A história de nós dois
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Eu estava dormindo na minha cama quando ouvi um barulho chato.
Achei que poderia ser um mosquito e tentei mexer o meu pé, mas doeu. Por um instante tinha esquecido de que eu o tinha quebrado no dia anterior.
Eu gemi.
— Deixa o pé quieto — uma voz familiar falou e o barulho continuou mais uma vez.
Eu conhecia aquela voz.
Era o Daisuke.
Eu abri os olhos e o encarei.
Ele me cumprimentou e continuou o que estava fazendo como se eu fosse um mero detalhe ali.
Fechei os olhos quando ele começou a cantarolar uma música em japonês e quase peguei no sono de novo.
Parecia um sonho. Ter ele ali comigo, perto de mim, cuidando de mim, e cantando para eu dormir. Era uma sensação boa. Sentia um calor se espalhando pelo meu peito.
Até que me toquei no absurdo da situação.
Aquilo não era um sonho. Ele não estava comigo. Era compromissado. Com uma garota.
— Que diabos você está fazendo aqui, Matsumoto? — eu falei quando abri os olhos e o vi levantar a cabeça surpreso. Acho que era a primeira vez que eu o chamava assim.
— Alguém não acorda de bom humor — ele comentou, fechando a caneta permanente que segurava e cruzando os braços.
— O que estava fazendo com essa caneta? — eu perguntei, tentando me sentar.
Fiquei preocupado quando ele não respondeu e fez uma cara de paisagem.
Eu me sentei com certa dificuldade e olhei horrorizado o que ele tinha feito no meu gesso.
Em letras garrafais estava escrito “Matsumoto passou por aqui” e um bonequinho em SD com olhos rasgados fazendo um V com os dedos do lado.
— Qual é o seu problema?! Você gosta de me atormentar? — eu ralhei com ele, que arregalou os olhos, ou o mais próximo que conseguia disso.
— É só uma assinatura. — Ele se defendeu — Você leva tudo muito a sério. Relaxa. Vai acabar ficando velho antes do tempo — ele comentou, me fazendo rosnar.
Era tão despreocupado com tudo. Nem percebia o que fazia com os outros. Não percebia o que fazia comigo.
— E você não leva nada a sério — eu ralhei com ele, ao sentar no canto da cama tentando alcançar as muletas que estavam perto da cabeceira. Ele as alcançou pra mim, e eu bufei.
— Por que está bravo? Eu só queria ver como você estava. Fiquei preocupado quando não te vi na escola — ele falou e eu me acalmei.
Ele estava preocupado comigo.
Isso me fez sorrir.
— Você se importa — eu pensei.
— Lógico que me importo — ele comentou resoluto e senti que poderia voar.
Eu tinha falado em voz alta?
— Somos amigos. Amigos se importam — ele explicou e eu abaixei meu rosto.
Ele era um idiota cego. E eu era mais idiota ainda por me deixar levar.
Levantei de supetão. Queria sair dali.
Mas nada acontece como a gente quer, não é?
Eu perdi o equilíbrio quando uma das muletas escorregou e teria caído de cara no chão se ele não tivesse me segurado.
Quando dei por mim, ele me segurava como numa daquelas cenas de cinema com um braço pela minha cintura e outro atrás do meu pescoço .
Ele me olhava intensamente e parecia ponderar algo.
Minha respiração era curta e senti meu rosto corando quando o vi fitando meus lábios.
Ele se inclinava sobre mim e eu tinha certeza que ele ia me beijar. Podia sentir sua respiração perto do meu rosto.
Tudo parecia em câmera lenta.
Até que o meu pai chegou.
— Estou atrapalhando? — ele falou com sua voz grave.
E Daisuke praticamente pulou para longe de mim, com suas habilidades ninjas. Sem o suporte dele, eu obviamente caí sentado no chão.
Olhei feio para o meu pai, e vi que tinha um brilho estranho nos olhos. Ele tinha feito de propósito!
— Molestando meu filho bem debaixo das minhas fuças. Não tem vergonha na cara, não? — ele ralhou com o Daisuke, que ficou vermelho como um tomate e parecia nervoso. Muito nervoso. Ele parecia estar suando frio.
— N-não, senhor. Não estávamos fazendo nada demais — ele respondeu não encarando o meu pai nos olhos.
