Notas iniciais
Veio mais rápido dessa vez. Yeh! Cap dedicado a Victoria Galvão, a quenga do meu ódio que eu mais amo. Espero que gostem

—Me desculpe, Brittany- sussurrou ainda ali, sentindo o peito pesar por medo e alegria ao mesmo tempo sobre aquele envolvimento- Mas acho que estou me apaixonando por você.

... Me apaixonando por você...

...Por você!

Foi como um eco infinito de uma caverna nos ouvidos de Brittany. Ela continuou ali, parada, de boca aberta, em choque, sem acreditar no que acabara de escutar. Aquilo era um sonho? Uma pegadinha de muito mau gosto? Realmente o que acabara de escutar era de uma gravidade horrenda para sua atual situação de problemas infinitos.

—O-O que você disse, Santana?- ela sabia e muito bem o que a latina acabara de dizer, todavia, Brittany tentava se fazer acreditar que Santana Lopez, uma advogada talentosa e milionária, filantropa, querida por muitas pessoas e desejada por outras mais, estava ali, a sua frente com um semblante temeroso, dizendo que a queria, que estava apaixonada por ela. Exatamente... Ela... Brittany Susan Pierce, a confusão em pessoa. Wow, isso realmente deveria ser um sonho, ou mais uma prova de que Brittany estava mais ferrada do que já se imaginava estar na vida- É mais uma brincadeira sua, não é?

—Queria que fosse- a latina deixou os ombros cair e voltou a se encolher em um canto- É a mais pura verdade, Brittany. Penso que estou confusa em algumas partes, mas de fato eu quero a você e muito bem.

—Mas por que a mim? Você pode ter quem quiser, tem mais dinheiro no seu bolso nesse exato momento do que minha familia já teve na vida inteira. Conhece milhares de pessoas. Muitas delas querem você... Tem uma ex que aparenta ser mais uma modelo internacional a uma advogada de prestígio e um filho que parece ter saído de um catálogo- riu, nervosa- Agora, por que, de tudo isso, você vem dizer que está apaixonada por mim? Logo por mim? Quem eu sou perto de você?

—Alguém por quem lutar? Alguém que vale mais que a maioria dessas coisas pra mim, exceto meu filho- respondeu, franca. Brittany afundou-se no chão fofo da cabine, bufando ainda desacreditada.

—Isso é uma puta loucura.

—Por que você está agindo dessa forma? É tão ruim assim eu gostar de você?

—Você não pode gostar de mim, Santana. Você não- Santana abraçou as próprias pernas, apoiando o queixo no meio dos joelhos unidos- E Quinn? Não sente nada por ela?

—Quinn é minha melhor amiga. Nada mais há entre a gente desde que nos separamos. Nem ela quer que aja.

—Ah, então é isso? Você me quer como step?

—O quê? Claro que não. Nunca agiria dessa forma com você, tampouco a vejo assim- mostrou-se calma perante a acusação. Brittany sentiu-se enjoada- Por favor, meus sentimentos por você são os mais limpos e puros de todos. Eu quero cuidar de você e de suas feridas. Por que é tão difícil de acreditar nisso?- questionou, com toda calma que possuía em seu corpo intranqüilo agora- Ouça, eu não quero forçar você a nada. Muito menos a gostar de mim, pelo o que sou ou o que tenho, mas peço que pense bem sobre continuar em minha casa. Seu futuro acadêmico será o melhor. E não vai lhe faltar mais nada enquanto eu existir.

—Sempre vai faltar. E eu mal te conheço, Santana. Não me sinto confortável aceitando essas coisas de você. E da forma que você fala não parece que quer uma mulher e sim um bichinho de estimação.

—Por que você distorce tudo o que eu digo?- deslizou até a loira e tateou até encontrar sua mão pelo chão- Sai dessa defensiva, por favor. Pelo menos comigo. Sabe o quanto te compreendo e tento por um todo sempre entender o que você sente e lhe ajudar a lidar com isso.

