Capitulo II

Hoje é o segundo dia que irei sair para visitar a torre, como estava chovendo achei inconveniente de minha parte levar Pipoca comigo. A chuva me atrasou fazendo que dessa vez eu sai-se bem mais tarde que o previsto, ocasionando em uma falha em meus planos... Minha mãe percebeu cedo demais que eu estava saindo à noite, mas nada que me impedisse de ir.
Comecei a subir o monte, dessa vez trouxe comigo penas, tinta, esse objeto estranho para se proteger da chuva que minha família conseguiu de uma embarcação de mercadorias oriental chamado sãn e claro um caderno para fazer anotações. Mesmo tarde da noite em baixo a uma chuva, em um céu sem estrelas e sem nenhum sinal da lua, me senti vivo por estar fazendo algo da vida, mesmo que esse “algo” seja tão inútil e completamente idiota.
Durante o caminho vi que me proteger da chuva e tomar notas seria realmente complicado, além de ter que parar o tempo inteiro para escrever, equilibrar o sãn, minha pena, a tinta e meu caderno de anotações provavelmente me concederiam uma vaga como bobo da corte no maior reino da região, mesmo assim, segui equilibrando e parando o tempo inteiro para tomar notas do que eu via ou sentia durante a caminhada.
Um fato interessante durante essa caminhada foi um cheiro que pairou sobe meu nariz, um cheiro que me dava uma sensação esquisita: fazia-me sentir nostálgico, sentir-me bem, um cheiro que eu sabia que não provia de nada doce, mas aos meus sentidos chegava como algo dócil, me deixava mole e me dava uma estranha sensação de segurança. Obviamente procurei de onde esse cheiro vinha e quando achei o local de tamanha fragrância percebi que estava ficando louco, era cheiro de cabelo chamuscado por uma chapa de ferro, fiquei sabendo que algumas mulheres faziam isso para alisar os cabelos, nunca entendi o porquê do ato, afinal se for para conquistar homens seria muito mais eficaz simplesmente aparecer nua em sua frente. O porquê de esse cheiro me atrair assim? Após pensar durante alguns minutos a resposta em que cheguei foi: nunca saberei! Mas por motivos de completa loucura tanto física quanto mental após me deparar com esse cheiro todo o frio que essa noite chuvosa estava me provocando simplesmente desapareceu, como se uma chama tivesse acendido em meu corpo.
Após perceber que meu interesse por essa torre estava me fazendo delirar comecei a andar mais rápido. Passei novamente aonde tinha visto aquele boi, olhei para mim e comecei a rir, afinal, minha cor preferida é vermelho então a maioria das minhas roupas possuem essa cor, mas dessa vez vim com um casaco branco e dourado, acho que realmente fiquei com medo do tamanho do chifre daquele boi.
Sinceramente, tomar notas a cada dez passos estava me fazendo perder muito tempo, além de minha letra ficar pior (já começo a sentir a preguiça chegando quando eu for ler as minhas anotações e ter que gastar horas tentando decifrar esses garranchos ) percebo que até agora a nota mais importante que tomei foi que diferente do primeiro dia de observação, que durante todo o caminho caminhei intrigado e pensativo sobre o que eu encontraria ou que eu ganharia observando essa torre, hoje vejo que subo com um sentimento que beira a empolgação e sentir isso apenas me faz pensar que não tenho nenhum motivo plausível para isso. Será que saber que mora gente lá ao invés de me assustar me fez criar mais interesse? Ou eu realmente estou ficando louco? A resposta mais coerente é que estou ficando louco mesmo, mas como eu sempre fui tachado de estranho e louco antes de começar a fazer coisas assim, saber que eu estava enlouquecendo mais me divertiu do que me assustou, na verdade apenas me fez pensar na pergunta: até quando isso irá me entreter?
Como a chuva estiou comecei a andar mais rápido ainda e menos focado em minhas anotações isso me fez perceber mais as coisas em minha volta como o fato de que dessa vez a maioria das tabernas estavam fechadas, era engraçado ver como uma pequena chuva era capaz de espantar o constante barulho dos homens e dar a chance da natureza apresentar seus músicos e sua bela música.
Finalmente avistei a torre, dessa vez não havia bardos depressivos acampando em sua frente, então procurei um lugar mais próximo ao portão e mais confortável de ficar, já que da ultima vez me sentei ao chão, agora me despojei de uma pedra em baixo de uma árvore que poderia me proteger da chuva.
Eu vim achando que não teria companhia, mas do nada surgi um gato que parece me observar tão intrigado com minha presença ali quanto eu com a torre, por tamanha audácia resolvi dar um nome ao bichano:
— Dê agora em diante você se chamará: Tony!
Como um bom gato ele chamou minha atenção e na hora que resolvo conceder essa atenção, ele ignora, como se eu tivesse a obrigação de prestar atenção nele e ele só tivesse aparecido para me dar uma bronca por não o faze-lo.
Posicionado de uma maneira confortável finalmente dou atenção à torre, na intenção de sentir novamente o que ela simbolizava para mim... Os resultados foram os piores possíveis. Se ontem achei que encontraria a minha paz, hoje ela simbolização a minha perdição, olho para ela e não me sinto bem, na verdade sinto vontade de chorar, que afirmação logica eu poderia dar para explicar essa situação? Após pensar alguns minutos, me deparei a uma verdade sobre os sentidos humanos: nem sempre haverá uma razão.
Continue olhando fixamente a torre tentando descobrir o porquê ela me fazia sentir-se assim, foi então que uma impressão me ocorreu: Ela me dizia que quem for que mora-se lá se soubesse que eu estou aqui, ficaria incomodado e triste. Porque estou com olhos marejados pela tristeza de algo que nem mesmo sei o que é? Eu não sei.
Pessoas da minha idade provavelmente me caçoariam agora dizendo que finalmente desceu a prova que eles esperavam para saberem que eu sou mulher, eu até os ofenderia agora, mas percebo que o idiota aqui sou eu, é realmente estupido de minha parte achar que aqueles brucutus de gaveta são capazes de me compreender, eu não choro por causa dessa torre velha, mas sim pelo que tem lá dentro e meus instintos de macho alfa dizem que é uma mulher.
Após esse episódio deprimente que se passou em minha cabeça, outro começou, dessa vez a imagem surreal da ruiva de meus sonhos preencheu minha mente, mas dessa vez tinha um toque moreno em sua aparência e novamente por motivos inexplicáveis o fato dela parecer tão bem me chateia e mentalmente começo a reclamar disso ‘’como você pode estar tão bem sem mim?”, “Você só existe por minha causa sua raposa velha e ridícula”, mas ao olha-la novamente caio em minha razão e percebo que se ela existisse de verdade ela não seria minha e que justamente por esse motivo gostaria de vê-la feliz.
Depois dessa puta viagem nada a ver com a história, percebo que ando lendo muitos romances e que devo variar mais na escolha do gênero quando estiver lendo livros, vejo também que esta ficando tarde e que devo voltar para casa, mas antes tive a ideia de contar às vezes que estive ali marcando a árvore em que estava. Por motivos de frescura e estética não quis marca-la de uma forma que a machucasse muito menos com apenas riscos, decidir marcar de uma forma louca e estranha que fizesse jus a tudo isso, por isso sem pé e nem cabeça resolvi desenhar conchas na árvore com a tinta que sobrou depois de tantas anotações, com isso criei a minha segunda regra de observação: Desenhar uma concha nessa árvore todos os dias que vier observar.