— Como não? Você estava agarrando meu filho no chão! — meu pai praticamente gritou ao me tirar do chão e me colocar na cama de novo. Quando ele me olhou, deu uma piscadinha rápida. Ele só estava brincando. Tive que me segurar para não rir.
— Eu não agarraria seu filho no chão! — Daisuke retrucou — Ele caiu da cama — ele explicou.
— Ah, então estavam na cama! — ele virou para o Daisuke com fogo nos olhos. — Não me lembro de você pedir para namorar o meu filho — ele falou, empurrando o Dai com um dedo.
O japonês parecia sem saber o que falar.
Meu pai foi empurrando-o até que o prensou contra a parede.
Era uma cena bem hilária, porque o Daisuke realmente parecia assustado e ele era uns dez centímetros maior que o meu pai.
— Quais suas intenções com o meu filho querido, garoto? — meu pai perguntou chamando minha atenção.
Eu queria ouvir suas intenções.
Mas como eu disse antes, nem tudo acontece como queremos.
— Deixa o garoto em paz, Murilo. Ele vai acabar tendo um treco — minha mãe comentou quando entrou no quarto para checar como eu estava.
— Eu só estava brincando. — Meu pai falou com um sorriso no rosto, o que aparentemente assustou Daisuke mais do que tudo que ele tenha disto antes — Mas se magoar meu menino, eu acabo com você — ele falou sorrindo ao sair do quarto.
— Eu acho melhor eu ir — Daisuke falou com uma voz baixa. Ele olhava vez ou outra para a porta. Parecia apreensivo.
Ele foi embora prometendo a minha mãe que cuidaria de mim na escola.
Ele passou meses sem ir lá na minha casa depois disso.
E eu não ganhei o beijo que, ao que tudo indicava, ele me daria.
Mas só de ver o Daisuke caindo na do meu pai valeu a pena.
É até bobo, mas naquela hora eu me senti vingado por todos os trotes que ele tinha me passado desde o começo do ano.
Quando chegou a segunda-feira, eu não tive opção a não ser ir para a escola.
Tinha perdido as provas de sábado, já que passei a tarde depois do campeonato na ortopedia do hospital.
Mas foi tudo tranquilo.
A maior parte dos alunos parou de colocar obstáculos no meu caminho quando viram as muletas que eu precisava agora e que usaria por um bom tempo já que, de acordo com o médico, levariam quase seis meses para os meus ossos colarem corretamente.
E os poucos que não paravam eram arduamente rechaçados pelo Daisuke e pelo Fernando, que rosnavam para os que ousavam me perturbar.
Mas não se engane se acha que eles passaram a se dar bem por minha causa. Longe disso. Eles pareciam se odiar e viviam discutindo.
E nessas horas eu procurava me afastar e passava a maior parte do tempo com o Marcelo. Depois da confusão da pelada na praia, nós nos aproximamos novamente, e ele me fazia companhia constantemente.
Éramos da mesma sala, tínhamos a mesma idade e gostávamos das mesmas coisas. Então, ele passou a frequentar minha casa e me ajudar com os trabalhos, ou só para passar o tempo vendo algum anime ou filme.
Era divertido. Nunca tinha tido um amigo assim. Eu finalmente tinha alguém para conversar sobre tudo que passava pela minha cabeça. Eu não precisava medir minhas palavras ou ficar no armário porque ele entendia. Estava no mesmo barco.
Então eu contei sobre o que sentia pelo Daisuke. Contei tudo. Desde o primeiro dia. Todas as impressões que ele tinha me passado, assim como os sinais duvidosos que sempre me deixavam na dúvida.
— Não o leve tão a sério. — O Marcelo me disse — Ele não tem uma fama muito boa, se é que me entende — ele completou, parecendo não querer se explicar.
— Como assim? — eu perguntei, não dando chance para ele se esquivar.
Estava curioso. E se ele sabia algo que eu não sabia, tinha que me contar.
— Ele é meio — ele parecia procurar a palavra correta — vadio — ele completou em voz baixa.
Vadio? Eu realmente tinha ouvido isso mesmo?
— Hã? — perguntei eloquentemente.
Ele parecia meio sem graça em ter que falar isso. Talvez porque soubesse dos meus sentimentos.
— É. Ele costuma dar bolo quando o pessoal marca alguma coisa se encontra alguém para... — ele falou gesticulando. — Entendeu? — ele perguntou, fazendo uma careta.
— Ele é vadio porque sai com a namorada? — eu não estava entendendo.