—Não... Você é uma completa estranha pra mim, Santana... E sua vida não serve pra mim. Não pode me comprar com ela e muito menos tenta controlá-la. Você parece um livro de auto ajuda ambulante, toda cheia de positividade e isso muitas vezes me irrita. Ninguém é tão controlado e vivaz o tempo inteiro- a latina recuou a mão e meneou a cabeça, frustrada. Mas mostrou-se firme, sorrindo, mesmo que fracamente e com o coração jogado aos lobos agora.

—Eu entendo- deslizou de volta a sua posição anterior, deixando escapar uma risadinha constrangida- Entendo bem.

-Eu poderia pedir desculpas, mas de nada eu tenho culpa nisso. Estou sendo sincera, apenas. Não podemos forçar as coisas pra onde não deve, não é?- Santana confirmou com um aceno fraco de cabeça.

—E, sabe, esse negócio de amor também não serve pra mim. E eu não sirvo pra você, Santana, nem nunca vou. Veja os pontos... Nenhum a nosso favor. Você é rica, generosa, eu um grande problema. Acho melhor ficar longe de mim- se aproximou da latina e tentou tocar sua mão, mas a mesma logo sentiu a aproximação da outra e abriu os braços, como quem chama para um abraço. A outra ficou estática ali mesmo e a garganta aparentava ter tampado nessa hora. Mesmo toda relutante, Brittany deixou-se acolher nos braços acalentadores da advogada, deitando com a cabeça em seu peito e abraçando sua cintura.

—Brittany, Brittany... — a latina sussurrou, acariciando os cabelos dourados- Doce e confusa, Brittany- agora depositava um beijo carinhoso no topo da cabeça da outra- Você não deve se limitar a ser feliz. Pare de se machucar tanto.

Antes mesmo que Santana pudesse continuar, Brittany levantou-se e saiu bruscamente do abraço de Santana e da cabine, deixando pra trás os próprios saltos e uma latina frustrada, abraçada aos joelhos como uma criança abandonada e sem rumo.

—Você é mais do que pensa ser, Brittany- a latina murmurou pra si, deixando os dedos passearem por entre seus cabelos negros e caídos sobre os ombros nus- Ela tem um cheiro tão maravilhoso- suspirou baixinho- Santana, Santana... Olha você aí de novo... Procurando um jeito novo de se machucar.

***

—Onde está Santana?- Ryder perguntou, procurando pela patroa, assim que Brittany entrou no carro e bateu a porta com mais força que era o necessário, cruzando os braços como se estivesse muito emburrada.

—Não sou babá dela- respondeu sem educação.

—Não pode deixar ela sozinha assim, Brittany. Ela pode não achar o caminho de volta... Esse lugar tem muitas entradas e saídas, às vezes Santana se confunde- tirou a cabeça pra fora do carro, afim de tentar encontrá-la com o olhar- Droga.. Fique no carro- Ryder se preocupou, saindo do carro com pressa e passou a correr até o lugar onde as mulheres haviam seguido há quase uma hora na procura de Santana. Embora aquilo também preocupasse Brittany, por a latina estar sozinha nessa noite em um lugar onde pode facilmente se perder, ela estava inconformada demais pra sentir remorso por tê-la abandonado na estação de jogos.

—Quem ela pensa que é pra me pedir aquilo? Pra querer ficar comigo? Faça-me o favor, a mim ninguém compra- encostou a cabeça no vidro- Fala sério. Isso não podia ficar pior.

—Aqui, Santana. Cuidado com a cabeça- Ryder, com cuidado, guiava Santana para entrar no veículo. Assim que ela sentou-se ao lado de Brittany, a mesma pode perceber um corte na cabeça da latina, do qual escorria um pouco de sangue.

—Meu Deus, o que foi isso?- Brittany questionou assustada.

—Resultado da sua imprudência- Ryder respondeu bravo, tirando um lenço de seu palitó para repousar sobre a cabeça de sua patroa e limpar o sangue do ferimento. Santana Gemeu assim que ele fez isso.

—O que quer dizer com isso?- a loira perguntou, sentindo-se ofendida.

—Não devia tê-la deixado sozinha lá, eu avisei. Será que você não pensa nas consequências de seus atos, mocinha?

—Mas...

—Ryder, por favor. Vamos logo para casa- Santana pôs fim no sermão de Ryder para Brittany, repousando a cabeça no encosto do banco.

