A garota do quarto 8
5 Capítulo 4
Segui Srta. Monique enquanto conversava com Abby e Hanna. O menino dos olhos azuis continuava a me observar insistentemente, mas eu não ligava mais. Ele já não tinha mais graça, o mistério já havia acabado, agora, só parecia mais um stalker delinquente que precisava se tratar, urgentemente, em um terapeuta.
—Já vi como esse ano vai ser... – Comentou Hanna e eu perguntei o que ela queria dizer com aquilo. – Vamos dizer que Monique gosta de uma aula bastante... Interativa.
Abby socou o braço da amiga e não respondeu à minha cara de medo e confusão. Aquela professora realmente não devia ter todos os neurônios na cabeça.
—Bom dia alunos! Esse ano estudaremos alguns sistemas do corpo humano... Cardiovascular, respiratório, gastrointestinal e reprodutor. – Falou Srta. Monique com um sorriso nos lábios cobertos de batom rosa e ajeitou os cabelos em um coque, na falha tentativa de ser sensual. Algumas barbies deram risadinhas e eu bufei. Maturidade? – Quero duplas mistas e eu quero que sejam formadas nesse segundo.
A maioria das barbies escolheram os mais gostosos ou bonitos, Luka sentou com a Hanna e eu olhei para Abby esperando que ela me ajudasse. Abby deu de ombros e sentou com um menino ruivo cheio de tatuagens e eu olhei para o único lugar vago. Ah, claro. Jace Porter. E o universo parecia continuar a brincar com a minha cara.
Revirei os olhos antes de me jogar na cadeira do seu lado. Ele se encolheu levemente e eu me afastei. Srta. Monique começou a falar para abrirmos os cadernos que ela começaria a matéria.
— Eu sou Jace. – Falou o menino, que agora parecia mais confortável e tinha se encostado na parede ao seu lado e me observava de cima a baixo.
—Eu sei. – Disse duramente e abri o caderno sacando um lápis e comecei a desenhar alguma coisa, que nem eu tinha entendido.
—Não é muito de falar, Charlie? – Perguntou ele e eu virei abruptamente arregalando os olhos. Além de maníaco que encara, o menino ainda era stalker?
—Eu te perguntaria como sabe o meu nome, mas eu não quero saber. – Falei, afastando-me ainda mais dele, que, para minha surpresa riu abertamente parecendo achar a situação muito divertida.
—Todo mundo sabe o seu nome Charlie. É a nova garota do quarto oito. – Disse entortando a cabeça para conseguir me encarar, já que eu claramente procurava algo muito interessante na página em branco do meu caderno e olhava para baixo.
—Parece que isso vai ficar me perseguindo por muito tempo... – Sussurrei com raiva e senti que ele segurava o meu braço. Instantaneamente me afastei e ele voltou a rir. Honestamente, qual era o problema daquele menino?!
—O que é tão engraçado? – Perguntei um pouco mais alto do que devia e Srta. Monique olhou para nós e eu fingi anotar algo no meu caderno, por mais que não fizesse ideia do que ela estaria falando.
—Você. Fica reclamando dos boatos, mas acredita que todos nós somos delinquentes, não acredita? – Respondeu e eu olhei para ele com interesse e interroguei se ele era apenas um menino normal no meio dos outros para que eu estivesse errada em acreditar nos boatos.
—Eu nunca disse isso... Se algum dia você quiser saber mais é só me procurar. – Disse ele e pisou um olho com um sorriso torto levantando e saindo da sala. Foi aí que eu percebi que a aula tinha acabado e que Abby me encarava parada perto da porta da sala. Mas eu mal conseguia me mover, o toque de Jace havia deixado o meu braço em chamas e, o que eu mais queria, era que aquela sensação parasse.
Levantei e segui Abby pelos corredores enquanto a menina me observava, mas nada comentava e apenas voltava a olhar para frente. Senti que ela havia parado e me segurado, perguntou o que tinha acontecido para eu estar com aquela cara e eu respondi, monossilábica, que nada tinha acontecido. Ela não pareceu acreditar na minha resposta, principalmente pela falta de convicção que eu havia proferido as palavras.
A manhã passou incrivelmente rápido e eu procurei evitar o menino dos olhos azuis o máximo que pude e ele parecia se divertir imensamente com a minha vontade de ficar longe dele.
Uma vez ou outra conseguia sentir seu olhar em minhas costas e tudo que eu conseguia fazer era prender a respiração, esperando que Jace desistisse de me incomodar. O problema era que eu realmente estava imensamente curiosa com o que ele tinha dito na aula.
Durante o almoço Abby não pareceu se importar de manter a conversa rolando e contou alguma história que eu não entendi direito. Meus pensamentos voltaram-se para quando eu conseguiria conversar com Jace de novo, por mais que cada célula do meu corpo implorasse para eu continuar a ignorá-lo.
Fui a primeira a acabar de me trocar para a aula de montaria e, assim que cheguei ao local indicado, consegui ver o par de olhos azuis me encarando intensamente. Consegui ver um sorriso torto se abrir no rosto de Jace quando ele percebeu que eu caminhava em sua direção.
—Desistiu de me evitar docinho? – Ele perguntou com um sorriso torto e eu me segurei para não socar aquele rosto lindo e quebrar aquela fileira de dentes muito brancos.
—Me chama de docinho de novo para ver o que acontece. – Falei cerrando o punho e o sorriso dele aumentou. Quase dei meia volta, mas ele voltou a ficar sério e perguntou o que eu queria com ele.
—Eu quero que você me conte o que prometeu caso eu te procurasse. – Pedi e ele levantou uma sobrancelha, rindo um pouco. – Vamos, eu estou esperando.
—Ninguém nunca te disse que os apressados comem cru? – Debochou trocando o peso de uma perna para a outra, logo depois, mordendo o lábio e fazendo uma cara séria. – Não posso falar aqui e agora. Se ainda quiser me encontra na sala mais alta do castelo essa noite.
Ia começar a reclamar naquele momento se não fosse a voz da professora pedindo ordem e silêncio. Dei um último olhar fulminante para ele antes de voltar para o outro lado e encontrar Abby.
Não consegui me concentrar no que a professora dizia, nem mesmo se tentasse, pois sabia que os olhos de Jace me encaravam. Olhei para ele e ergui uma sobrancelha, em uma interrogação muda e ele apenas riu e balançou a cabeça.
Por mais que tudo me dissesse que era uma ideia estúpida, eu já sabia o que faria naquela noite.
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