A liberdade em um olhar

14 Entre flores e vagalumes


Notas iniciais
Orá! E aí, mafagafos, tudo tranquilo? Bom, eu sei, deveria estar descansando, mas não queria deixá-los tanto tempo sem um capítulo antes do ano novo. Espremi o cérebro coisa do como deu e decidi deixar esse cap mais levinho procês. Espero que ano que vem normalize tudo para mim para logo voltar a essa bagunça nyahense. Pois bem, agradeço a todos pelas lindas mensagens de melhoras. Deus abençoe a todos. Pois bem, espero que gostem e me perdoem por qualquer erro. Coisa da insônia.

O Sol estava brilhante àquela manhã. Mas quem jure por seu brilho, que não havia de se entender o por quê do frio aconchegante acompanhado aos abraços do astro regente do dia claro.

Embora os suspiros gelados, a sorveteria Mabel's Smiles estava bem movimentada desde o momento que abriu. Conhecida pela ótima qualidade de seus produtos caseiros, não só sorvetes e outros gelados como: doces, tortas, bolos e afins, o ambiente oferecido em seu estabelecimento era de longe o melhor de toda a cidade, onde se era possível sentir-se no mais distante e acalentador refúgio rústico de tranquilidade.

Mabel, quem comandava a cozinha como doceira e sorveteira chefe, também dona do estabelecimento, era a senhora mais simpática e acolhedora que se tinha prazer de trocar palavras, e ela, uma grande simpatizante de Santana Lopez, abriu o maior dos sorrisos ao vê-la entrar em seu estabelecimento. Preferiu atendê-la pessoalmente e após um breve encontro regado a histórias e risadas, saiu à sorrisos deixando Santana e sua companhia adolescente nas boas mãos de uma de suas funcionárias competentes.

Santana e Brittany sentaram-se na mesa mais ao fundo e ambas afundaram-se nos confortáveis assentos de couro, uma de frente para a outra. Milk shake por milk e achocolado com bolinhos recheados de creme, Santana ia deixando Brittany cada vez mais confortável em papear os mais diversos assuntos, e assim poderia se orgulhar das gargalhadas que pode arrancar da loira, que parecia cada vez mais tranquila.

As horas se passaram naquele envolvido papo regado a uma infinidade de sorrisos e a níveis de intimidade nunca antes alcançado. Santana pedira a Ryder para apanhar Charlie no colégio e levá-lo até elas, para assim também desfrutar daquele ambiente milagroso e qualitativo.

—... Então eu fiquei perdida. Ele fazia xixi em tudo e eu não sabia para onde ir, porque ele também chorava sem parar e eu não conseguia pensar por onde deveria me locomover pela casa. Acabou que fui parar perdida no jardim com Charlie no colo e vômito de bebê por toda blusa, desesperada.

—E onde estava a vovó e a senhorita Fabray nesse momento?- Brittany perguntou, segurando a risada tentando imaginar uma Santana perdida com Charlie se esgoelando em seus braços pelo enorme jardim da mansão.

—Eu sei lá. Charlie estava gritando. Mal sabia eu o que fazer. Simplesmente surtei! Me senti um pontinho mínimo no oceano.

—Por que não reparou na frauda dele? Poderia estar molhado. Bebês odeiam ficar com a frauda cheia- remexeu em seu achocolatado recém posto a sua frente, se divertindo com as histórias malucas de Santana e sua experiência como mãe de primeira viagem.

—Foi o que a dona S me disse ao nos encontrar perdidos no jardim. “Santana, já disse a você que se ele estiver incomodado, repare na frauda primeiro. Você tem o olfato mais apurado que qualquer pessoa no mundo, como um cachorro, use-o com seu filho, oras. Quis ser mãe nessa idade, e agora, está aí, mais perdida que cego em tiroteio”. – disse, imitando o jeito nervoso de Susan explicar as coisas. Brittany soltou uma risadinha – Só Deus sabe o quanto eu ri desse comentário. Eu a cega da história, mas o tiroteio era de cocô e Charlie foi o melhor dos atiradores.