—Melhor levar você a um hospital. Acho que isso requer alguns pontos.

—Que seja... Mas deixe Brittany primeiro em casa. Ela tem aula amanhã cedo.

—Ok- o motorista acatou, dando uma última olhada repreensiva para a adolescente, que parecia surpresa pela atitude brava do rapaz, pois ele sempre lhe fora muito gentil e amigável, e agora parecia odiar-lhe.

Brittany ficou por algum tempo só observando Santana, e esta, fazia de tudo para evitar falar algo com a mais nova, até mesmo evitou-se sentar perto dela no carro. Mesmo orgulhosa, Brittany resolveu ficar por dentro do ocorrido. Dentro de si um sentimento se culpa estava por consumí-la a cada milésimo de segundo que observava sua patroa fazer careta pelo machucado na cabeça.

—O-O que houve com sua cabeça, Santana?- perguntou, tentando parecer o mais estável possível, porém a voz tremulou. A latina suspirou antes de responder.

—Não foi culpa sua. Não se preocupe- sua voz aparentava tranquilidade, respondendo com sua educação bem polida de sempre, porém Brittany não fazia ideia de como ela estava realmente por dentro.

—Não é isso que quero saber. Como você se machucou?

—Não sabia onde havia ficado minha bengala, então fui procurá-la. Acabei entrando em um brinquedo que eu não tinha ciência de sua existencia ali e quando fui mexer nas coisas atrás de Violet, minha bengala, algo se desprendeu de algum lugar e me acertou na cabeça.

—Céus...

—Não se preocupe. Estou bem. Ryder está exagerando quanto a gravidade disso. Nem dói tanto. Já estou acostumada com esses tipos de acidentes.

—Você está bem mesmo?

—Sim, estou. Ryder vai deixar você em casa. Descanse bem. Amanhã tem aula cedo- a loira apenas fez um gesto positivo com a cabeça e se encolheu em seu assento. Ouviu um suspiro de Santana, apesar de baixo e acabou por suspirar também. Ela havia ficado responsável pela bengala de Santana que a mesma havia lhe entregado para que colocasse em algum lugar de fácil acesso. Só se lembrava de tê-la jogado em qualquer canto quando entraram no simulador de gravidade. Que grande mancada, Brittany! Ela pensou, ainda mais encolhida ao olhar para Santana tão fragilizada. Por que ela não se refazia e pedia desculpas pra latina, quem sempre fora tão boa e generosa com ela? Bom... Pelo o que se sabe... Brittany Pierce nunca se refaz.

***

No dia seguinte...

—Saia da minha frente, suburbana- Ashley trombou em Brittany, fazendo-a derrubar seus livros pelo chão, onde alguns alunos os chutaram até se perder entre os demais, bem no corredor dos armários. A loira bufou, prostrando-se ali para tentar pescar os livros de volta. Estava distraída e pensativa enquanto pegava seus livros no armário quando recebeu o ataque surpreso e muito infantil da líder de torcida chefe. Antes que Brittany conseguisse pegar um livro sequer do chão, outra garota, também líder de torcida, veio por trás e trombou também nela, fazendo-a cair aos pés de Ashley- Isso, caipirinha... Conheça o seu lugar. Bem aos meus pés, como a bela gata borralheira que é... Ou melhor dizendo, sua prostitutazinha barata de cegos solitários... Quanto Santana Lopez te paga pelas chupadas, hein? Deve um presso bem alto pra você estar aqui na G.E.L, não é? Levando em conta que a caipira da sua mãe não tem dinheiro nem para o leite de seus 15 irmãos piolhentos- isso pareceu ser demais pra loira. Ashley Silvester e as amigas começaram a rir e zombar de Brittany, caida ali e ficando vermelha. Desde que entrou naquela escola, só havia sido tratada com desprezo por muitos alunos ali, quando souberam de onde ela tinha vindo e de quem ela era filha e neta, ainda mais quando chegou aos ouvidos de seus colegas de que era Santana, patroa da loira, que a custiava com todos os gastos.

—Acho que ela vai chorar, Ash- outra menina apelou, apontando para as feições de pura cólera de Brittany, que realmente tinha lágrimas nos olhos, mas era puramente de revolta.

