Notas iniciais
ATENÇÃO: As histórias do universo de A história de nós dois, como a própria, Eu te odeio, Invisível e todos os extras não são sequências. Elas só dividem o mesmo universo, assim como Harry Potter e Animais Fantásticos. Alguns detalhes podem ser vistos em outras histórias, porém com outro foco. Para mais detalhes, acesse www.facebook.com/apaginadenosdois ou mande seu número por MP e participe do grupo A Página de nós dois no whatsapp.

Nos dias seguintes, eu quase não vi o Daisuke pela escola. Ele parecia me evitar.

O que era bom porque não estava preparado para encontrá-lo.

Quando o encontrava, ele estava sempre com o pessoal do lado negro da força, que fazia questão de me fuzilar com o olhar cada vez que passavam por mim.

Aparentemente eu fui o primeiro a dizer “não” para o japonês do Paraguai. E isso não era aceitável.

O único deles que não me olhava torto era o mais novo membro dos rebeldes sem causa: o meu amigo Marcelo.

Ele era o único que entendia o quanto aquele beijo me abalou e o que significou para mim.

Mas isso não quer dizer que tudo continuava normal entre a gente.

Fora da escola ele ainda era o meu melhor amigo e vivíamos grudados, mas na escola a história era outra. Ele sempre ficava perto do Daisuke e da turma dele.

Parecia simpatizar com o japonês. E por isso não tomava partido.

Mas não posso dizer que fiquei jogado às traças.

Eu passava boa parte do meu tempo livre entre as aulas com o Fernando.

Ele me fazia companhia e me fazia rir. Mas não era o Daisuke.

Eu sentia falta do sorriso debochado e das provocações do outro.

Estava andando pelo pátio e acabei tropeçando. Só não caí de cara no chão, porque uma mão me segurou. Quando eu olhei, vi que era o Daisuke. E naquele momento eu tive a impressão de que tinha feito uma grande besteira ficando afastado dele.

— Tudo bem aí? — o Fernando perguntou sorrindo e colocando a mão no meu ombro, acariciando-o com o polegar.

Daisuke olhou para o outro garoto e depois pra mim. Tinha uma expressão estranha antes de virar e ir embora.

Eu me senti mal. E isso era ridículo. Não era eu que traía a namorada sempre que podia, e com qualquer coisa que se movia.

Mas por que eu me sentia culpado, então?

Isso ficou martelando na minha cabeça por horas.

Não conseguia tirá-lo da cabeça e por isso não prestei atenção nenhuma nas três primeiras aulas até o intervalo.

Estava decidido. Iria resolver aquela situação chata e conversar.

Peguei minhas muletas e sai à caça dele pela escola. Mas parei quando vi um pequeno alvoroço perto da cantina.

Não tive que me aproximar muito para conseguir ouvir a voz estridente que praticamente gritava.

— Olhe pra mim quando falar comigo, Dai-chan! — a garota japonesa gritava ao lado do Daisuke, que parecia bem sem graça.

Bufei de raiva ao perceber que ela deveria ser a namorada.

— Pare de gritar na minha orelha — ele reclamou, dando as costas para ela numa atitude extremamente infantil, que arrancou gargalhadas dos amigos dele.

Quando ela era ainda pouco mais que um boato doía, mas eu poderia fingir que ela não existia. Agora ter a comprovação de sua existência tornava tudo mais difícil.

— Isso não é jeito de tratar a sua noiva, Dai-chan! — ela ralhou com ele, que se encolheu visivelmente.

O pátio ficou em silêncio. Acho que ninguém esperava por algo assim.

Eu sei que eu não esperava. Fiquei chocado e senti as minhas pernas falharem.

Ela não era a namorada. Era noiva! E isso era tão mais sério.

Um ódio absurdo me subiu e vi vermelho. E antes que pudesse sequer pensar eu fui até ele e bati com a minha muleta em sua canela.

— Cretino! — xinguei antes de me afastar.

Ridículo, não?

Também acho. Mas na hora eu não estava raciocinando direito.

Enquanto eu me afastava, ainda conseguia ouvir parte da discussão que se seguiu.

— Você tem uma noiva?! — um dos amigos dele perguntou admirado.

— Claro que não! Ela é maluca — ele negou veemente.

— Não fale assim, Dai-chan. Você me deu até uma aliança! — e mais uma vez aquela voz irritante falou.

