Notas iniciais
ATENÇÃO: As histórias do universo de A história de nós dois, como a própria, Eu te odeio, Invisível e todos os extras não são sequências. Elas só dividem o mesmo universo, assim como Harry Potter e Animais Fantásticos. Alguns detalhes podem ser vistos em outras histórias, porém com outro foco. Para mais detalhes, acesse www.facebook.com/apaginadenosdois ou mande seu número por MP e participe do grupo A Página de nós dois no whatsapp.

Os dias seguintes passaram rapidamente e finalmente o dia do meu Campeonato estava chegando.

Apesar do esforço do Daisuke em poupar o meu pé machucado, me carregando até a minha casa na semana anterior, eu ainda sentia muita dor. Eu tinha tido torcido o pé e teria que ficar com o pé imobilizado por uma semana.

“Teria” era a palavra chave.

Foi a semana de provas na escola, e tive que ir todos os dias para a Federal. E me locomover pela escola pulando de um pé só, sem poder colocar o outro no chão era difícil.

Vez ou outra aparecia alguma alma santa que oferecia ajuda, como o Daisuke, o Marcelo e o Fernando, mas era raro. Todos os outros achavam hilário e ainda faziam questão de colocar obstáculos no trajeto só para ver como eu me sairia.

Tudo foi para o saco, numa sexta-feira, véspera do meu campeonato, quando caiu o maior toró da história, que causou um apagão em vários estados por várias horas. Ficamos ilhados, no escuro, e no meio da chuvarada numa escola que estava alagando.

Obviamente, minha tala não sobreviveu àquela situação.

No meio do empurra-empurra, eu fui jogado no chão do pátio. No chão do pátio mais baixo, que tinha quase vinte centímetros de água do chão. Era como nadar no esgoto.

— Foi mal aí, Ponto e Vírgula — Orelha, o carinha que conheci no jogo da semana passada falou rindo.

— Não ligue para ele. Ele é um babaca de vez em quando — uma voz conhecida falou, ao me ajudar a levantar daquela água nojenta.

Era o Fernando. E ele sorria. Senti o meu rosto corando.

— Você está fedendo. — Ele comentou ao colocar o meu braço em seu ombro e me ajudar a andar — Devia tomar um banho e pelo menos tirar essa água suja de você. Vai acabar pegando uma leptospirose.

— Eu não tenho roupa para trocar. — Eu falei sem graça — Primeiro ano ainda, lembra? — eu ri sem graça, já que os alunos dos outros anos costumavam usar os chuveiros, já que muitas vezes vinham direto dos estágios para as aulas.

— Não por isso. Eu tenho e posso te emprestar — ele falou me levando para um dos banheiros masculinos que tinham chuveiro.

Quando vi já estávamos lá dentro.

O que ele estava pensando? Alguém poderia ver e ter uma ideia errada. Além do que, eu estava interessado em outra pessoa.

Eu nunca tinha usado aquele banheiro porque era longe da minha sala. E ao contrário do que eu normalmente ia, esse claramente não foi idealizado com o conceito de privacidade.

Os reservados não tinham portas, e a área com o chuveiro não tinha cortinas ou divisórias. Era tudo extremamente exposto.

Ele me apoiou numa carteira que estava dentro do banheiro. Pegou algo na mochila e se abaixou na minha frente.

Eu estava imundo, molhado e com frio. Mas ver aquele loiro na minha frente quase de joelhos estava mexendo comigo, mesmo que a situação me deixasse desconfortável. Por mais que nunca tivesse feito algo com alguém, eu tinha imaginação. Uma imaginação fértil demais.

Foi quando alguém entrou no banheiro. Era o Daisuke. E pela cara que ele fez, imagino o que passou pela sua cabeça.

Eu gelei.

— Interrompi algo? — Daisuke perguntou com uma expressão séria e se apoiou na parede, cruzando os braços.

— Claro que não — eu respondi totalmente vermelho.

Senti algo gelado passando pela minha perna e um alívio indescritível. Fernando tinha cortado a minha tala com um canivete que tirou da bolsa.

— Só estava ajudando-o a se livrar disso — ele respondeu, pegando a tala e jogando-a no lixo.

Depois ele foi até a mochila e tirou um sabonete, uma muda de roupa e me jogou uma toalha.

Mas nenhum dos dois se movia.

— Vocês não vão sair? — eu perguntei, estranhando.

— Boa pergunta — o Fernando falou, olhando para o japonês.

— A diretora pediu para eu ficar de olho nos alunos. De jeito nenhum eu saio daqui — ele respondeu, olhando para o loiro.

Eu me ofendi, é claro.

— Eu não preciso que fiquem de olho em mim. Eu só vou tomar uma ducha e colocar uma roupa limpa.

