mais ainda de que sua mãe pode não ter muito tempo ao seu lado. Quer que ela parta com tanto desgosto no coração por ver sua filha repetir seus erros passados? E Ken, não pensa em como ele vai se sentir em perder a mãe e ficar sem sua irmã mais velha, já que ela se jogar de qualquer jeito por aí e o deixar sozinho enfrentando tudo?
–A senhora não tem nenhuma riquinha feliz da vida para cuidar não?- ela disse rispidamente, sentindo aquilo lhe acertar em cheio no coração e doer miseravelmente. Sua avó não deveria ter lhe dito essas coisas, pesava ela. Deitou-se na cama, virando do lado oposto a sua avó. Susan suspirou pesado, dando-se por vencida. Brittany estava irredutível em seus pensamentos tortos e confusos, mas também a senhora sabia que a neta sofria em silêncio, sem querer deixa que ninguém se aproximasse e tentasse ajudar.
–Tudo bem, mas se quiser qualquer coisa, estarei na cozinha- foi até a neta e beijou-lhe a testa- Pensa bem.
–Até mais, Dona Susan- sussurrou de olhos fechados para avó, que saiu de lá com o peito ardendo de preocupação e remorso por não ter participado tanto da vida de sua neta mais velha. Foi até seu quarto, dirigindo-se até a mesinha que continha a imagem de Maria, acendendo uma vela para ela. Ajoelhou-se de frente a santa e juntou as mãos em oração.
–Minha santinha, minha neta tem tanto a aprender. Rogo a senhora que me ajude a fazê-la entender que seus atos só lhe trarão coisas ruins. E minha Rose, pobrezinha, permita que ela viva mais tempo com os filhos. Eles já sofreram tanto com a perda precoce do pai na guerra. Não deixe que ela vá, por favor, é minha única menininha. Os proteja, minha santinha. Eu lhe suplico- a senhora tinha lágrimas nos olhos por tamanho pesar- Guie sua cabeça para o certo e a liberte de pensamentos tortos e desnecessários. Eu lhe confio essa vitória.
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–Mamãe, quero mais um pedaço de bolo. Poderia me dar, por favor?- Charlie pedia educadamente, com o prato estendido para sua mãe Quinn, que encarou bestificada o filho a sua frente.
–Mas, Char, esse é seu quarto pedaço de bolo de chocolate. Vai acabar passando mal, filho.
–Mãe, isso são meses de abstinência por esse bolo. Não me tire essa felicidade- o pequeno agora vazia biquinho, com seu famoso olhar fofo de pidão.
–Acho melhor não- a loira negou, levando um pedaço de bolo a boca, tentando não encarar o filho naquela tortura de olhar.
–Força, Fabray. Você consegue resistir- Santana disse, tocando no braço da amiga como incentivo. Os três estavam na cozinha, com as duas sentadas ao balcão e o pequeno Charlie sentando entre as duas em cima dele, com seu prato de bolo nas pernas. Ele agora aumentava a intensidade do olhar, quase derramando uma lágrima para aumentar o desespero de Quinn.
–Mas ele é tão fofo, San- ela deitou a cabeça no ombro de Santana e escondeu o rosto na curva do pescoço moreno, choramingando ali feito um cachorrinho- Tão lindo.
–Claro, ele é meu filho.
–Não seja metida enquanto eu sofro- Santana gargalhou, recebendo um tapinha de Quinn em seu ombro- Fala com ele, você é imune.
–Ok, vou lhe mostrar como se faz- Santana disse toda cheia de si- Filho!
–Oi, mama, que eu amo, amo, amo demais- Charlie disse com a vozinha melosa, esticando seu bracinho esquerdo para acariciar os cabelos de sua mãe latina.
–Argh, Fabray, dá logo o bolo pra esse garoto. Ele é imbatível- Santana fez careta, dando-se por vencida. Charlie sabia ser persuasivo.