—Ser mãe tão nova deve ser realmente um sufoco. Tinha o que, uns vinte anos?

—Quase dezenove- a latina suspirou, cheia de recordações dessa época corrida e prazerosa de sua vida- Foi uma bela aprendizagem. Charlie foi um grande desafio na minha vida e me orgulho como mãe hoje pelo bom garoto que ele tem se tornado. Mesmo com toda correria e noites sem dormir. Nunca pude ver um zumbi, mas sei que nessa época eu bem parecia com um- riu do próprio comentário.

—Espera ver quando ele se entedia. Essa de bom garoto não cola.

Santana riu agora pela referência.

—A piscina.

—Oh, sim. Ainda hoje tenho cloro no cabelo.

—Isso mostra que ele gosta de você.

—Que meigo. Semana passada ele me jogou uma lagartixa de mentira. Seu gostar é tão bonito que assusta. Quase perdi o filho que eu não tenho no ventre pelo susto- ironizou.

—Dê um desconto a ele. Char é um garoto solitário. Não sabe muito bem lidar com pessoas novas tão significativas em sua vida, então, faz das tripas coração.

—Ele é bacana demais para ser solitário. Já disse a ele para tentar fazer mais amigos da idade dele. Seria mais saudável.

—É algo além disso. Charlie é um garoto diferente dos demais da sua idade. A maioria dos garotos o evita- encostou-se melhor em seu assento, acariciando a nuca.

—Como assim?- Brittany intrigou-se. Os lábios de Santana escorregaram-se em um sorriso de canto.

—Sinto que ele enxerga a alma das pessoas de alguma forma e vê a bondade em cada um. De certa maneira, ele também se apaixona pelo o que encontra e como cada um o faz sentir. Charlie gosta de explorar essas ligações, então o resto não lhe é importante. Por isso é tão no seu pé. Porque de fato ele viu algo extremamente bom em você, mesmo que você mesma não se dê conta disso.

“Pronto, começou!”. Pensou Brittany ao rolar os olhos. Preferiu continuar no assunto a rebater a cutucada da outra.

—Não é algo intenso demais para uma criança como ele sentir?

—Você já amou muito alguma coisa , Brittany? – a pergunta pegou a loira de surpresa, porém, tratou de responder rapidamente ainda tentando manter pelo menos essa conversa tranquila. Estava agradável demais para estragar, então manteve-se neutra.

—Sim, já.

—É intenso demais para você entender?

—Às vezes.- refletiu.

—Charlie nunca se confunde com ninguém, Brittany. E a grande diferença entre ele e nós é que crianças já nascem com o amor. Nós, adultos, só preservamos e muitos com o passar do tempo logo desaprendem. Nosso coração é tão facilmente corrompível que nos preocupamos menos em amar e mais em satisfazer nossos egos inflamados.

Brittany viu sentido naquela explicação, porém, não deixou de achar estranho. Santana era cheia de metáforas malucas e fora da sua compreensão.

—Você fala que nem uma velha- Brittany fez careta, resmungona. Santana riu, o que deixou a outra quente por dentro e ela sequer soube o por que. Acabou inquieta em seu lugar.

—Mas meu coração é novinho em folha. – a latina deu uns tapinhas no peito esquerdo, brincalhona. Brittany hesitou algumas vezes, então decidiu ir em frente e perguntar o que estava lhe inquietando há tempos.

—Posso te perguntar algo?

Santana deu um longo gole de sua bebida achocolata para responder.

—Claro, vá em frente.

—Por que você ainda está sozinha? Pelo o que me contou sua ex já seguiu com a vida dela, mas você ainda está aí, a ver navios. Ainda tem esperanças de, bem, haver alguma volta entre vocês?

