A humanidade de Renesmee
3 a resposta
Subo para meu quarto, mas não consigo ficar lá por muito tempo. Sinto o peso da tensão ainda pairando no ar, e parte de mim precisa entender como cada um está processando minha proposta.
Desço novamente e encontro Alice na sala, deitada de cabeça para baixo no sofá, como uma adolescente imortal eternamente entediada.
— Você viu algo? — pergunto direto.
Ela sorri, virando-se agilmente para me olhar de cabeça para cima.
— Algumas possibilidades. Muitas variáveis. Depende muito de como você se comportar na primeira semana — ela ri. — Spoiler: você vai odiar educação física.
— Ótimo — reviro os olhos. — Mas e meu pai?
— Ele vai relutar… muito. Mas eventualmente, ele vai ceder. Por você.
Sento ao lado dela e repouso a cabeça em seu ombro.
— Obrigada por tentar me ajudar. Mesmo quando ninguém entende.
— Quem disse que ninguém entende? Jasper entende. Rose também. E Emmett… bom, Emmett só quer te ver “chutando traseiros humanos em competições escolares” — ela diz, imitando a voz exagerada dele.
Como num chamado silencioso, Emmett entra na sala no exato momento, segurando um videogame.
— Estão falando de mim? Aposto que estavam. Senti minha orelha queimar — diz ele, jogando o controle no ar e pegando de volta com uma só mão. — Se ela for pra escola, eu exijo que participe de esportes. Quero ver se esse gene Cullen serve pra alguma coisa além de charme e autocontrole.
— E você vai treinar comigo? — pergunto, com um olhar desafiador.
— Já tô preparando obstáculos no quintal, mini-vampira. Só não vale quebrar humanos, tá?
Rose surge logo depois, com um livro na mão, e se junta a nós com sua típica postura elegante. Ela encosta na moldura da porta, observando tudo em silêncio por um momento.
— Você tem direito de saber quem é. Eu demorei tempo demais pra descobrir o que eu queria. Não quero isso pra você. Mas esteja preparada — diz ela, sem rodeios.
— Preparada pra quê?
— Pra decepções humanas — ela responde, e some escada acima.
É sempre assim com Rose: amor duro. Mas amor.
Tio Emmett me da um sorriso, ele sabe que eu entendo o jeito de Rose amar, e iniciamos uma partida de videogame.
Mais tarde, no andar de cima, passo pelo escritório do vovô Carlisle. Ele e meu pai conversam em voz baixa e música de fundo, a única forma de talvez não ser ouvido em uma casa lotada de vampiros que tem super adição. Esme entra com uma bandeja de chá (por hábito, mesmo que ninguém beba), e me acena com um sorriso caloroso. Ela sempre encontra o equilíbrio entre diplomacia e empatia.
Minha mãe está na varanda. Me aproximo e fico ao seu lado em silêncio. Depois de um tempo, ela fala:
— Eu tinha medo do mundo. E, por muito tempo, deixei esse medo definir minhas decisões. Mas você é diferente, Nessie. Você carrega luz onde eu só via sombra.
Coloco minha cabeça em seu ombro. Ela não recua dessa vez.
— Eu quero te proteger. Mas também quero te ver voar. Se essa é sua escolha… estarei aqui.
Atrás de nós, ouço os passos do meu pai. Ele se aproxima devagar, como se pesasse cada passo. Paramos o olhar nele. Ele parece tenso, mas há algo nos olhos dele — rendição, talvez?
— Vamos conversar com a diretoria da escola. Discretamente — ele diz. — Só uma semana, de início. Com monitoramento. E se qualquer coisa parecer errada…
— Eu prometo avisar — digo, interrompendo. — Obrigada, pai.
Ele assente, e mesmo sem palavras, sei que há amor ali. Sempre houve.
Volto sorridente, talvez tenha sido fácil demais, não sei o que meu avô ofereceu, penso em ir até seu escritório, perguntar, aprender, ouvir, mas escolho ficar em meu quarto, meu pai precisava mais do meu avô do que eu nessa noite.
Já era noite quando ouvi os passos suaves do meu pai se aproximando do meu quarto. Ele não precisava bater. Sabia que eu o ouviria. Sabia que eu estava acordada.
A porta se abriu devagar, revelando Edward com sua expressão séria, porém gentil. Ele estava com as mãos nos bolsos e um olhar que misturava pesar e decisão.
— Posso entrar?
Assenti, me sentando melhor na cama.
— Você ganhou sua chance, Nessie. Mas… há algo que precisa saber antes de qualquer comemoração.
Fiquei em silêncio. Quando meu pai começava assim, algo importante estava por vir.
— Nós vamos nos mudar no próximo mês — ele disse.
Senti um peso se instalar no peito.
— Mudar? Mas… por quê? Agora que eu finalmente consegui… — minha voz falhou.
— Estamos há três anos nesta cidade — continuou ele. — É o nosso limite. A essa altura, os vizinhos começam a notar. Comentários surgem. Ninguém começa o ensino médio. Todos vivem na mesma casa. É questão de tempo até que as perguntas virem problemas.
Desviei o olhar para a janela. O céu estava limpo, e a lua brilhava com intensidade. Eu deveria saber que isso aconteceria. Sempre acontece. Eles são os Cullen. E os Cullen nunca ficam muito tempo.
— Então… eu não vou para a escola?
Ele se aproximou, sentando ao meu lado na cama.
— Vai sim. Mas de uma forma diferente. Temos um mês aqui. Um mês até a mudança. Carlisle, Esme, sua mãe e eu concordamos que, durante esse tempo, você passará por uma preparação. Um tipo de treino. Para que, na próxima cidade, você possa entrar para o ensino médio desde o primeiro dia. Como qualquer humana normal.
Meu coração — ou o mais próximo disso — disparou.
— Um mês? De verdade?
— Um mês — ele confirmou. — Serão dias intensos. Precisamos que você aprenda a controlar seus instintos, suas reações. Vai precisar entender como ocultar certas habilidades e parecer… comum.
— Como se fosse fácil — murmurei.
Ele sorriu.
— Ninguém disse que seria. Mas você não está sozinha. Alice vai te ajudar com aparência e estilo. Jasper com o controle emocional. Rose e Emmett com adaptação social. E eu e sua mãe… bom, nós dois estaremos atentos a tudo.
— E Carlisle?
— Ele vai supervisionar. É o único que ainda acha que vamos sair dessa sem ao menos uma briga de família.
Soltei uma risada baixa.
— Parece impossível.
— É. Mas somos Cullen. E impossíveis são nossa especialidade.
Ficamos em silêncio por um instante.
— Sabe, pequena… eu nunca quis que você fosse igual a nós. Sempre quis que tivesse escolha. E, mesmo que isso me assuste… estou orgulhoso por você querer viver. Por buscar mais.
Me aproximei e encostei a cabeça em seu ombro.
— Obrigada por me dar essa chance, pai.
— Não desperdice. Um mês passa rápido.
E com isso, ele saiu, me deixando sozinha com um turbilhão de pensamentos e o frio da noite entrando pela janela aberta.
Um mês.
Era tudo o que eu precisava…
Ou tudo o que eu tinha.
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