— Não é em você que estou de olho — ele resmungou, olhando para o Fernando —, além do quê, você pode cair. E não quero ter que explicar para sua mãe, de novo, o que aconteceu com você. — Ele explicou — Ela é assustadora — o ouvi resmungando.

— Você conhece a mãe dele? — o Fernando perguntou, encarando o Daisuke.

— Claro que conheço. Somos amigos — Daisuke respondeu, apontando para mim e para ele diversas vezes.

Éramos? É. Eu acho que sim.

Eu abri o chuveiro e tirei minha camiseta. A água estava extremamente fria e eu, que já estava tremendo, não tinha a mínima vontade de entrar lá dentro. Quando virei e ia tirar minha bermuda, vi que os dois acompanhavam os meus movimentos.

Eu tentei me cobrir com os meus braços, o que deve ter sido ridículo, pois eles riram.

— Você é tímido — Daisuke riu, e Fernando logo se juntou a ele.

— Será que dá pra vocês saírem? — eu falei todo vermelho, e Daisuke negou com a cabeça. Eu suspirei, tentando me acalmar. — Será que dá, pelo menos, para ficar de costas e me dar um pouco de privacidade?

— Isso dá — ele concedeu, se virando e virando o Fernando sem muita gentileza, quando ele ficou parado no mesmo lugar.

Suspirei desanimado e tirei a bermuda ensopada e a minha roupa de baixo. Tudo cheirava a esgoto. Era nojento.

Eu tremia de frio antes mesmo de entrar debaixo daquela água congelante. Eu me ensaboei o máximo que deu, tentando fazer uma camada protetora contra aquela água fria. E acho que nunca tinha tomado um banho tão rápido antes.

Quando fechei o registro do chuveiro, meus dentes estavam batendo e estava difícil de respirar. Nunca tinha sentido tanto frio daquele jeito.

Senti alguém me enrolando numa toalha grossa e gigante.

Eu me senti uma criança pequena enquanto várias mãos me secavam e vestiam.

— Como se sente? — uma voz me perguntou, mas eu não conseguia dizer quem era. Mas tinha uma voz tão bonita.

Senti um tapa no rosto e abri os olhos. Não tinha reparado que os tinha fechado.

— Como se sente? — ele perguntou novamente.

— Com sono — eu respondi, fechando os olhos novamente e me aconchegando na parede quente atrás de mim.

— Acho melhor o levarmos para a perua dele — a parede falou e se moveu.

Daí em diante tudo ficou meio turvo e confuso.

Eu ainda ouvia a chuva, mas ela não me deixava mais com frio. Eu queria abrir os olhos, mas estava tão confortável e seguro que era impossível. Eu só queria dormir.

Acordei no dia seguinte no susto. Achei que tinha perdido o horário para o campeonato.

Sentei na cama, e tirei a montanha de edredons de cima de mim.

A gola da camiseta era grande demais e caía pelo meu ombro. Eu não estava usando as minhas roupas. E aquele não era o meu quarto.

De quem diabos era aquele quarto e como eu fui parar ali?

Tinha sido sequestrado?

Eu levantei da cama e só então me dei conta que usava uma blusa gigante, que batia quase nos meus joelhos e mais parecia um vestido. Senti meu rosto corando quando notei que só usava essa blusa e mais nada.

Olhei pelo quarto e achei a minha mochila. Procurei, e nem sinal da minha roupa.

— Bom dia — ouvi uma voz fina atrás de mim e dei um pulo.

Ridículo, eu sei. Mas não consegui evitar.

— Eu sou a Hikaru. Prazer em conhecê-lo, Gabi-chan — ela falou e se curvou.

Eu fiquei sem graça quando vi que estava praticamente nu na frente dela. Eu provavelmente estava com o rosto corado de novo e ela deve ter notado.

— Você é fofo — ela disse sorrindo.

— Para de assustar o moleque, bakemono — Daisuke entrou no quarto com um prato com sanduíches e olhou feio para a menina que se irritou.

— Eu vou contar para a mamãe, irmão — ela ameaçou ao passar por ele para sair do quarto.

— Chispa! — ele falou dando um tapa na nuca dela. — Café da manhã — ele disse, colocando o prato na mesinha do computador perto de mim.

Eu tirei a minha mochila que estava na cadeira do micro, me sentei e peguei um sanduíche. Ele riu quando minha barriga roncou, mas eu estava com muita fome para ligar.

— Que horas são? — eu perguntei quando me lembrei do campeonato.

— Nossa! E eu achando que você ia querer saber como veio parar aqui e o que rolou entre a gente — ele comentou abaixando a cabeça.

Eu fiquei tão chocado que até deixei o sanduíche cair.