—Deixa ela chorar... Bem feito, pois esse cabelinho horroroso é de morrer de pavor e lágrimas mesmo... — olhou com desprezo para a loira no chão- Esse país e suas mulheres de quinta.

—Me deixe lhe ajudar, Brittany- Rachel, colega de classe da loira, uma das únicas que ainda não havia lhe atacado com insultos na classe, apareceu entre a multidão de alunos e se ofereceu para ajudar a loira caída.

—Olha... Ela tem uma namorada... Tão patética quanto ela, por acaso- Ashley zombou e mais gargalhadas foram ouvidas- Sempre quis ter um anão de estimação, mas mamãe diz que é contra os direitos humanos. Mas desde quando um hobbit tem direitos?

—Cala essa boca, Ashley. Tudo que você diz é tão disprezível quanto você e sua mãe corrupta- Rachel contra atacou- E se você trata as pessoas assim, porque nada mais, nada menos é tão frustrada consigo mesmo que não aguenta ver as pessoas sendo felizes- Brittany deixou escapar uma risadinha pelo comentário da colega, que parecia segura da afronta. Já Ashley não gostou nada, pois muitas pessoas também soltaram aquele famoso: uhhh, que era mais um incentivo para a briga engrossar de vez.

—Saia da minha frente, inútil... Pessoas como você e essa prostituta ai no chão deveriam ser proibidas de conviver com as pessoas. São duas doentes... E se você continuar a ficar do lado dela, é capaz de pegar uma doença venéria porque essa daí já deve ter dado até para detentos em prisões sujas- Ashley foi passar por Brittany, empurrando-a com a perna para completar a ofensa desmedida, porém, a outra, para a surpresa de todos, agarrou a sua algoz e a jogou no chão, sentando em seu quadril.

—Você acha que pode ser melhor que eu, não é? Vou te mostrar quem eu sou realmente, vadia.

—Saia de cima de mim, agora!- Ashley relutou, porém Brittany fez pouco caso e a castigou com vários tapas na face, sem pudor algum de força aplicada ali. Uma multidão formou-se em volta das duas.

—Nunca mais mexa comigo- socos surgiram agora por parte de Brittany. Ashley chegou a arranhar o rosto e pescoço da loira, porém aquilo não era o bastante parar pará-la com a retaliação. Rachel congelou ali mesmo assim e foi encolhida por uma multidão de alunos excitados pela violência, e só atiçavam para que piorasse a situação. Ninguém moveu um músculo para ajudar quem quer que fosse. Outros só filmavam. Nem as “amigas" fiéis de Ashley, que já sangrava no rosto, principalmente no nariz, moveram uma unha pra salvar a sua líder. Sebastian surgiu, finalmente, entre as pessoas amontoadas e tirou Brittany de cima de sua namorada, bem no momento que a diretora chegava acompanhada de mais dois professores. Ela olhou pra Brittany, depois fitou Ashley caída no chão, aos prantos, com fios de sangue por algumas partes do rosto. Tornou a olhar para a loira nos braços de Sebastian, que estava horrorizado pela cena, e ela ofegava ainda demonstrando intensa raiva. Em uma engolida seca, a diretora fitou Brittany tentando manter a calma.

—Pegue suas coisas, senhorita... Você está expulsa dessa escola.

—O que? Mas ela que provocou tudo isso.

—Basta!- interrompeu a revolta perplexa de Brittany, sem perder a pose de auto controle de classe- Não toleramos violência nessa escola. Isso é inadmissível. Chame seus responsáveis. Você não continuará aqui ao término de minha reunião com eles. Tem a minha palavra- então, com esse ultimato, a diretora deu as costas e saiu, deixando uma Brittany estática pra trás. Ashley, mesmo toda machucada, sorriu perversamente ao observar o semblante desnorteado de Brittany.

***

Sala de reuniões da Lopez Advocacy.