Seu rosto esquentou como carvão em brasa ao perguntar aquilo. Geralmente Brittany não sentia vergonha de se expressar, mas com Santana tudo era diferente, ela se desconhecia. Já a latina apenas deu um singelo sorriso de canto.

—Só não havia encontrado a pessoa certa para querer seguir com o amor, apostar em um outro relacionamento como Quinn fez. Não me sentia segura o suficiente para me entregar a alguém novamente. Bom, pelo menos até agora – Brittany sentiu um arrepio persegui-la por todo corpo quando Santana mirou-a, mesmo que não pudesse vê-la, com o mais aconchegante dos sorrisos. Mesmo o frio ficando cada vez mais intenso, a adolescente pode sentir o próprio Sol envolvê-la com o gesto da morena- Pena que ela, essa pessoa, não se dá conta de que quando meu coração se liga tão forte assim a alguém, eu sei preservar... – se inclinou parcialmente por cima da mesa, como se fosse contar um segredo para a acompanhante e assim continuou — ... E amar com toda força- e o arrepio só piorava- Isso responde a sua pergunta, querida Brittany?

—Nada mais a questionar- tentou armar um sorriso, mas lembrando -se de que Santana não poderia vê-lo, desistiu. Suspirou baixinho.

—Você poderia me passar um pouco de mel, por favor?

—Claro. Sem problemas. – agradeceu aos céus pelo assunto ter morrido ali. Ou pelo menos foi o que pareceu.

A loira chegou a tocar no recipiente de mel, mas resolveu vingar-se por a latina deixá-la naquela desordem. Trocou o que ela pediu por molho shoyo, aproveitando o fato de que os vidrinhos de ambos tinham o mesmo formato e estavam tampados. Entregou o recipiente a ela com a maior cara de criança arteira e chegou a segurar a risada quando Santana aplicou o molho no achocolatado. No instante que sua patroa ia levar a xícara a boca, alguém mais atrás derrubou uma cadeira, o que assustou a loira e a fez olhar na direção do desastrado por um breve momento.

—Hum, esse achocolatado é realmente maravilhoso – disse Santana passando a língua pelo lábios satisfeita, fazendo Brittany olhá-la assombrada.

—O que? Tem certeza?- franziu o cenho. Será que o paladar da latina aprovara algo tão bizarro assim?

“Que merda é essa?”. Brittany pasmou em pensamento.

—Uma benção de tão bom- repousou a xícara de volta com cuidado e afastou-se alguns centímetros para o lado- Brittany, será que você pode vir aqui um instante?

Brittany trocou rapidamente o semblante de intriga por um de estupor.

—Eu?

—Sim. Se incomoda?

—N-Não.

A loira engoliu seco e levantou-se sem pressa, travada como juntas mecânicas há tempos sem lubrificação. Santana acabava seu achocolatado nesse processo, Brittany fazia careta de nojo. Ela realmente estava tomando aquilo com o maior apresso do mundo? Céus!

—Pronto. Já sentei. Precisa de algo?- a garota anunciou já do lado de Santana.

—Só de sua presença aqui- sorriu, tenra- Senti falta de vê-la. Será que eu posso?

Apesar do coração da loira estar correndo uma maratona em seu peito, ela não se opôs ao pedido de Santana e por impulso involuntário vindo sabe-se lá de onde, pegou as mãos da outra e levou-as para sua face.

Santana uniu um a um cada ponto das feições de Brittany à sua maneira com toda delicadeza que lhe cabia e que fora capaz de fazer a loira suspirar como se estivesse sendo tocada por plumas. Abria e fechava os olhos lentamente, à tempo de ver o sorriso de Santana ir crescendo até não poder caber mais no rosto e assim acabou por sorrir também. O semblante bobo da mulher a sua frente era deveras engraçado.

—Seu sorriso crescendo sob meus dedos é a segunda melhor sensação do mundo.