— Entre a gente? — eu repeti.

— É. Entre a gente, Gabi-chan. — Ele falou, imitando a voz da irmã — Vou te dar algumas dicas. Você está na minha casa, usando uma roupa minha e dormiu na minha cama.

Ele estava falando o que eu achava que estava falando?

— É claro que houve um apagão de nível nacional, nossa escola alagou, você tomou um banho super gelado, passou mal, perdeu a perua, desmaiou e eu tive que te carregar até aqui em casa, onde você me expulsou da minha cama, e eu tive que dormir no futon. — Ele explicou com a cara mais lavada do mundo — O que você tinha pensado, seu mente poluída? — ele perguntou e riu.

O ruim não era que eu realmente tivesse pensado algo assim, mas o fato de que tal possibilidade trazia borboletas ao meu estômago.

Eu abaixei a cabeça e evitei olhá-lo nos olhos.

Desde o dia que ele me levara nas costas até em casa, não podia evitar pensar sobre ele. Ele era bonito, engraçado e tinha um quê de bad boy que eu achava encantador. Ele sempre me procurava para conversar sobre as coisas mais idiotas. Quando ele ficava perto de mim, meu coração disparava. E eu não conseguia pensar direito. Ele tinha ficado com ciúmes do Fernando, não tinha? Acho que isso era um bom sinal. E ele me trouxe para casa dele depois.

Eu acho que estava gostando dele. E ele gostava de mim também?

— Você tinha que ter visto sua cara — ele falou ainda rindo e me dando outro sanduíche.

Eu aceitei e comecei a comer. Ainda estava sem graça por estar com aquela camiseta na frente dele.

— Mas não se preocupe. Você está perfeitamente seguro comigo. — Ele falou, chamando minha atenção — Prometi que cuidaria direitinho de você para sua mãe no outro dia. E promessa é dívida.

Ele se importava. E a constatação desse fato me fez sorrir. As borboletas voltaram com força total.

— Além do quê, minha namorada não iria gostar nem um pouco se eu tivesse me aproveitado de você — ele falou, rindo.

Naquele instante, todas as borboletas do meu estômago morreram. Daisuke as tinha chacinado com suas palavras. E tudo o que eu sentia era o peso de seus pequenos corpos gelados.

— Tem certeza de que está bem? Você parece meio pálido ainda.

— Tenho que ir. — Respondi rapidamente ao me levantar — Tenho um torneio hoje.

— Não seja bobo. Você não está em condições de participar de um torneio.

Nós ficamos nos encarando alguns segundos, até que ele suspirou e disse que ia ligar para minha mãe e combinar tudo.

Eu acabei de comer e tomei uma ducha. Escovei meus dentes com o dedo, porque não tinha escova na minha mochila. Quando saí do banheiro, minhas roupas estavam dobradas em cima da cama dele.

Eu tinha acabado de vestir minha bermuda quando ele entrou, dizendo que me esperaria no carro. Vesti-me o mais rápido que pude e saí do quarto.

Só tinha um problema. Eu não tinha ideia para qual lado ficava a garagem.

— É só virar a esquerda ao cruzar a sala. Eles estão te esperando já — uma senhora que parecia ser um pouco mais velha que a minha mãe, e que certamente não tinha nenhuma ascendência nipônica me falou. Ela era alta, esguia, tinha a pele alva e os olhos escuros. Era bonita.

— Obrigado e desculpe pelo trabalho — eu falei e fui cruzar a sala. Estava com pressa.

— Pelo quê? Eu não fiz nada. — Ela disse e sorriu — Agradeça ao seu amigo.

— Boa sorte no torneio, Gabi-chan — a irmãzinha dele falou antes de eu sair.

Andei o mais rápido que pude até o carro, mas mancando era meio difícil.

Entrei no carro e fiquei surpreso de ver que quem dirigia não era o Daisuke.

— Eu não queria incomodar. Vocês não precisam me levar de carro. Eu posso pegar um ônibus — eu falei sem graça.

— Nem esquenta. Não custa nada te dar uma carona — Daisuke respondeu e nós saímos com o carro.

— Carona a gente dá quando não saímos do nosso trajeto. O carro estava na garagem — o garoto resmungou e ganhou um tapa na nuca. Ele fechou o rosto e continuou dirigindo.

— Peça desculpas! — Daisuke falou para o garoto, que bufou e ignorou. — Peça desculpas! — ele mandou novamente e deu outro tapa em sua nuca. Dessa vez o tapa tinha sido mais forte, e o garoto quase beijou o volante.

Quando nós paramos no semáforo, ele se soltou do cinto, virou para mim no banco traseiro, e disse com um sorriso claramente forçado.