–Ebaaaaa! Bolo, bolo, bolo- o pequeno levantou os braços em euforia por ter êxito em seus objetivos.
–Somos mães horríveis- Santana riu, tateando até a bochecha do filho para bicar ali de uma forma brincalhona, fazendo Charlie soltar uma gargalhada gostosa.
–Que nada, Fabray. Ele só é muito esperto.
–Concordo- a loira cortou um pequeno pedaço e entregou ao filho, que rapidamente levou um pouco do bolo a boca e fez um ‘’humm’’ bem longo. Ele realmente amava aquele bolo de chocolate.
–Mamãe, quem é aquela moça que estava na sala quando a gente chegou?- Charlie perguntou lambuzado de bolo.
–É sua nova babá, filho. Se chama Brittany e ficará conosco por um tempo- Santana respondeu ajeitando o óculos que deslizava por seu nariz- Por que a curiosidade?
–Ela é muito bonita. Você e a mamãe Q também são muito bonitas, mas ela tem uma beleza diferente, não sei, não parece ser desse plano e sim um anjo que se perdeu do paraíso e veio parar aqui, sendo agora minha babá- o pequeno explicava balançando as perninhas enquanto degustava seu bolo. Santana mesmo sem poder ver as feições de sua ex, sabia que tanto ela quanto Quinn estavam surpresas pelas palavras do filho. Charlie sempre se mostrou muito inteligente, mas nunca tinha se referido a alguém dessa forma- Nunca vi um anjo, mas acho que se parece com ela.
–Hum, acho que alguém aqui se apaixonou pela babá. Seu danado- Santana beliscou levemente a cintura do filho, que chacoalhou o corpo pelas cócegas, levando-a a rir.
–Não a acho grande coisa- Quinn comentou rolando os olhos. Levou um pedaço de bolo a boca- Ela é bonitinha.
–Não, mamãe, a Brittany é muito linda. Assim ó- ele abria os braços o máximo que podia, mostrando para sua mãe o quão linda ele achava Brittany- Ela tem belos cabelos loiros. Bem mais do que o meu e da mamãe.
–Não exagera, filho. Vai ver nem é natural.
–Sinto cheiro de ciúmes vindo daquela direção. O que acha, filho?- apontou singelamente na direção de Quinn, que se emburrou no mesmo instante.
–Mamãe Q é ciumenta- ele ria, colocando o prato a seu lado para apontar da mesma forma que Santana para Quinn.
–Ah, até você está contra mim, Charlie Fabray Lopez? Não acredito nisso- ela fingiu uma carranca de zanga, cruzando os braços. Santana só escutava a loira brincar com o filho, que parecia segurar uma risada- Sabe, acho que alguém aqui está merecendo uma chuva de cócegas.
–Não, mamãe. Eu juro de mindinho que foi brincadeira- o pequeno dizia levantando o dedo.
–Por que será que eu não acredito?- a loira começou a se aproximar de Charlie, com um sorriso sapeca e as mãos levantadas como se fossem o agarrar.
–Mamãe San, me salva- ele pulou no colo de Santana, que se assustou, mas o segurou no mesmo instante, tendo o pequeno escondendo o rosto em seu pescoço, rindo muito. Quinn se aproximou e começou a fazer cócegas na cintura do filho, que dava pulinhos no colo de Santana querendo se soltar da loira. A latina acabou ficando envolvida pela brincadeira e já ria muito do jeito infantil da amiga com o filho. Sempre procuravam manter esse clima de amizade e descontração entre elas, apesar de separadas. Sempre foram amigas e ficaram felizes por tudo ter acabado bem para ambas.
–Tudo bem, já chega. Não vá matar meu filho, Fabray. Só tenho esse- a latina começou delicadamente empurrar a loira para sua cadeira.
–Chata!
–É sua avó- Santana rebateu, ajeitando Charlie em seu colo enquanto Quinn se recompunha- E o caso em Londres?