— Ele tem namorada? — ele estranhou. — Eu me referia a ficar saindo com qualquer estranha que encontra pela rua! — ele falou surpreso. — Mas isso agora parece bem pior do que há um minuto.
Eu olhei chocado para ele.
— Ele sai se atracando com qualquer coisa que se mova?! — eu perguntei horrorizado. — Que nojo! Como pode sair beijando qualquer uma por aí?
Eu falei e vi que o Marcelo pareceu meio sem graça e incomodado.
— Você não se referia a beijos, não é? Não só a isso, pelo menos — eu finalmente entendi.
Era como se um enorme balde d’água fria tivesse caído na minha cabeça quando ele concordou. Eu abracei seu braço e encostei minha cabeça em seu ombro.
Eu estava apaixonado por um vadio promíscuo e isso era uma bosta.
Nos dias que se seguiram, eu reparei nas atitudes do Daisuke pela escola.
Muitas pessoas o abraçavam. Abraços longos e apertados. E ele não parecia nem um pouco incomodado. Pelo contrário, parecia feliz pela atenção.
E eu me perguntava quais alunos dali ele já tinha levado para cama.
Não dava para saber. Ninguém sabia ao certo, na verdade. Ele nunca sequer mencionou algum nome, nem mesmo o da tal namorada.
A única coisa que alguns sabiam era que ele tinha uma namorada, que ninguém nunca vira, e que ficavam mais tempo brigados do que outra coisa. E eram bem poucos que tinham essa informação. Eu mesmo só fiquei sabendo por que comentei que ele devia se preocupar com a namorada e não comigo, e o amigo dele riu e comentou que seria difícil porque eles viviam brigados.
— Eu estou com fome — eu reclamei para o Marcelo como se ele pudesse resolver o problema para mim.
— Não acho que ela vá trabalhar hoje — ele comentou, olhando para a tia da cantina, uma senhora muito idosa que estava cochilando numa cadeira.
Ela parecia no nono sono.
— Mas eu estou com fome — eu falei manhoso.
— Não jantou antes de vir? — ele perguntou balançando a cabeça.
— Eu comi fandangos — respondi petulante.
— Fandangos não alimenta — ele revirou os olhos.
— Mas era fandangos com requeijão cremoso. Não dava para deixar passar — eu expliquei e ele riu.
— A gente pode tentar ver se tem algo no bar — ele sugeriu meio receoso.
— Aquele boteco que pintaram “Lanchonete da Federal” na parede só para passar pela fiscalização?
— Esse mesmo. Deve ter algo lá já que todo mundo vai.
— Então estamos esperando o quê? — eu falei, levantando uma muleta dramaticamente.
Ele segurou meu braço e me olhou solene.
— O “todo mundo” inclui o Matsumoto — ele explicou.
— Oh.
Depois de constatar a terrível verdade sobre ele, eu procurei me afastar.
Não tínhamos nada, e provavelmente todos os sinais que percebi eram coisas só da minha cabeça. Mas doía pensar que mais alguém podia tocá-lo e eu não. E pensar que muitas pessoas o tocaram, me deixava vendo vermelho.
Eu não tinha direito de sentir ciúmes, mas eu sentia.
Então, para evitar sequer pensar essas coisas eu procurei me afastar. Afinal, o que os olhos não veem o coração não sente.
O Marcelo entendia e não tocávamos mais no assunto.
— Eu estou com fome. Não vou deixar de comer só porque ele está lá — falei e sai em direção ao tal bar.
Mas confesso que pensei em ir embora quando vi o tal boteco.
Era horrível.
Era encardido, e tinha um povo estranho sentado nas poucas mesinhas da parte de fora. Pareciam alunos, mas eu nunca os tinha visto.
— Quem são eles? — eu perguntei para o Marcelo em voz baixa.
— É o povo do lado negro da força — ele respondeu e olhei para ele. Aquilo soava muito idiota.
— Tá me tirando? — eu perguntei para ele, irritado pela explicação.
— Não! — ele negou veemente. — Todo mundo os chama assim. Eles eram alunos exemplares no primeiro ano que foram seduzidos pelo lado negro da força e agora ficam bolando aula aqui no bar.
— Isso não faz sentido. Como passam de ano, então?
— Eu falei que eram vagabundos, e não burros. Aparentemente, eles têm um QI bem alto — ele disse apontando para um que tinha um crachá da IBM amarrado na mochila.
— Opa — eu cumprimentei quando eu e o Marcelo entramos.