—É?- Brittany estava entorpecida, seus olhos serravam-se. Falava sussurrado- E qual seria a primeira?

—Sentir o sabor de teus lábios quando beijo você.

Depois disso não tinha como manter o olhar longe daquela pessoa irritantemente encantadora a sua frente. Brittany abriu os olhos e o maravilhoso brilho azul surgiu sorrindo pela primeira vez a alguém e era uma pena Santana não poder presenciar tal beleza que a natureza fora criadora e lhe presenteou nesse momento. Como se pudesse adivinhar o que acontecia, Santana escorregou um dos polegares até os lábios de Brittany e com mais delicadeza ainda os acariciou. Estavam gelados, e como se pudesse ouví-los, sentia que o que eles precisavam agora era serem aquecidos contra os seus.

—Você treme- agora a mão de Santana vagava pela orelha esquerda de Brittany, explorando algumas mechas de cabelo presos a ela- Te deixo nervosa?

—Não seja convencida – Santana riu baixinho- Acha que vai ser tão fácil assim?- murmurou uma Brittany arrastada.

—Tão fácil o que?

—Me dobrar, desestruturar. Fazer com que eu me jogue em seus braços e implore por sua afeição no meio de uma multidão de mulheres louca por seu corpo latino?

Foi uma mera brincadeira da loira, porém tinha um certo grau de interesse em suas palavras.

—Não tem uma multidão de mulheres, como diz. Só tem você... E não é preciso que implore por minha afeição, você a tem há muito tempo.

—Interessante. Vocês riquinhos são todos iguais, cheinhos de lábia. “Você é a única,bla blá blá” – gesticulou uma boca exageradamente falante com a mão- E se eu disser que sim e te dar toda passagem dentro de mim? Irá me usar como bem entender?- as duas estavam cada vez mais próximas e apenas uma seda de ar separavam suas bocas.

—Você precisa conhecer melhor o mundo, sabia?

—Por que?

-Porque existe exceção para tudo na vida e eu sou uma delas. Só precisa me deixar mostrar isso a você, querida Brittany.

—Nossa, que galante!- a loira brincou de abanar-se como quem fora impressionada por galanteio- Minha mãe me ensinou que nunca se deve confiar em advogados.

—Ela precisa me conhecer, então. Sou uma boa influência. Diferente da filha dela. Mexe com os outros, sabe disso, depois brinca com o que causa. E eu falo de fogaréus.

A latina fora mais além e apoiou uma das mãos da cintura da loira e se concentrou em aplicar carinhos ali. O corpo branco estava de pelos eriçados por esse gesto. Santana sabia ser quente e atrativa quando bem entendesse.

—É você que está me tocando, não?- Brittany inclinou o rosto e fixou o olhar na boca carnuda da outra.

—Mas é você que está babando por minha boca.

Santana tentou controlar a gargalhada que deu, para não chamar a atenção para a mesa ao fundo em que elas estavam, mas demorou parar de rir. Brittany emburrou-se e a empurrou de si com as mãos em seus ombros.

—Desculpe-me. Eu estava brincando – nem tanto assim. Santana pensou. Foi aos poucos se controlando.- Sério, não fique zangada. O que posso fazer para me redimir?

—Me deixe ver seus olhos.- Brittany disse depois de pensar por alguns minutos, saindo da postura de marra.

—Não pode ser outra coisa?- a latina franziu os lábios, um tanto desagradada- Qualquer coisa, menos isso.

—Você me chamou aqui para “ver” meu rosto- fez aspas com os dedos ao dizer- Agora quero ver seus olhos e nada mais.

—Hey- Santana impediu-a de retirar seus óculos, envergonhada- Não me sinto confortável de tirá-los em público. Já lhe informei sobre isso.

—E do que se envergonha?

—Da neblina que há neles. São apagados.

—Sabe... – Brittany passou os dedos pela orelha de Santana- Eu adoro neblina, se quer saber.