–Coisa fácil. Rapidinho eu resolvo- Quinn respondeu, bebendo um pouco de suco em seguida. Ficou cansada com a brincadeira com o filho- Logo estou de volta. Ah, Sam vai comigo.
–Hum, vai levar o boneco Ken a tira colo? Já até sei onde isso vai dar- comentou maliciosa.
–Pára, Santana. Ele tem um trabalho por lá, então unimos o útil ao agradável colocando-o no mesmo quarto de hotel que eu- Quinn piscaria nesse momento, mas a latina não poderia vê-lo, então deu uma batida de leve no joelho dela.
–Você não vale nada. Estou achando que você está inventando que vai a Londres para trabalhar, só para passar o dia e a noite estragando o modelo cabeça oca na cama- a morena acariciava os cabelos loiros de Charlie ao falar- Se bem que ele não vai reclamar... Eu sofri desse mal por você e olha nosso presente- apontou para o loirinho sonolento em seu colo. Quinn riu.
–E olha que ele foi por inseminação. Se pudesse me engravidar de verdade, com a quantidade de vezes que transávamos- disse essa palavra sussurrando por causa do filho- eu já deveria ter no mínimo uma dúzia de filhos seus.
–Amém por isso- as duas riram.
–Oi, crianças. Vejo que o pequeno Char já capotou- Susan as cumprimentou entrando na cozinha. Santana notou pela voz da senhora que estava triste. Ela percebia isso na hora- Você quer que eu o leve para seu quarto?
–Não precisa, dona S. Eu levo- Quinn tomou mais gole de seu suco para pegar o filho, mas Susan a parou.
–Eu insisto, pequena Quinn. Sinto falta de colocá-lo na cama- a loira notou pelo o olhar da senhora que realmente precisava disso, então assentiu com um sorriso leve, voltando a seu pedaço de bolo pela metade.
–Eu acompanho vocês- Santana disse, procurando sua bengala e quando a achou, levantou-se- Volto daqui a pouco, Quinn.
–Fique à vontade. Vou ligar para o Sam agora, então demore o quanto quiser.
–Nada de telessexo em minha cozinha, Fabray- Santana apontou para amiga, brincando.
–Sua idiota- Quinn devolveu, balançando a cabeça negativamente.
–Mas você sempre gostou dessa idiota aqui, admita. Sei que ainda quer meu corpo- Susan ria das brincadeiras das duas. Pareciam duas crianças quando estavam juntas. Ela sempre se perguntava o porquê de não darem certo como um casal, pois sempre foram tão amigas e companheiras- Vai lá, Fabray, nossa cama ainda continua no mesmo lugar.
–Larga a mão de ser chata, Santana, e vá levar nosso filho pra cama- Quinn empurrou a latina na direção de Susan, que estava com o pequeno adormecido nos braços. Santana aproveitou uma distração da loira para lhe roubar um selinho, o que fez Quinn lhe dar vários tapas pelo corpo.
–Tudo bem, esse doeu- ela pôs a mão no traseiro fazendo careta de dor, e se guiou até Susan para pegar Charlie em seus braços.
–Dona S, leva logo essa maluca daqui, por favor.
–Tudo bem, menina- a senhora ria muito, guiando a latina por onde passar com o filho. Com cautela subiram as escadas e chegaram ao quarto do pequeno. Santana o colocou na cama e Susan tratou logo de trocá-lo de roupa, colocando seu pijama. A viagem fora longa, Charlie estava exausto.
–Dona S, sinto que não está bem. O que tem?- a latina repousou a mão no ombro da senhora, que se encolheu a ela em um abraço apertado. A loira começou a chorar agarrada a latina, sem a mesma não ter outra ação senão devolver o gesto na mesma intensidade- Hey, calma. Vai ficar tudo bem. Sente-se aqui, por favor- Susan foi com Santana sentar na cama de Charlie- Me deixe ver seu rosto- a outra guiou a mão da morena até sua face. Ela desenhava todo traço do rosto envelhecido de sua governanta/babá com os dedos, lendo suas expressões como se fosse um livro de toques, intensificando com as caricias ali feita durante a leitura. Ela sempre fazia isso quando sentia que alguém estava mal- Está chateada. O que aconteceu?