Cerca de oito advogados estavam reunidos na principal sala de reuniões da firma de advogacia onde debatiam sobre um grande caso lançados a eles pelo próprio governo russo acima de um vazamento de provas contra o desembargador do país. Sempre que havia casos do tipo, de grande proporção, eles se reuniam com a presidente, nesse caso Santana, também com a presença da carrancuda vice presidente, Sue Silvester, e os principais advogados e sócios da firma. Estavam ausentes Manu, que apesar de aposentado, ainda participava de reuniões desse porte, Mercedes Jones, que havia se juntado a Quinn como uma espécie de experiência adicional no caso de Londres, e a própria ex de Santana. Mas seu pai, Russel Fabray, estava com presença cativa no local, pois depois de Sue, ele era um dos maiores sócios, também amigo da família Lopez.

—... O Governo indicou nossa firma para defender o caso sobre o suposto envolvido no golpe de desvio de verbas em Moscou, onde o principal apontado é o desembargador e mais alguns agregados... — explicava Dave Karofsky, um dos advogados, ao apontar para o grande telão atrás de si com alguns fatos apurados, fotos dos envolvidos e suas fichas criminais. Todos estavam atentos a sua explicação. Sue Silvester tinha um sorriso malicioso de canto, já imaginando a repercussão, fama e dinheiro que isso traria a empresa e a seu nome, que já era muito bem reconhecido no meio tanto de direito quanto político, pois a mesma estava começando uma carreira no senado americano. Já Santana, que sempre se mantinha a mais atenta e analista nessas reuniões, estava dispersa quase por total. Sentada a sua cadeira tão confortável quanto um sofá de couro, ela se mantinha a dar-se pequenas mordidinhas no punho enquanto se massacrava por dentro em pensamentos sobre o que acontecera entre Brittany e ela nesse decorrer de tempo até a chegada da adolescente em sua casa. Mas, apesar de todos os conflitos, eram nos lábios macios de Brittany que a latina se concentrava as lembranças. Tão doces, banhados em tantas belas sensações que afloravam cada célula dos sentidos de Santana, fazendo assim toda problematização, contras, quebra-cabeças e entre outros, não se passarem de meros mal entendidos. Como um jardim repleto de flores, Brittany tinha o melhor dos aromas para Santana, era tão atrativo, tão acalentador, que ela suspirava só de recordar-se desses efeitos. A latina não sabia se aquilo era exagero de sua parte, mas ou a neta de Susan era uma encantadora feiticeira, que a laçou com um feitiço de atração dos mais fortes, ou a paixão desenvolvida pela moça problemática estava por bagunçar seus sentidos afiados atrelados com a sanidade.

Apesar de parecer tudo lindo a sua “visão" das coisas por dar tanto sentido a esses sentimentos, tudo estava por caminhar a passos rápidos para o fracasso. Brittany parecia que a cada passo que Santana dava a sua direção, ela dava vários outros, só que para bem longe. Essa defensiva contra sentimentos bons era o que mais atrapalhava seu convívio, mas não só com Santana, com a avó da loira, com a mãe dela, na escola ou com qualquer pessoa que tentava lhe aconselhar. Era como se Brittany quisesse por vontade própria se perder e isso era deveras alarmante. Mas ela poderia mudar... Só Deus sabe o quanto Santana estava disposta a ajudá-la, mesmo que assim não pudesse haver nada entre elas, porque também Brittany é a mais jovem, na adolescência ainda, deveria ter pessoas de sua idade mais interessantes que uma advogada que adorava música clássica, jogar xadrez e passear com o filho pequeno. Ainda por cima era deficiente visual, haveria coisas que nunca poderia realizar com ela. Pensando assim, a latina acabou por concordar com Brittany sobre os pontos contra elas. Eram muitos, até.

Sorriu de canto, frustrada. Alguém bateu na porta, afoita. Era Roberta pedindo passagem.

—Pode entrar, Roberta!- a latina disse, tranquilamente. Todos na reunião se viraram para ela, pois só agora a mesma havia se pronunciado durante a sessão- Peço com licença a todos, serei breve- pediu, educamente aos demais, fazendo um sinal de que era pra sua secretária se aproximar, o que ela o fez, mostrando-se ofegante- Algum problema grave, senhorita?

—Brittany, na escola... Briga- falou como por código, mais vermelha que um pimentão.

—Como?- Santana pôs se ereta na cadeira- Acalme-se primeiro, por favor- repousou a mão sobre a da mulher grávida pra continuar- Brittany brigou no colégio?