— Como se eu fosse querer casar com uma gorda feia que nem você — ele disse, e eu riria se não estivesse segurando o choro.

— Não seja malvado! — ela disse choramingando.

Eu queria poder dizer que segurei a onda e fiquei longe, mas seria mentira. Eu bolei a aula seguinte e fiquei junto com os outros alunos assistindo o espetáculo que os dois davam em pleno pátio.

Todos os outros estavam lá servindo de plateia porque estavam curiosos. Ninguém nunca tinha visto a tal namorada do Daisuke, e ela do nada apareceu. E eles não conseguiam entender porque ele a tratava tão mal. E pra ser sincero, nem eu.

Não me entenda mal. Tudo o que eu mais queria era que um buraco se abrisse, dragando-a para dentro. Mas eu estava ficando com um pouco de pena das coisas terríveis que ele falava para ela.

Ele parecia falar com um amigo qualquer e não parava de chamá-la de gorda e feia, e ela era, infelizmente, o oposto disso.

Ela era baixinha e magra. Estava com um vestido florido muito bonito que destacava seu colo. Tinha os cabelos pintados de um castanho claro e usava uma franja que emoldurava seu rosto com perfeição.

Ela era linda.

Meus sentimentos estavam confusos.

Estava com pena da garota, mas ao mesmo tempo queria que ela sumisse. E o fato dele tratá-la tão mal me trazia um estranho contentamento. E isso era horrível. E eu me sentia mais horrível ainda por isso.

Horrível, mas esperançoso. Talvez ele gostasse realmente de mim.

Mas isso só durou até ela começar a chorar.

Sabe o que é ver literalmente toda hostilidade sumir como num passe de mágica de uma pessoa? É o milagre da bipolaridade.

Em segundos, ele a abraçou de um jeito tão carinhoso, que várias pessoas assoviaram e bateram palmas.

E eu fiquei grudado lá, sem conseguir tirar os olhos da cena linda e fofa que os dois protagonizavam.

Talvez eu fosse masoquista.

— Você tá bem? — uma voz perguntou ao se sentar ao meu lado.

Eu olhei e vi o Fernando.

Eu queria responder que sim, que estava ótimo. Mas não consegui. Era um péssimo mentiroso. Ele pareceu entender e ficou ali do meu lado me fazendo companhia.

O sinal tocou e ele me levou até a minha sala. Eu ainda conseguia ver o Daisuke no pátio com a garota, conversando calmamente.

Talvez fosse hora de partir para outra.

— As aulas terminam semana que vem já — o Fernando comentou como quem não quer nada.

— É — eu respondi. Estava triste, não queria esticar assunto.

— Já sabe o que vai fazer nas férias? — ele perguntou, me olhando.

— Não pensei nisso ainda.

— A gente podia sair. — Ele falou sem jeito, e eu olhei para ele surpreso — Como amigos — ele se explicou rápido, ficando vermelho.

Eu olhei para o pátio e vi o Daisuke sentado no chão, com os braços no ombro da menina que ainda chorava apoiada em peito.

Eles pareciam tão íntimos. E eu me sentia tão sozinho.

— A gente podia sair — eu finalmente respondi, olhando-o —, mas seria legal se não fosse como amigos — completei, e depois abaixei o rosto envergonhado. Como tive coragem de dizer aquilo? E se ele não fosse gay e só quisesse ser meu amigo.

— Isso seria ótimo — ele respondeu com um sorriso enorme, ao levantar o meu rosto com uma das mãos. Eu sorri de volta.

Ele olhou para os lados, e me deu um beijo no canto da boca antes de ir para a sala dele.

E eu o vi pulando e comemorando até entrar na sala do outro lado do pátio.

Era bom saber que, pelo menos, deixei alguém feliz. Talvez ele também pudesse fazer o mesmo por mim.

As aulas passaram e o povo acabou se esquecendo da confusão do Daisuke e sua noiva.

Isso pelo menos até eles começarem a brigar de novo em frente à escola.

Dessa vez, não dava para ouvir porque eles falavam baixo.

Mas devia ser algo sério porque do nada ela virou um tapa no rosto do Daisuke que quase o jogou no chão e tacou um anel, que presumo que fosse a aliança, na cara dele e saiu aos prantos. Entrou no carro que estava estacionado do outro lado da rua e foi embora.

Todos ficaram em choque e esperavam a reação do japonês que só olhava na direção que o carro tinha ido.