–Brittany! Tentei conversar com ela, mas está tão arredia e... – Susan contou tudo que conversou com a neta para Santana, que ouvia tudo atenta, se impressionando com as palavras da loira para sua situação. Não soube nem o que sentir com aquilo. Ela sentiu uma espécie de energia tão magnificamente boa na loira, mas a forma com que lida com as coisas, com que parece não se importar com consequências, fazia Santana se perguntar se pela primeira vez em sua vida havia se enganado com alguém. Mas e aquele cheiro tão naturalmente maravilhoso da loira? Não tanto o cheiro corporal dela, que era embriagante, mas o de sua alma. Parece estranho, mas existem sim pessoas que conseguem medir a alma das outras, conseguem prever cada traço, contornos, cor, forma ou até mesmo o cheiro bom ou ruim que essa alma possa exalar de tão intensa que é, e não precisava enxergar para saber disso- Me sinto tão culpada por isso, menina. Sinceramente não sei o que fazer.
–Hey, tente ficar calma. Vem cá- puxou a senhora para um abraço apertado enquanto acariciava seus cabelos grisalhos- Dê um tempo para que ela se adapte a tudo isso. Seja paciente. Mudanças demoram, mas não são impossíveis de acontecer. Vai por mim, isso uma hora passa.
–Menina, não sabe o quanto isto está sendo difícil para mim.
–Realmente só se sabe quando se passa por tal coisa, mas estou ao seu lado. Posso sentar do outro lado da gangorra para te ajudar a equilibrá-la, que tal?
–Obrigada, minha menina. Você é um anjo- mais um abraço fora trocado pelas duas. Santana deixou Susan com Charlie e passou a andar pelos corredores, pensativa. Apesar de Susan tê-la criado quando seus pais se foram, não tinha direitos de cobrar algo de sua neta quanto a seu comportamento. Ela tinha plena convicção de que todos passam por fases conturbadas na vida, mas até estas se dissipam com o tempo. Acreditava que Brittany poderia voltar a ser aquela neta amorosa, centrada e responsável que tanto a senhora lhe contara algum tempo atrás. Muitas coisas vinham a sua mente, umas mais fortes que as outras, mas sabia que poderia tentar fazer algo. Por Susan... Por Rose e por seu marido falecido... Para a loira e, sem explicação, para ela mesma. Certas coisas preferia guardar consigo e nada não lhe era mais necessário que fazer o que pudesse para ajudar quem amava como Susan. Há tantas coisas na vida que se vão e vem sem explicação, mas ficar se remoendo não ajuda em nada. De acordo com seus passos, sempre bem marcados, estaria agora de frente ao quarto onde a loira Pierce repousava. Hesitante ou não, resolveu bater.
–Oi?
–Oi, Brittany, aqui é Santana. Posso dar uma palavrinha com você um instante? Prometo não tomar muito seu tempo- a loira estava sentada na cama com a foto de sua família em mãos. Não sabia se queria falar com Santana agora, mas era sua patroa agora e dona casa, não tinha como negar sua entrada.
–Claro, pode entrar- ela corrigiu a postura na cama aguardando a entrada da latina, que abriu a porta e se pôs para dentro- Algum problema?
–Não, sem problemas- sorriu de uma forma descontraída- Sua avó me contou que não quis o tablet e o computador que comprei pra você.
–Vovó como sempre bem discreta- a loira rolou os olhos, chateando-se com a avó por isso.
–Não gostou dos aparelhos? Eu posso pedir que tragam outros de sua preferência, não tem problema.