— Carne nova! — um cara gigante comentou ao olhar para nós e rir. Acho que era o cara que tinha me batido na praia.
— Deixe os dois em paz — eu ouvi uma voz conhecida.
Parecia mais arrastada do que de costume. Mas eu reconheceria em qualquer lugar. Era Daisuke.
Olhei para ele e vi que ele vinha equilibrando três copos gigantes e os colocou na mesa.
— Achei que hoje era Tequila — o cara grande reclamou.
— Hoje é quinta, mané! Dia de Cuba Libre — outro garoto respondeu pelo japonês e pegou um dos copos.
— Ah, é. Tequila é na sexta — ele concordou ao verificar um cardápio escrito à mão e preso do lado da mesa onde estavam.
Eles tinham um cardápio para encher a cara?
Era sério aquilo?
Pelo menos eram organizados.
— Jogam truco? — o cara grande perguntou ao indicar o baralho que segurava.
— Eu jogo. — O Marcelo respondeu e puxou uma cadeira — Não se importa de voltar sozinho, não é?
E foi assim que vi meu amigo se perder. Ele tinha sido seduzido pelo lado negro da força e a culpa era minha. Se não tivesse com fome, nada disso teria acontecido.
Eu sorri para ele e fui para o balcão, que não tinha ninguém.
— O que vai querer? — Daisuke perguntou já do outro lado do balcão.
Eu olhei para a mesa e depois de volta para ele. Ele era rápido.
— Você trabalha aqui? — eu estranhei.
— Claro que não! — ele respondeu e bebeu metade do copo que tinha preparado antes em um gole. — Eu sou de casa — ele falou e riu.
Será que ele percebia que aquilo não era muito saudável e quão horrível soava?
Ele deu outro gole e acabou com o que tinha no copo. E começou a preparar outro em seguida.
É. Talvez ele não percebesse.
— Aqui não é um lugar legal para alguém como você, Gabi — ele comentou com a voz arrastada, me olhando.
— Alguém como eu?
— É. Você grita vulnerabilidade. — Ele explicou — Não se engane com as letras na parede. Isso não é uma lanchonete. É um bar. Não é lugar para crianças — ele falou e eu vi vermelho.
— Eu não sou uma criança — eu respondi entredentes e saí de lá o mais rápido que pude.
Mas sair rapidamente com muletas é meio difícil. E quando eu estava na esquina ele me alcançou.
Ele me puxou pelo braço e eu perdi o equilíbrio.
Ele me segurou contra o seu peito antes que eu caísse.
Nós nos olhamos por um instante e eu senti seus braços segurando fortemente meu corpo contra o dele. Ele parecia não querer me deixar escapar.
Ele me olhava atentamente. E senti sua mão subindo até o meu rosto e acariciando minha pele.
— Eu sei que não é — ele falou numa voz baixa.
Parecia indeciso.
Senti seus dedos pelos meus lábios.
— Eu quero você para mim — ele sussurrou antes colar seus lábios nos meus.
Era o meu primeiro beijo.
Eu não sabia o que fazer e por isso só segui o que ele fazia.
O beijo foi esquentando e senti sua mão passando pelo meu cabelo enquanto a outra brincava com a bainha da minha camiseta.
Ele aproveitou minha surpresa e senti sua língua invadindo a minha boca.
Era uma sensação tão boa.
Quando dei por mim, estava encostado na parede.
Suas mãos passeavam pelo meu tronco.
Eu virei o rosto quando senti e necessidade de respirar e foi quando eu vi o povo do bar olhando fixamente para onde estávamos.
Lembrei-me do comentário do cara grande e de repente aquilo pareceu horrível.
“Carne nova”.
Eu era a carne nova.
Senti sua boca beijando meu pescoço, mordiscando.
Só mais uma conquista na sua longa lista. E perceber isso doía muito.
Eu abaixei minhas mãos que seguravam tão fortemente sua camiseta, sem nem ao menos me dar conta, e o afastei.
— Não posso fazer isso — eu falei encarando-o.
Ele me olhava sem entender.
— Só fique longe — eu pedi enquanto tentava pegar minha muleta do chão, e saí sem olhar para trás.
O que foi uma pena. Pois se tivesse olhado para trás, eu veria o quão arrasado ele ficou com o fora que eu lhe dei.
E isso teria poupado muitos problemas mais tarde.
Fim do capítulo 4
Fale com o autor