A humanidade de Renesmee
2 o pedido
O som suave do meu despertador corta o silêncio da tarde. É o sinal de que preciso voltar para casa. Hoje é sexta-feira, o que significa mais tempo em família. Já posso imaginar o que me espera: Tia Alice empolgada com os preparativos da minha festa de aniversário, cheia de ideias extravagantes e cheias de brilho — como sempre. E, claro, mais uma discussão, longa e cansativa, sobre o meu desejo de ir à escola.
Já perdi a conta de quantas vezes esse tema gerou debates acalorados ao redor da mesa. Minha mãe, protetora. Meu pai, desconfiado. E eu, insistente.
Enquanto caminho de volta, preparo meu sorriso — aquele que uso para suavizar o clima. Repasso mentalmente o que vi hoje, os detalhes que pretendo contar para entreter e distrair. E, como de costume, organizo cuidadosamente meus pensamentos, construindo barreiras mentais para que meu pai não perceba o que realmente se passa dentro de mim. Ele não precisa saber que já planejei meu primeiro dia de aula dezenas de vezes — que já imaginei como seria sentar-se em uma sala cheia, ser chamada pelo nome na chamada, fazer trabalhos em grupo, ter amigos humanos. Não sei se algum dia terei essa chance. Mas sei que vou continuar tentando.
Chego em casa e encontro o tio Jasper no quintal. Nossas trocas são sempre recheadas de piadas internas e provocações sutis. Gosto da forma como ele aprecia o silêncio tanto quanto eu. Não exige conversa — apenas presença. E isso basta.
— E então, observadora? O que aprendeu na sua tarde humana de hoje? — pergunta ele, com aquele sorriso sarcástico que sempre carrega no rosto.
— Pensei que você fosse o especialista em emoções por aqui... Não consegue adivinhar como estou hoje? — rebato, cruzando os braços com leve provocação.
— Pelo visto, você anda escondendo bem suas descobertas. Acho que começo a entender de onde vem toda essa curiosidade — diz ele, erguendo uma sobrancelha em desafio.
— Se um dia eu descobrir, prometo compartilhar com todos — responde minha mãe, surgindo de repente, interrompendo nossa conversa. Ela me envolve em um abraço apertado.
— Mãe... só fiquei fora por três horas. Não tem necessidade de tanto afeto assim — reclamo, afastando minha cabeça do seu ombro com uma leve risada.
— Fale por você. Eu sempre sinto falta da sua presença. Hoje ouvi uma música e tenho certeza de que você vai gostar. Podemos ouvi-la depois do jantar?
— Pode ser. Ou talvez eu possa aproveitar pra mostrar ao tio Jasper que continuo invicta no jogo de damas... e humilhá-lo com minhas três vitórias consecutivas — digo com um sorriso travesso.
— Eu preferia quando você era só uma criança que me amava acima de todas as coisas — responde Jasper, teatral. — E que não se lembrava daquele dia em que me derrotou e ficou se achando.
— Eu jamais esquecerei aquele dia, tio — respondo com orgulho, exibindo meu sorriso mais vitorioso.
Nesse momento, Emmett chega pulando de árvore em árvore, como sempre fazendo uma entrada dramática.
— E ninguém mais esquecerá também... você lembra disso toda vez que respira — comenta ele, revirando os olhos. — Quero ver o dia em que me vencer numa luta. Aí sim poderá se vangloriar à vontade.
Ao fundo, ouvimos o som do carro do vovô Carlisle entrando na garagem. Esse é o nosso sinal: hora de ir pra dentro. Se demorarmos, a vovó Esme vai vir buscar um por um com aqueles longos sermões sobre a importância de “comer juntos em família”.
Entro em casa e vou direto ao banheiro lavar as mãos. Assim que abro a torneira, vejo meu pai surgir silenciosamente na porta. Como sempre, sua presença é sentida antes mesmo que ele diga qualquer coisa.
— Como foi sua tarde, pequena? — pergunta meu pai, usando aquele apelido carinhoso que insiste em manter, mesmo eu já tendo a altura — e as atitudes — de uma mulher adulta.
Respondo mentalmente, como sempre fazemos. Envio imagens nítidas: crianças correndo para pegar o ônibus no fim das aulas, um senhor comprando pão na padaria, e até a cena de um pequeno acidente de carro, com mais susto do que dano.
— Dia interessante. Obrigado pelas informações sobre como anda a vida lá fora — ele comenta com um sorriso leve. — Conversou com alguém interessante?
— Não tenho essa autorização, lembra? — respondo, com um toque de ironia.
— Não fale assim, amor… você sabe que o problema não é conversar — diz ele, me puxando para um abraço silencioso.
Seguimos até a sala de jantar. O vovô Carlisle entra logo depois, e como de costume, vai direto ao escritório guardar suas coisas antes de se juntar a nós. Cada um assume seu lugar habitual à mesa.
Tia Rose passa por mim, me dá um beijo carinhoso na cabeça e se senta ao lado do tio Emmett, que já está mexendo em alguma coisa que provavelmente acabará quebrando.
Me sento entre minha mãe e a vovó Esme, que chega da cozinha carregando seu mais novo experimento culinário. Ela traz o prato do dia com aquele entusiasmo que só ela tem — os olhos brilhando e o sorriso largo, como se cada refeição fosse uma grande celebração.