–Não é isso, dona Santana.
–Santana, por favor.
–Tudo bem, desculpe- Santana apenas sorriu simpática- Os aparelhos são legais. E apesar de nem em um bilhão de anos sonhar em ter um, eu não posso aceitar. Não acho certo.
–Por que não?
–Não sei, já estou em sua casa de favor. Sem falar que sou apenas uma simples babá agora e...
–Não, Brittany, está aqui como minha hóspede. Vai estudar na cidade, então aqui poderá ficar perto de sua avó e terá todo conforto e auxilio nos seus dias de estudo. Cuidar de Charlie será um bônus extra- Santana fez uma careta engraçada. Brittany sorriu. Não sabia por que a latina conseguia mesmo sem querer fazê-la sorrir com qualquer coisa. Dificilmente alguém conseguia isso dela- Ele é um bom menino e garanto que não dá trabalho algum. Até disse que te acha muito bonita. Na verdade, colocou você como um anjo.
–Nossa- a loira murmurou, ficando corada. Agradeceu por a latina não poder ver o estado que se encontrava- Obrigada, eu acho.
–Então?
–Então o que? Se eu sou um anjo?- Santana riu abertamente, tendo a loira a encarando confusa.
–Pode ser também. Senti uma brisa aqui e um bater de asas. Está me enganando dizendo que é uma simples estudante do ensino médio, Brittany?- fingiu estar desconfiada e dessa vez Brittany riu de maneira audível.
–Eu de anjo não tenho nada.
–Como sabe? Existem vários tipos de anjos.
–Existem?
–Sim. Você pode ser de uma filiação distante.
–Como assim?- a loira perguntou rindo.
–A dos que vem das flores. Tem um perfume maravilhoso, moça- agora Brittany estava quase um tomate de tão vermelha.
–Obrigada. Gosto de perfumes doces.
–Eu sei. Percebo muitas coisas, perfumes mais ainda- de repente ficou um silêncio constrangedor para a loira, que não conseguia falar nada por causa de seu desconcerto- Então, vai aceitar os aparelhos para seu estudo? Vai por mim, para aguentar as escolas daqui só com esse armamento pesado. Não vai querer entrar na guerra desarmada. Eu soube que muitos ficaram loló por não terem um tablet para pesquisar o valor de pi. E olha, com ele ainda dá de criar um bichinho em formato de cocô, que come, se suja e quer fazer xixi toda hora- Brittany mordia o lábio inferior hesitante- Por favor? Por favorzinho? Vou começar a usar as táticas do Charlie para ver se dar certo com adultos também- dizendo isso, a latina fez biquinho, juntando as mãos- Aceita?
–Meu Deus- a loira riu passando a mão no rosto- Tudo bem, você venceu. Mas tenho uma condição para aceitar.
–E qual seria?
–Que me deixe ir te pagando como puder pelas coisas.
–Mas estou te dando- Santana levantou as mãos, sem entender.
–Bom, essa é minha condição- a loira cruzou os braços, em firmeza a sua convicção.
–Tudo bem, fazer o que... Negócio fechado- a latina estendeu a mão para selarem o ‘’negócio’’ e quando Brittany aceitou o gesto, sentiu um certo calor ser transmitido pela mão morena e rapidamente desfez o aperto, pigarreando- Agora vou deixar você descansar. Tenha uma boa tarde, Brittany.
–Desejo o mesmo a você, Santana- pela primeira vez naquele dia, Brittany tinha dito algo sem ironia. Santana lhe enviou um último sorriso e saiu. A loira ficou uns instantes encarando a mão que Santana havia apertado e no mesmo instante seu sorriso lindo pintou em sua mente, lhe fazendo ficar intrigada com aquilo- Deus, essa mulher sorri demais- rolou os olhos, caindo de costas na cama. Levantou a mão e a fechou, esfregando os dedos a ela- E tem a mão tão quente... Eu, hein!
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