—Quem raios é Brittany?- Sue Silvester intrometeu-se, antes que Roberta explicasse.

—Babá do meu filho- Santana respondeu, séria. Sue riu por deboche.

—Sua secretaria interrompe uma importante reunião porque a babá de seu filho brigou na escola? Faça-me rir!

—Babás ainda são pessoas, Sue. E eu me preocupo com meus empregados. Com qualquer um deles- com toda educação, a latina rebateu- Roberta, como ela está?

—Não sei direito, me ligaram do colégio, pois você pediu que desse o seu telefone para o caso de qualquer emergência, e ao que me parece lá foi grave. Querem expulsá-la- no mesmo instante Santana levantou-se e caminhou até a porta. Todos os advogados se levantaram ao mesmo tempo, aparentando confusão por a latina estar abandonando o local.

—Santana, você não se posicionou sobre a proposta. Não pode sair assim- Dave expôs, indo até ela. A latina parou e virou-se a todos.

—Essa proposta do governo é suja, não recebo dinheiro de propina ou roubado de trabalhadores honestos. Vocês me conhecem há anos, e sabem que eu nunca trabalharia com pessoas desse tipo. Porém, não proibido ninguém aqui de pegar o caso. Mas não podem usar o nome da empresa nisso, estarão por conta própria. Meu avô não colocou de pé esse lugar com atitudes como essa... Então, meu parecer é: Diga que o pedido será negado pela L.A- estirou sua bengala sob o olhar espantado dos demais, menos de Russel e mais alguns advogados, que sorriam discretamente, aprovando a posição e audácia da presidente em negar uma proposta como aquela- Tenham todos um ótimo dia.

Então a latina saiu, a passos rápidos e ritmados, deixando assim um punhado de gente de queixo caído e uma Sue Silvester fumaçando pelas narinas.

—O que essa fedelha acha que entende de Direito? Vai acabar afundando essa empresa- disse por revolta, batendo com a mão fortemente na mesa- E ainda sai de uma reunião importante como essa para ir resolver briga da babá do filho... Quem raios brigou com essa delinqüente para todo esse alarde?

—Sua filha, Ashley- Roberta revelou, ainda ali, a tempo de ver a revolta de Sue, que virou-se tão rapidamente que os cabelos curtos esvoaçaram-se e parecia querer quebrar o pescoço.

—É O QUÊ??- gritou, porém se refez, mudando de tom- Hum... Como assim? Minha filha não participa dessas baixarias. E o que essa garota faz estudando em um colégio como a Golden Elite Lions... Com a minha filha?

—Não tenho todas as respostas do mundo. Vá a senhora a escola, pois a diretora pediu sua presença também. Passar bem- e Roberta saiu, com sua enorme barriga de grávida já pontuda, indiferente a Sue. Ela realmente achava aquela mulher muito hipócrita e mal educada.

-Esses serviçais- resmungou Sue, já ficando vermelha de raiva.

***

Brittany estava sentada a um banco perto da porta da diretoria, com uma carranca gigantesca de desagrado. Com uma compressa de gelo no pescoço, ela de vez em quando dava umas encaradas feias para Ashley, e esta estava sentada de uma maneira bem torta em uma cadeira, com o nariz enfaixado e um monte de hematomas pelo rosto e pescoço. Ficaram nesses olhares mortais e ameaçadores até que Santana e Sue Silvester adentraram o corredor lado a lado. Sue olhou feio para Brittany, depois para sua filha, que fez um bico penoso e logo entrou com a mãe na sala da diretora. Assim que Santana iria fazer o mesmo, Brittany a segurou pelo braço, fazendo-a parar.

—Vamos embora daqui. Eu fui expulsa... Nada mais há o que fazer- Santana nada disse, apenas ouvia tudo e levava sua mão até o rosto de Brittany- E se quer saber, eles me fizeram um senhor favor me expulsando desse inferno. Odeio esse lugar, assim como eles parecem me odiar.

—Eles te perseguem aqui?

—Nada que eu não dê conta.

—Brittany, por favor... Sem segredos- acariciou pelo rosto da loira, percebendo delicados riscos pelo queixo, bochecha e pescoço dela. Arranhões para ser mais precisa. O que deixou Santana cada vez mais brava.

