A história do príncipe medroso
3 Terceiro Dia
Hoje mais uma vez me dirijo à torre, percebo que isso está se tornando mais um diário do que uma história... Mas fazer o que neh...
Desta vez saio sem deixa vestígios para onde vou, quanto menos minha família souber dessas minhas escapulidas noturnas melhor. Não chamei Pipoca por medo que voltasse a chover, mas levei comigo outra fiel companheira: a Bolsa! Pois é amigos resolvi o problema de equilíbrio. Agora vamos aos fatos dessa noite de observação: outra vez o céu se encontra sem brilho, a floresta estava bem úmida pelas constantes chuvas que andam caindo pela região, à subida desse monte nunca foi tão pavorosamente silenciosa até mesmo os grilos silenciaram-se, não havia nenhum sinal de outras pessoas pelo caminho, as tabernas pareciam nem ter sido abertas desde ontem.O terror que essa noite transmitia me fez lembrar uma lenda dessa região, de um comerciante ambulante que viaja por ai vendendo seus cacarecos e sempre se mostrava aberto a contratar qualquer jovem rapaz para ajuda-lo, sem preconceito ou frescuras, conseguir isso sempre será algo fácil, afinal, os pais sempre apoiam seus filhos quando se trata de trabalho, é uma pena que não contavam que esse simpático comerciante possuía uma segunda face que escravizava seus empregados até eles suplicarem pela morte assim que chegavam ao ponto ele os matava e deixava os corpos pelas florestas por ai. Muitas pessoas acreditam que a lenda não passa de uma invenção de um filho bastardo e preguiçoso que não queria trabalhar, meu irmão Johnny mesmo se aproveitava da história para conseguir garotas, afinal, dizer que saiu vivo das garras de um assassino já é um ato e tanto, imagine então quando se diz que o enfrentou e o matou, ai vocês se perguntam o que eu acho disso? Acho que meu irmão é esperto por somente ir atrás de garotas com defeitos no cérebro.Continuei por esse caminho silencioso até a torre, quando de repente ouvi uma voz rouca aos berros, automaticamente, não querendo nem saber, dei um pulo para dentro de um arbusto que nem um gato, o coração acelerado e o medo estava claro em minha face, fiquei escondido ali até me acalmar e conseguir finalmente entender o que voz dizia:— Roger? Roger? Roger?Depois do susto percebo que trata-se de uma voz feminina, olho pelo arbusto e vejo uma mulher que aparentava ter por volta de uns 30 anos, estava rouca de tanto gritar esse nome, suspeito que seja o nome do filho, ela dirigia um vagão com um único cavalo pela mistura de cores em seu pelo dava para ver que não era um cavalo de raça, era triste ver aquilo mas continuei a observar sua procura por esse tal de Roger até o vagão sumir na escuridão. Continuei andando noite acima, dessa vez bem mais cauteloso e com mais pressa que o comum, ainda faltava muito até a torre e algo me dizia que eu iria voltar bem mais cedo essa noite. Estava cada vez mais perto da torre e nada acontecia, não havia o que relatar, até que de novo um som surgiu do nada, mas dessa vez não me assustei, procurei saber o que era antes de fazer alarde. O som eram batidas ritmadas como se fossem passos e vinham de um local logo a frente. Diminui o passo e sai da trilha a qual seguia, indo por trás das árvores para poder olhar o que produzia esse som, sem ser visto por tal. Quando finalmente pude ver de onde vinha o som, vi mais uma cena perturbadora: era uma criança chorando batendo uma panela ao chão e sua mãe que a abraçava e chorava junto. Pelas vestes, o corpo sujo e a aparência magra, pude deduzir o motivo pelo qual as duas choravam era: fome. Olhar essa cena me fez pensar o quão ingrato eu sou com minha família, que nunca me deixou faltar nada, mesmo quando vivíamos em dificuldade sempre tive o que comer. Lamentei-me por não ter nada a oferecer a elas, afinal, eu sempre jantava antes de vim então não havia necessidade de trazer comida. Olhar aquilo me fez sentir um mal estar, resolvi seguir em frente, tentando convencer a mim mesmo que era por pressa, mas na verdade era porque eu não tinha estomago para aquela cena. Virei-me para seguir em frente ao meu objetivo e instantaneamente o som da panela parou de soar, voltei a minha atenção as duas e senti todos os músculos do meu rosto passando da face de tristeza para a face de terror. A mãe tinha acabado de matar a filha e começava a comer o corpo.O terror dessa cena me fez entrar em estado de choque, não conseguia produzir nenhum som, nem mesmo correr dali, o mundo parecia que não tinha mais chão e eu começava a pensar: o que estou fazendo aqui?Quando o atordoamento passou dei-me a correr o mais rápido que pude dali, pensei em correr para casa, mas estava muito longe de lá, então corri para a torre, corri como se aquela torre fosse o paraíso, mas quando consegui avistar a árvore e a pedra onde eu havia ficado ontem, avistei uma silhueta vermelha parada nesse mesmo local, na mesma hora a imagem da ruiva de meus sonhos começou a pairar em minha mente e quanto mais eu me aproximava mais àquela silhueta parecia com o cabelo dela, como se ela estivesse me esperando lá, isso me fez parar de correr, agora caminhava até aquela direção piscando para ver se o que eu via era real e conforme fui me aproximando e a visão do que havia ali melhorando, percebi que havia me enganado na verdade se tratava de dois homens um com um chapéu vermelho e o outro com um brinco estranho na orelha, os dois fumavam e conversavam ali, não podia ir para lá, para onde eu irei? A resposta era obvia: Para a torre.