Sem esperar por resposta ( e não as teria, já que Santana parecia ter levado um choque gigantesco), a loira não demorou tirar os óculos escuros dela e sorriu levemente ao se deparar com seus olhos acinzentados e sem foco, porém eram os mais belos e significativos que já viu.

—Você é muito chata.

—E você me contraria demais- Santana resmungou, porém com uma pontada de sorriso. Brittany deixou a primeira demonstração de satisfação da manhã raiar bem ali.

—Estou aqui para isso.

—Bom saber.

—As coisas não são fáceis comigo, Santana.

—E não precisam ser. Eu só preciso do momento certo. Como esse.

—Como esse?- a loira perguntou, já notando o que a outra tinha em mente.

—Sim, esse

E por questão de milímetros dentro de milímetros Santana quase consegue o que tanto almejava esse tempo inteiro. Seus lábios chegaram a se riscarem, em um beijo sem muito contato quase infantil, porém, como por conveniência, Charlie se apresentou no exato momento com uma carranca gigantesca.

—Odeio aquela escola!- ele bufou, sentando-se no lugar que pertencia a Brittany. As mulheres consertaram suas posições, Santana mordia o canto do lábio da maneira mais sexy e nervosa de se presenciar. O coração de Brittany testava uns passos rápidos de hip hop de ponta a cabeça em seu peito.

—O que aconteceu, filho?

—Bom, começou pelo ENORME fato de estarem querendo proibir batata frita e refrigerante no lanche, o que é um ultraje pois toda criança em fase de crescimento precisa disso- Charlie levou a mão ao peito, dramaticamente sentindo-se ofendido. Santana e Brittany riram.

—Precisam, claro- a mãe do garoto disse em tom de ironia. Era uma verdadeira batalha fazer Charlie comer qualquer tipo de verdura.

—E depois- ele continuou — Rolou o maior vale tudo bem no meio do corredor, o que causou um barulhão tão grande que acharam estar invadindo a escola. Tive que deitar debaixo da minha carteira por segurança de haver tiroteio e alguém achou interessante pisar no meu boneco do Wolverine edição limitada- mostrou o boneco com um braço faltando e a cabeça torta. Brittany sussurrou sobre o estado do brinquedo para Santana, que só sorria com o jeito emburrado do garoto pelo acontecimento- E sabe a filha chata da sua colega de trabalho? Como é mesmo o nome dela? A que parece uma versão feminina do Donald Trump, meio ex paquita da Xuxa?

—Sue Silvester?- indagou Santana.

—Essa mesma. A filha dela, a que parece uma paca, fez algo a Brittany a nível grande de maldade. E sim, eu fiquei sabendo disso, senhorita- apontou para Brittany, como se estivesse dando uma dura nela por não lhe contar. A garota ergueu as mãos como em sinal de culpa- Então eu encontrei com ela no corredor da escola, tentei uma conversa civilizada para fazê-la retirar tudo o que disse da Britt Britt, mas a única coisa que fez foi me mandar sair da sua frente, me chamando de “filhote de lésbica cegueta”. O que para mim foi o cúmulo da má educação.

—Ela realmente é uma garota de má índole, não? Não sou de me posicionar em como os pais devem criar seus filhos, mas Sue deveria rever a forma que trata com a educação de Ashley.

—Não gosto daquela mulher, mamãe- disse Charlie acuado- E a filha dela é uma bruxa verruguenta.

—Ele te fez algo, Char?- Brittany perguntou receosa. Ashley era uma pessoa tão horrível que seria capaz de maltratar algo como o pequeno. A loira não saberia se dessa vez deixaria algo sobrar na cara da líder de torcida caso tivesse feito algo com Charlie.