— Hoje temos uma pasta italiana caseira! Um dos pratos favoritos da Nessie! — anuncia com orgulho.
— Obrigada, vó — respondo sorrindo, encantada com o esforço dela por me incluir nesse universo tão humano.
Nesse momento, tia Alice desce correndo pelas escadas, como se estivesse fugindo de uma visão.
— Perdão, mãe, pelo atraso! Sei que estou errada, mas juro que foi por um bom motivo! — diz, ofegante.
— Eu estava contando, Alice, que o prato de hoje é um dos favoritos da Nessie — diz Esme, com um olhar maternal e compreensivo.
Alice sorri para mim e pisca, como se estivesse tramando algo. Tenho quase certeza de que o "bom motivo" do atraso tem nome e data: meu aniversário.
Todos se acomodam à mesa. A vovó Esme serve o prato com aquele carinho de quem acredita que comida é uma forma de amor. A massa está linda — com molho vermelho vibrante e folhas de manjericão decorando o topo. O cheiro é suave, mas reconfortante. Eu a agradeço com um sorriso sincero, mesmo sabendo que, como vampiros, o restante da família apenas finge participar dessa parte da rotina.
— Parece delicioso, vó. Você se superou de novo.
— Faço com alegria, querida — responde ela, tocando de leve minha mão. — Quero que conheça o mundo com todos os sentidos.
O jantar segue com conversas cruzadas, risadas do tio Emmett, provocações leves entre tia Rose e Jasper. É tudo muito… normal. Quase humano.
Até que tia Alice, com aquele brilho nos olhos que geralmente precede alguma revelação, bate levemente os dedos na borda do copo.
— Então… falando em mundo e experiências… estamos nos aproximando de uma data muito importante, não é mesmo? — Ela olha diretamente para mim, e por um segundo, posso jurar que ela sabe exatamente o que estou prestes a dizer. — O aniversário da nossa Nessie!
Alguns sorrisos se espalham pela mesa. Tia Esme se anima ainda mais, mamãe segura minha mão de forma sutil. Meu pai… meu pai apenas observa. Calado, mas atento.
— Eu estava pensando que podíamos fazer algo diferente este ano — continua Alice. — Algo mais… social. Quem sabe convidar alguns adolescentes da cidade. Uma festa temática de ensino médio, talvez?
O silêncio que se instala após essa frase poderia ser cortado com uma faca.
Minha mãe franze a testa. Meu pai endireita a postura. E eu… respiro fundo. Essa é minha deixa.
— Na verdade… já que estamos falando sobre isso, eu queria aproveitar que estamos todos aqui para dizer algo.
Todos os olhares se voltam para mim. Inclusive os de Carlisle, que acaba de voltar do escritório e se senta lentamente, como se sentisse que algo importante está prestes a ser dito.
— Eu sei que já conversamos sobre isso outras vezes, mas quero pedir mais uma vez. Com respeito. Com calma. E com esperança. Eu quero ir para a escola.
Minha mãe fecha os olhos por um segundo. Meu pai desvia o olhar. Tio Emmett faz um som baixo, quase um assobio. E Alice… bem, Alice sorri como se já tivesse visto essa cena acontecer mil vezes.
— Filha… — começa minha mãe, num tom suave, mas firme.
— Mãe, por favor. Só me escuta. Eu passo tardes observando aquele colégio, aquelas pessoas. Não é só curiosidade. É necessidade. Eu preciso entender como é. Preciso viver isso. Nem que seja por um semestre.
— Você não entende os riscos — diz meu pai, finalmente falando. — Você é… diferente. E eles… eles são imprevisíveis.
— Mas eu também sou metade humana — respondo. — Por que me negar a chance de conhecer essa parte de mim?
Silêncio.
Carlisle pigarreia, como quem pondera antes de falar.
— Talvez devêssemos discutir isso com mais profundidade, Edward. Ela está crescendo. E, mais do que isso, está buscando conhecimento. Não podemos proteger o tempo todo… só podemos preparar.
Meu pai encara o avô com um olhar indecifrável. Talvez lendo a mente que ele mais confia no mundo.
— O mundo lá fora não é como ela imagina.
— Mas talvez ela precise descobrir isso sozinha — completa Rose, em um tom surpreendentemente compreensivo.
Olho para todos à mesa. Meu coração — ou o que quer que ainda pulsa dentro de mim — se aperta.
— Não quero me afastar de vocês. Só quero saber quem eu sou. E acho que a escola é um bom lugar para começar.
O jantar termina em um silêncio pensativo. Não houve um “sim”. Nem um “não”. Mas houve escuta. E, talvez, isso seja o primeiro passo.
O jantar termina, e como sempre, a mesa permanece arrumada por mais tempo do que o necessário. Esme gosta de deixar as coisas ali, intocadas por alguns minutos, como se fosse uma pintura viva de uma família que ainda tenta seguir tradições humanas.
Carlisle, pacientemente, se levanta e recolhe os pratos. É sempre o último a sair da mesa, o mais calmo diante de conflitos. Quando passo por ele, ele toca levemente meu ombro.
— Obrigado por sua coragem hoje. Às vezes, não é fácil pedir por algo que se quer muito — diz em voz baixa.
Sorrio para ele. Ninguém consegue ser tão tranquilizador quanto Carlisle. Nem mesmo minha mãe.
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