E ele ficou parado lá uns dois minutos, até que os amigos dele acharam melhor verificar se estava tudo bem.

Até eu estava um pouco preocupado. Ele parecia não acreditar no que acontecera.

O Pedrinho, o melhor amigo do Daisuke, foi até ele. Mas ao contrário dos outros, ele estava segurando um sorriso.

E todos, com exceção do Pedrinho, tomaram um susto quando o japonês virou e começou a comemorar.

Quem termina um relacionamento e fica feliz?

A resposta é: Daisuke Matsumoto.

Ele estava tão emocionado que parecia ter ganhado a Mega-Sena acumulada sozinho.

— Eu me livrei! Finalmente eu me livrei! — ele disse rindo para o Pedrinho.

Ele tinha terminado com ela. Estava livre. E isso me fez sorrir. Ele parecia realmente feliz em se ver livre dela.

— E você só precisou de quinze anos para conseguir esse feito. — O amigo respondeu sarcástico e os dois riram ainda mais — Acha que vai levar quanto tempo para o seu pai descobrir? — ele perguntou. E todos puderam ver a cor sumir do rosto do Daisuke.

— Meu pai?! — O Daisuke falou parecendo horrorizado — Eu tô ferrado — ele falou puxando os cabelos.

E do nada, ele simplesmente saiu correndo na direção que o carro tinha ido.

— Eu mudei de ideia, Keiko-chan! — ele gritava. — Eu caso com você! Volta aqui, Keiko-chan!

Daisuke, “bipolaridade” devia ser o seu nome do meio.

Os dias passaram e logo vieram as férias.

E logo no primeiro dia o Fernando me ligou e marcamos de sair.

Não foi nada fora do comum. Foi só um passeio pela quermesse de Santos, no Emissário Submarino, chamada “Inverno Quente”, e que carinhosamente chamávamos de “Inferno Quente”.

Por que chamávamos assim? Simples. Sempre dava confusão por lá. Não tinha policiamento suficiente, e por isso sempre havia assaltos e arrastões durante os shows. Era o Inferno na terra.

Mas eu não tinha emprego, e nem dinheiro. E lá era de graça.

Foi lá que finalmente ele me beijou pela primeira vez. Perto das pedras, com o som do mar ao fundo.

Ele beijava muito bem. Muitíssimo bem.

E dali em diante, nós passamos os dias seguintes fazendo a mesma coisa.

Às vezes nós íamos ao cinema, ou simplesmente ficávamos em casa abraçados e curtindo a companhia um do outro.

E meus pais adoravam o Fernando.

Meu pai principalmente, já que ele tinha feito questão de perguntar se podia me namorar.

Ele era fofo demais. E por isso, mesmo não querendo me jogar de cabeça, eu acabei me encantando.

Meu coração parecia bater novamente.

Nada melhor que um amor para curar outro, não é?

Foi o que eu achei na época, mas estava completamente enganado.

As duas primeiras semanas que passamos juntos foram excelentes e perfeitas.

Na terceira, ele parecia um pouco preocupado e arrumava desculpas para não ir lá em casa ou para sairmos.

E na quarta foi quando a coisa desandou de vez. Acho que o vi duas vezes somente e ele parecia estar com a cabeça em outro lugar.

Tentei ligar, mas ele não me atendia.

Era como se as últimas quatro semanas não tivessem existido. E eu me senti péssimo e sozinho.

Não sabia o que tinha feito para merecer aquilo.

Eu só o vi novamente quando as aulas voltaram.

Fiquei tão feliz quando o vi no pátio principal. Um alívio tão grande, como se um peso enorme tivesse sido tirado das minhas costas.

Meu coração batia rápido e eu devia ter um sorriso idiota na cara. Mas o sorriso sumiu do meu rosto na mesma velocidade que surgiu quando ele passou direto por mim fingindo que não tinha me visto, como se eu não valesse nada.

Acho que qualquer um ali conseguiu ouvir o barulho do meu coração quebrando.

E me perguntei quantas vezes um coração poderia ser quebrado até não conseguir mais funcionar direito.

Desilusão, desilusão

Danço eu, dança você

Na dança da solidão

Fim do capítulo 5

Notas finais
Gostaram da degustação? Infelizmente essa história não ficará mais disponível para leitura no Nyah, pois a versão completa dela como e-book já está à venda na Amazon.com.br, e a versão física com capa comum à venda na Amazon.com. Agradeço a todos que prestigiaram.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!