—Já me chamaram das piores coisas que podem falar de uma mulher.. Mas eu não ligo- deu de ombros, cruzando os braços. A loira acabou vendo um pequeno curativo sobre a testa da latina- A sua cabeça...

—Não vai ficar por isso. Não tolero injustiças. Entre, por favor- a loira, interrompida, não hesitou em concordar, entrando na diretoria. Santana estava séria, parecia brava e dessa expressão Brittany não gostou nada. O que sairia dali em diante?

Na sala da diretora, Sue andava de um lado para o outro listando trocentas coisas que a diretora teria errado aceitando certos tipo de gente em uma escola de grande estirpe como a G.E.L, e de como Brittany era perigosa e deveria ser mandada para um reformatório para aprender boas maneiras, enquanto Ashley, sua filha, uma boa menina, como sua mãe enaltecia, nunca iria atormentar ninguém. Era pura calúnia. A Silvester mais nova se desmanchava em lágrimas, em um gritante teatro dramatico forçado. Brittany perdeu a conta de quantas vezes revirou os olhos por isso. Já Santana estava quieta. Pernas cruzadas, cotovelo apoiado no joelho de cima, sorriso de canto e rosto levemente curvado para o lado oposto de onde Sue “advogava" argumentações exageradas, braço recostado ao encosto da poltrona onde tinha o polegar brincando com o anel de cobra, sua herança de família, atenta a tudo que se passava a seu redor, como um predador se prepara pra atacar com cautela a presa avistada. Era a primeira vez que Brittany via a latina dessa forma tão fria e calculista.

—Então, qual medida será aplicada contra aquela delinquente selvagem?- Sue questionou como se fosse o próprio juiz da sessão- Ela vai ser acusada, não é? Minha filha está traumatizada.

—Já tomamos as medidas e a aluna não mais pertence a essa escola- firmou a diretora. Brittany cerrou o punho.

—Excelente!- Sue exibia um sorriso satisfatório, assim como sua filha.

—Ela não vai sair daqui- Santana enfim se pronunciou, sem sequer sair de sua pose reflexiva. Brittany franziu o cenho agora, entre pasma e surpresa.

—Bom, eu sou a diretora desta escola há mais anos do que você tem de vida, portanto, eu decido aqui e ela está fora.

—Você ouviu, Lopez... Ela está fora- Sue cutucou, a latina sorriu de canto.

—Se ela sair, vocês terão que lhe pagar danos morais e mais um processo por negligência e ato preconceituoso com uma aluna, sem direito a explicação, retaliação incentivada e danos materiais. E também terão que expulsar a outra aluna, Ashley Silvester e suas companheiras por agredir verbalmente uma aluna sem direito a defesa, dando início a esse conflito de insultos a minha protegida.

—O quê? Mamãe, o que ela está falando? Manda essa ceguinha aí calar a boca- Ashley expôs, como uma criança mimada. Sue estava de dentes trincados, tentando segurar o ódio.

—E mais um agora por se referir a mim pejorativamente- finalizou, sorridente.

—Você não pode me processar. A aluna agrediu a colega sem motivos aparentes, então a expulsão é justa- a diretora tentou argumentar. Se dependesse dela, Brittany não mais pisaria em “sua" escola novamente.

—Não foi o que eu soube e nem precisei perguntar tanto para me integrar. De justo isso aqui não tem nada. Espero que volte com sua decisão, senão teremos belos e delicados problemas- Santana disse em tom brincalhão, acariciando a base de sua querida bengala.

—Isso foi uma ameaça, senhorita Lopez?

—Céus, claro que não. Foi um alerta amigável de minha parte que quero resolver tudo isso o mais franco e justo possível.

—Não se preocupe, eu defendo a escola caso haja um processo- Sue se prontificou, cruzando os braços.

—Perda de tempo e esforços- dessa vez Santana de pôs ereta em sua poltrona- Eu tenho uma proposta a fazer...

