Anthony tem olhos castanhos. Quando abri a porta, ele estava lá, olhando para mim e sorrindo. Anthony tem cabelos pretos, nem curtos demais, nem longos demais. Anthony está vestindo uma camiseta de malha preta, calças jeans e sapatos de couro. E isso é tudo o que eu sei sobre Anthony. E, claro, que seu nome é Anthony. A primeira coisa que ele disse quando abri a porta e me deparei com ele foi “ Oi! Meu nome é Anthony!”

Bom saber, pensei. Agora, eu estou o encarando. Reprimo o impulso de gritar perguntando o que ele está fazendo na minha casa. Nunca o vi, mas Anthony não parece um ladrão ou um psicopata. Tem, no entanto, um sorriso caloroso de um homem no auge de sua juventude.

— Quem...Hã... Quem é você? – Pergunto.

— Ótima pergunta, Laura. – Responde. — Acho que você poderia me ajudar a responder.

Continuo olhando para ele com uma expressão completamente confusa.

— A propósito, você não vai entrar? – pergunta ele.

— Claro, claro. – Digo, andando para dentro, completamente desconfiada.

Meus pais não estão em casa, o que só me dá mais medo. Normalmente, eles só chegam à noite.

— Como você sabe o meu nome? – indago.

— Ah, isso é simples. – Esclarece. – Há uma foto sua na parede, e está escrito Laura embaixo dela.

Jogo a minha mochila no sofá e me sento. Estou vestindo o vergonhoso uniforme da Escola Católica de Gramado, e acho que Anthony está segurando a vontade de rir. Tento ignorar isso.

— Certo, estou sendo grosso. – Ele fala. – Vou contar a você a minha história. A verdade é que... Hoje eu acordei e... Bem, não faço ideia de quem sou. Eu sei que parece loucura. Mas é verdade. Você precisa acreditar em mim.

Olho para ele como se fosse louco. E o pior, é que estou com vontade de acreditar nele. Seus olhos estão marejados. E não sei por que estou com vontade de acreditar nele. Se eu fosse uma pessoa normal, já o teria expulsado da minha sala de estar.

— E onde você acordou? – Eu quis saber.

— No meio da rua.

Solto uma risada nervosa, por causa da primeira ideia que me vem na cabeça.

— Olha, provavelmente você está numa ressaca ou algo do tipo...

— Não, não estou, eu juro. Disso eu tenho certeza.

— E por que você escolheu justo a mim para ajudar?

— Não sei. Disseram-me que uma garota de quinze anos chamada Laura que mora nesta rua poderia ser a solução para o meu problema.

— Quem disse isso?

— Eu...Não me lembro.

Remexo-me desconfortavelmente no sofá. Essa história está muito estranha.

— Eu sei que é difícil de acreditar. – Diz ele. – Mas será que você poderia me dar uma chance? Sei lá, nem precisamos ficar aqui, se você quiser. Podemos ir a um Café aqui perto, se você se incomodar de receber um estranho na sua casa.

Demoro um tempo para responder. Na verdade, não sei muito bem o que fazer. Até considero a possibilidade de pegar uma frigideira na cozinha e nocauteá-lo. Mas Anthony não parece ameaçador, o que só deixa tudo mais sombrio.

— Hã... Você poderia esperar um minuto lá fora? – Sugiro. – É só enquanto eu me troco. Vamos ao Café que você mencionou, que é um local público e, bem... Seguro.

Anthony dá um sorriso radiante, o que até me faz sorrir também, contra a minha vontade.

— Sim. – concorda. – Sim, eu espero.

— Ótimo.