Comecei a ir em direção aos portões, eles pareciam me atrair, me davam a indicação de que eu devia abrir e entrar, mas antes que esse desejo me tomasse conta lembrei da minha primeira regra de observação: “Nunca passe em frente aos portões” então me restringi a sentar-me perto dos muros da torre e lá fiquei, anotava o que eu havia visto e vivido hoje como se fosse meu testamento, concentrado só fui voltar ao mundo real quando ao meu lado ouvi barulho de correntes sendo destrancadas: Alguém estava saindo da torre.E mais uma vez essa noite senti como se minhas pernas não estivessem ali, fixei meu olhar aqueles portões de uma forma tão intensa que sentia vontade de por minhas mãos em frente aos meus olhos, pois eles ameaçavam cair. Passaram-se minutos de tensão e nada, então comecei a achar que foi somente minha impressão, o que seria bem plausível para uma pessoa que tem sido assustada desde que saiu de casa.Os primeiros pingos de chuva começaram a cair, olhei para minha pedra e minha árvore e vi que os indivíduos já haviam saído dê-la, levantei e segui em direção aquele local como se fosse a minha casa própria. Após me acomodar comecei realmente a observar a torre, mas dessa vez com um olhar diferente, o pressentimento de que algo sairia dê-la hoje ainda estavam à flor da pele, mas nada saiu, o desanimo foi tanto que me fez realmente desejar que algo saísse daquela torre, foi quando ouvi novamente o barulho de cavalgadas e de um vagão olhei pensando que fosse novamente aquela mãe que procurava seu filho foi quando me assustei, na verdade era um vizinho meu que passava ali perto, um que era bem próximo ao meu Pai, ao me ver a expressão que ele fez me dizia claramente o que estava pensando: O que diabos ele está fazendo aqui uma hora dessas? Mesmo assim ele não parou para falar comigo simplesmente seguiu o seu caminho, admito que isso me intrigou, realmente nunc a pensei que alguém além de mim conhece-se esse local foi ai que um pensamento realmente intrigante me ocorreu: Por que todas as pessoas que eu já vi por aqui parecem não notar essa torre? Será que eu era o único que não a conhecia? E por que eles parecem ignorar a sua existência? A resposta que eu cheguei foi a coisa que mais me assustou durante toda essa noite: Só eu consigo vê-la.Algo tão absurdo assim não poderia ser verdade, mas não era a hora certa de comprovar se é ou não, já estava muito tarde eu tinha que voltar para casa, levantei fui até a árvore desenhei a concha e comecei a voltar, mas descer pelo local onde a mãe canibal poderia estar me procurando estava fora de questão, procurei um caminho alternativo para descer o monte matutando como eu poderia comprovar se minhas suspeitas eram reais, cheguei a conclusão de que não tinha outro jeito: terei que trazer alguém comigo, mas quem? Tinha tempo para pensar nisso, e já havia definido que faria isso pela manhã e não a noite afinal seria bem mais fácil de convencer alguém a vir comigo pela manhã, tantos pensamentos quase me fizeram esquecer que precisava criar uma regra de observação então fiz da terceira regra algo bem tosco, anotei assim: terceira regra de observação: Sempre crie regras de observação.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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