***

Cerca de dez minutos depois Santana e a diretora deram as mãos, amigavelmente. Sue bufava mais atrás, pegando a filha de qualquer jeito pelo braço e saindo da sala com a ameaça de que a tiraria dali sob processo por negligência por parte da diretoria. Brittany estava todo tempo calada, espantada com a capacidade persuarsiva da latina, que escurralou a diretora até que não pudesse mais escapar de seus argumentos. Realmente ela fazia jus a fama de excelente advogada que tinha. Porém nem tudo que ali reluzia de fato, era ouro, algo desfavoreceu a loira e isso não a agradava.

—Por que eu terei de pagar detenções como auxiliar de bibliotecária sendo que foi a nojenta da Silvester que provocou toda a confusão?- Brittany questionou, revoltada. Ryder já as avistara na porta do colégio e corria para abrir passagem no veículo, onde elas foram entrando e se posicionando lado a lado no banco de trás.

—Apesar do ataque, você devolveu com violência e isso também é errado. Às vezes a pena pesa mais que a espada, minha querida Brittany. Deveria ter agido com superioridade- Santana respondeu calmamente enquanto prendia seu cinto de segurança. A loira bufou- A detenção de ambas foram justas, e encarecidamente espero que você aprenda com esse erro e isso não mais ocorra.

—Eu odeio aquele lugar- cruzou os braços como uma criança birrenta, fazendo bico- Aquelas pessoas me vêem como um saco de lixo, uma delinqüente e oportunista.

—Então mostre a eles o contrário e suba em seus conceitos.

—Não preciso provar nada a ninguém- disse com rispidez e apontou para Santana.

—Para você, então- deu de ombros- Quantas vezes eu já lhe disse que é melhor que tudo isso?

—Continua o livro de auto-ajuda ambulante- a loira revirou os olhos. Santana pode jurar ter ouvido o gesto e sorriu- Do que você está sorrindo ai?

—Você... Do quanto ainda pode ser infantil.

—O que?- saiu mais como um grito- Eu não sou infantil.

—Sempre emburrada por nada, rolando os olhos, dando de ombros, rebatendo adultos, sendo indiciplinada, fazendo gestos feios para cegos... — Santana acentuou, sabendo que Brittany levantara o dedo do meio para ela enquanto falava- Deus castiga, sabia? Que feio, Britt Britt.

—Como você soube? Minha nossa!- se abobalhou a loira, até sofrendo arrepios pelo corpo. Realmente a latina era muito sensitiva... Ou escondia uma cegueira falsa.

—Isso chama: Terceiro olho latino. E nesse eu enxergo bem.

—Macumba- Brittany caçou em uma tossida falsa.

—Nada... É um presente. E nele eu sei de tudo.

—Sabe mesmo? Eu duvido- desafiou.

—Claro que sei. Quer ver?- Brittany deu de ombros. Santana continuou- Ryder, pare na primeira sorveteria que passarmos, por favor.

—OK, Santana- ele confirmou.

—O que é isso?

—O que você está precisando? Sim.

—De sorvete?- a loira elevou os braços, com um sorriso debochado. Santana elevou uma sobrancelha- Depois eu que sou infantil.

—De uma boa companhia, na verdade- e sorriu galante para a outra, que podia jurar ter descompassado algumas batidas de seu coração, corando- Também sei de algo que precisa agora depois daquilo tudo.

—Se for mais sermão, eu... — e quando menos a loira esperou, Santana deslizou seu braço até o dela e a puxou de uma vez só para perto de si, acolhendo-a em um acalentador abraço, o melhor que a loira já recebera.

—Tudo vai melhorar, eu prometo- acariciou os fios dourados de Brittany, que sequer pensou em sair dali, se aconchegando ainda mais a Santana, abraçando sua cintura e sentindo o calor confortavel que emanava dela.

—Obrigada!- foi tudo que ela disse.

Ryder via toda cena e fez uma ligeira careta, balbucinando um: Isso vai dar merda!

Todas as cartas do destino viradas sobre a mesa do universo poderiam concordar com o jovem motorista... Mas, todos sabemos, que existem muitas cartas em um baralho. Outras mais ainda podem ser viradas. O sorriso encantador e confortável que Brittany desenhada no rosto confirmava isso.

Notas finais
Eita... Que confusão, não? BJ e obrigada a todos