— Sumimasen, Gabi-san. É um prazer levá-lo ao torneio. — Ele disse, fazendo uma pequena reverência — Eu me chamo Keisuke, sou o filho do meio. Prazer em conhecê-lo. — Ele disse e virou de volta para o volante, colocando o cinto de volta — Feliz agora? — o garoto perguntou para Daisuke, com fogo nos olhos.

— Dá para o gasto — ele respondeu despreocupado.

Eu suspirei. Aquela seria uma viagem bem desagradável.

— Eu sinto muito pelo incômodo, Keisuke. E agradeço o favor — eu agradeci, e ele pareceu relaxar um pouco.

Em pouco tempo, eles me deixaram em frente ao ginásio da universidade onde seria o torneio. Minha mãe estava na frente, com o meu uniforme e equipamento.

Era hora de eu me focar no torneio.

— Boa sorte — Daisuke disse enquanto eu saía do carro.

Estava tão nervoso com o torneio, que quando virei para responder, eles já estavam saindo com o carro. Eu levantei a mão acenando. Sorri quando ele colocou a dele para fora da janela e retribuiu. Ele tinha visto.

Dizer que o torneio foi fácil seria mentira. Por ser um torneio interno da academia era muito mais difícil, já que treinávamos juntos todos os dias.

Todos sabiam quais eram os pontos fracos uns dos outros, o que deixava a disputa mais acirrada.

Eu sofri para conseguir fazer todos os tuls. Era difícil conseguir dar os chutes, e não perder o equilíbrio com o pé machucado.

Mas eu era teimoso, e fui continuando. A dor era psicológica. Não queria parar. Tinha concentrado todos os meus esforços treinando os tuls nos últimos meses.

Eu amava o Tae-kwon-do ITF (Federação Internacional de Tae-kwon-do), mas eram os tuls que faziam meus olhos brilharem.

Tuls são sequências de movimentos e posições de ataque e defesa com os pés e com as mãos que simulam uma luta imaginária com mais de um oponente ao mesmo tempo.

Era lindo de ver.

Era a essência de tudo e eu certamente daria o melhor de mim.

E assim eu fui eliminando todos os meus colegas de treino, um por um, até chegar à final.

Agora era eu e o Rafael, meu irmão mais velho. Ele era mais graduado que eu. Era um faixa vermelha ponta preta, a última graduação antes da preta. Ele sabia muito mais tuls que eu, e a técnica também era melhor que a minha.

Mas eu treinei muito e não ia desistir.

A mesa nos chamou, e o juiz indicou nossos lugares. Cumprimentamos a mesa com o nosso instrutor, e depois nos cumprimentamos.

Quando o juiz deu o sinal, nós começamos e trinta e dois movimentos depois, eu gritei:

— Joong-gun! — e voltei para minha posição inicial.

Assim que parei, os jurados levantaram suas bandeiras. Ganhei por unanimidade.

O juiz levantou o meu braço, indicando minha vitória, e o ginásio foi ao delírio.

Eu tinha desclassificado mais de vinte colegas da academia, e ainda ganhei do meu irmão, que sempre ganhava todos os torneios. Ele parecia puto.

Aos poucos a ficha foi caindo. As pessoas vibravam, meu instrutor sorria orgulhoso.

Eu ganhei. Pela primeira vez na vida, eu consegui ganhar do meu irmão. Eu sorri de uma orelha à outra.

O juiz pediu que eu fosse até o pódio para receber a medalha. Mas quando eu dei um passo, senti toda a dor que não tinha sentido durante a competição.

Eu gritei.

Fim do capítulo 3

Notas finais
O último tul que o Gabi fez no torneio foi esse aqui. http://youtu.be/xPgEorDwC5Y O nome do Tul, o número de movimentos e o diagrama simbolizam figuras heróicas da história coreana ou momentos relativos a eventos históricos. Os vinte e quatro Tuls simbolizam as vinte e quatro horas de um dia, ou uma vida. O tul que ele fez se chama Joong-Gun e o nome foi dado em homenagem ao patriota Ahn Joong-Gun que assassinou Hiro-Bumi-Ito o primeiro japonês governador geral da Coréia, conhecido como o homem que exerceu papel fundamental na fusão Japão-Coréia. Os 32 movimentos deste Tul representam a idade do Sr. Ahn quando foi executado na prisão de Lui-Shung em 1910. Entendendo os Matsumoto: Hikaru chama o Gabi de Gabi-chan. É uma forma carinhosa e normalmente é usada com crianças. Ele usou porque o achou fofo. Já Keisuke o chama de Gabi-san. É formal e polido. Daisuke chama a irmã de Bakemono, que é um tipo de assombração. Nesse caso, é usado como insulto. Basicamente, ele a está chamando de Monstro.