—Não deu tempo, Britt Britt – o garoto pescou um bolinho que tinha na mesa e mordeu um grande pedaço- Eu a chamei de cara de capivara e dei um enorme pisão em seu pé- tanto Brittany quanto Santana arregalaram os olhos – Lavei sua honra, Britt Britt. E sai correndo, claro. Herói bom é herói vivo.

Charlie e suas pérolas deixam qualquer dia melhor.

Uma hora e meia depois as mulheres e o garoto deixavam a sorveteria com Charlie em um ataque de riso sobre os ombros de Brittany. Acontece que, algum tempo depois, a loira fora finalizar seu achocolatado e acabou surpreendida pelo gosto horrível do molho shoyo misturado a bebida doce, fazendo Santana cair na gargalhada ali mesmo. A latina havia trocado as bebidas no momento que a adolescente virou-se para ver o que havia acontecido ao homem que derrubou a cadeira, um movimento muito rápido e sorrateiro.

—Britt Britt caiu certinho- Char zombou, fazendo a loira que o carregava fingir que o derrubaria dali.

—Tudo bem, certo. Eu mereço- Rolou os olhos – Mas sua mãe é sinistra.

—Ela é uma ninja disfarçada. Raiá!- Charlie fez uns movimentos de karatê com as mãos, Santana continuava sorrindo.

—Só pode ser mesmo — virou-se agora para Santana- Cara, como você soube que eu tinha trocado o mel por molho? E como trocou as canecas sem que eu notasse? Eu estava bem ali.

—Sabe, querida Brittany, se eu te contar, vou ter que matá-la. Então, shiii- levou o dedo indicador aos lábios e sorriu brincalhona. Brittany tomou sua bengala roxa e saiu correndo com Char em seus ombros. Santana ergueu os braços- Hey... Minha Violet!

—Você ganha isso por ser chata. Vai ficar aí perdida- Brittany gritou. Char só se divertia com a situação. Ryder do outro lado da rua via a cena e achava a graça. Aqueles três eram umas figuras juntos.

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—E dai em diante, após o lindo beijo de amor verdadeiro, o príncipe e a princesa puderam seguir viagem... Felizes para sempre. Fim.

—Fim?

—Sim, fim.

— Que droga de fim foi esse? A mulher é mordida por uma cobra venenosa enviada por um demônio e o cara a cura com um beijo de amor verdadeiro? Pshii... Que balela! E o soro antiofídico? E tentar sugar o veneno? Chamar o Richard Rasmussen? Fala sério...

Brittany revirou os olhos enquanto Charlie se revoltava pelo final do livro que ela acabara de ler para ele. Todas as vezes era assim, nunca falhava. Ele sempre tinha que questionar tudo, todos os porquês e saídas lógicas para situações fictícias, das mais mirabolantes. E como sempre, Charlie achava que tinha resposta para tudo.

—Charlie, pela centésima quinta vez, é só um livro. É algo inventado, seu garoto maluco- ela fechava o livro enquanto ele ainda pulava na cama de seu quarto, já quase vermelho de tanto falar.

—Brittany, você é bem bacana. Pena que é burrinha- Charlie sorriu arteiro e sentir-se na posição de índio ainda na cama.

—Wou... Eu sou muito esperta, isso sim- A loira lhe jogou um travesseiro. Charlie deu uma cambalhota divertida na cama.

— Sabe, quando eu for mais velho, vou escrever a melhor série de livros de ficção científica da história.

—Uau. Só não esqueça de mim quando for famoso, ok?- a garota brincou levando e guardando o livro no lugar certo na estante ao lado dos demais. Charlie adorava ler e Santana incentivava isso. Uma enorme biblioteca fora feita na mansão e o garoto sempre separava alguns para ler pelas horas livres longe da escola.

—Claro que não vou. Você vai casar com minha mamãe San. Estará sempre perto, então, difícil será esquecer- deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural da humanidade.

—Certo. Prometo te deixar levar as alianças de ouro branco. Sem falar dos pôneis roxos.

—Vai brincando.

Charlie cerrou o sorriso semelhante ao gato flutuante de Alice no país das Maravilhas. Brittany levou na brincadeira.

—Agora é hora de dormir, Char.- foi até o garoto e envolveu nas cobertas- Me despeço de você agora. Nada de ficar zanzando pelo quarto ou pela casa de novo. É perigoso. Se precisar, pode me chamar no meu quarto, ok?

—Certo. Vou ficar na cama hoje.

—Na cama- Brittany reforçou, beijando sua testa com um certo grau de carinho e cuidado. Ela se desconheceu fazendo isso. Nunca foi muito carinhosa- Boa noite, Char. Durma bem.

—Você também, Britt Britt. Obrigada por ser minha amiga e cuidar de mim.

—Estou aqui, Char- deixou um sorriso para ele e logo abandonou o lugar, torcendo para que o garoto pudesse ter uma boa noite de sono, pois as vezes sofria de insônia e era penoso. Sentia que, de alguma forma, deveria falar com Santana sobre isso.

Andando pelos corredores da parte Sul da casa, ela ouviu música ser tocada ao longe. Parecia estar vindo do grande jardim e, lembrando -se de que não via Santana desde o jantar, só podia ser ela aprontando alguma coisa.

Uniu-se de coragem e desceu até o jardim. Estava com roupa de dormir, o robe mal lhe protegia do frio ali fora, mas ela nem se ligou a esse fato.

Santana estava sentada a um banco afastado, perto da fonte de anjos que embelezava ainda mais seu jardim. As pernas estavam encolhidas ao corpo, o queixo apoiado aos joelhos, agora uma música mais melancólica tocava ao fundo e a morena suspirava aos ventos.

Brittany aproximou-se hesitante, sentou ao lado da morena e tocou-lhe o ombro, a outra levantou o rosto em sua direção e deixou um leve sorriso escapar.

—Querida Brittany... Creio eu que agora você se encontra em casa.

—Como?

—As flores, Britt Britt. As flores – a latina escorregou uma das mãos por algumas flores ao seu lado e de lá retirou uma, dando-a a Brittany- Elas estão felizes em vê-la. Mas quem não estaria?

—O que você tem?- perguntou preocupada. Santana parecia perturbada com algo.

—Você sabe que dia é amanhã?

—Terça-Feira?

—Meus pais... É o aniversário de casamento deles. E coincidentemente...- ela suspirou ao continuar – O aniversário do acidente que me tirou a visão... E a meu querido pai.

Brittany nunca vira Santana daquela forma e não era nada bom de se presenciar. Ela era sempre tão viva e alegre e agora... Apagou-se.

—Sinto muito.

—Não sinta- Santana levantou-se- É só uma data como outra, não? Passam rápido.

—San!

—Você dança comigo?

—Como?

—Dança comigo. Os vagalumes devem estar dando um belo contraste as flores. Me diga você.

—Sim, está tudo muito lindo.

—Então dance comigo ao luar ... Entre os vagalumes- estendeu a mão a outra – Vamos... É só o que eu preciso.

Brittany suspirou. Como proceder?

De repente seu celular vibrou. Era uma ligação de Kitty que depois de alguns minutos caiu, dando lugar a uma nova mensagem marcando um encontro para uma festa em 15 minutos. Sentiu-se ainda mais confusa. Atender a ligação de uma Kitty que lhe ofereceria uma incrível noite de diversão ou aceitar o aconchegante convite para dançar de Santana, que realmente parecia precisar de sua presença ali?

E agora... O que fazer, Brittany?

Uma delas iria acabar cansando de esperar. Mas quem seria?

Notas finais
E aí? O que acham que Brittany fará dessa vez? Será que a mudança está chegando ou... Desentortar o pau torto é mais complicado que saber se é biscoito ou bolacha? Bjão a todos . Desde já feliz natal e ano novo.