A garota da casa ao lado
2 Capítulo 1- Conhecendo o Território
Notas iniciais
Como eu costumava fazer, pretendia passear com Lorenzo de bicicleta assim que chegássemos. Fazemos isso ou uma caminhada ou algo que nós dois gostemos todo o sábado. Talvez por isso eu seja a pessoa mais próxima dele aqui em casa. Mas, meu pai destruiu os planos deixando avisado que todos os homens da família ajudariam a descarregar os móveis.
Heloísa correu para o celular e começou a chorar com suas “migas” que ficaram na antiga cidade.
Então, para mim, sobrou ir me divertir e conhecer o lugar só. No início fiquei com medo de me perder, mas depois da décima quinta vota em torno da mesma rua, achei que podia descer um, dois, três quarteirões...
E foi assim que me perdi! Eu era uma menina de dezesseis anos com uma bicicleta branca, um capacete rosa (blah) e totalmente perdida. Pensei em perguntar para alguém onde ficava minha casa, mas, eu nem sabia o nome da minha rua.
Foi quando decidi ligar para meu pai pelo orelhão, (já que Heloísa sempre pega meu celular quando o dela descarrega), que ouvi uma voz comum:
–Hey, Allie! –Esqueci-me desse meu apelido- É você mesmo?
Só existem duas pessoas que me chamam assim no mundo inteiro. Virei para trás e vi meu primo Hugo Theodoro acompanhado de sua irmã Jaqueline e mais duas pessoas:
–Oi Theo... –Sorri sem graça.
Na verdade, não é que eles sejam meus primos... Nossas famílias se conhecem desde o século I, então, nossos pais cismam que temos que ser amigos... Eu até que tento, mas os dois são... Não fazem muito meu tipo de pessoa.
–Que surpresa Allie! –Jaque bateu sua mão nas minhas costas.
–É... –Revirei os olhos.
–Esse daqui é o meu amigo Oliver.
Eu olhei o rapaz por dois pequenos segundos. Ele tinha um cabelo meio amarelado arrepiado e olhos um pouco verdes. Ele era lindo. Não que eu seja de ter esse tipo de pensamento, mas ele era mesmo lindo.
–Pode me chamar de Ollie. –Disse o mesmo.
Eu o cumprimentei, boquiaberta e logo, uma garota me tirou do transe:
–Eu sou a namorada dele –ela o beijou na bochecha- pode me chamar de Paty, mas meu nome é Patrícia.
–Patrícia... –Sorri.
Ela era loira, usava muita maquiagem e tinha as unhas pintadas. Seus olhos mais esverdeados do que o dele, pareciam lentes... Uma típica patricinha.
–O que você tá fazendo aqui? –Perguntou Theo. –Vai passar o aniversário com a gente?
–Ah... Não... É que... Eu me mudei... E estou meio perdida... –Sorri novamente.
–Dá para perceber, né querida? –Cortou Paty – Uma menina andando de bicicleta... De onde você vem meninos brincam de boneca?
Eu a olhei com veneno, mas antes de responder grosseiramente, Oliver pigarreou:
–Que isso Paty? –Ele a olhou bravo.
–Ai amor... –Ela jogou o cabelo para trás – Só estou ajudando a menina.
–Eu tenho nome. –Respondi imediatamente.
–Que bom né miga? –Ela riu como deboche.
–E não sou sua amiga. –Sorri dando o “golpe final”.
O clima ficou tenso. A tal da Paty me olhou com reprovação e depois para meus primos:
–Ah, você que pediu Paty. –Avisou Theo, me defendendo.
A garota arrumou o cabelo de novo, virou para trás e saiu rebolando, irritada. Ollie balançou a cabeça negativamente e Jaque mudou de assunto:
–Onde você tá morando agora?
–Se eu soubesse não estaria perdida. –Ri um pouco, ainda sendo grosseira.
Nós fomos caminhando e conversando sobre onde eu ia estudar e descobri que erámos todos na mesma escola. Eles me mostraram bastante coisa, não só sobre a escola, sobre toda a região. E, logo, chegamos a uma rua familiar para mim, afinal eu não estava tão distante de casa. Foi assim que eu descobrir que Oliver é meu vizinho.
Assim que minha irmã me viu correu até mim:
–Ai! Onde você estava Anne? –Ela tentou fingir preocupação.
–Andando de bici... –Fui interrompida pelos gritos eufóricos dela ao reconhecer nossos primos.
Loísa abraçou Jaque e as duas começaram a conversar sobre o lugar novo, enquanto minha prima a apresentava a região; para minha irmã havia sido uma dificuldade tamanha se mudar. Theo foi correndo ajudar meus pais e Lorenzo com as caixas, me deixando a sós com Oliver.
–Hoje é seu aniversário? –Ele sorriu sem graça.
–É sim...
–Parabéns.
Confirmei coma cabeça e ficamos nos olhando por um tempo. Eu guardei a bicicleta e ele continuou me acompanhando, depois paramos na frente de nossas casas:
–Então... Anne Allie? –Perguntou ele confuso e me fez lembrar que eu não havia lhe dito meu nome.
–Ah, não! Annie – dei destaque para o “i” – Allícia Laurent.
–Annie... –Ele sorriu – Um belo nome. Acho que vai ser o da minha filha quando eu tiver uma.
–Não faça isso com ela –Sorri – deixe logo de Anne ou Ana. –E nós dois rimos.
–Eu sou Oliver Henry Amel. Odeio esse sobrenome: Amel...
–Você teria mais motivos para odiar se fosse “Amélia”. Oliver Amélia. –Ele confirmou com a cabeça.
–Eu vou entrar. –Oliver avisou apontando para a própria casa – Quer vir também?
Gelei. Mal conhecia o guri e ele queria que eu o visitasse?
–Ah... Não, não. Obrigada, eu estou bem.
Ele acenou e adentrou a própria casa. Eu fui ajudar minha família a terminar de descarregar as coisas. Por mim, tudo seria perfeito assim: somente eu, Lorenzo, Wall e meus pais, talvez Theo. Por falar em Wall, o gatinho estava escondido em uma das caixas, parecia assustado. Não sou de achar tudo “mega-fofis” (como diz minha irmã) , mas aquilo foi bonitinho.
***
–Finalmente! –Gritou mamãe cansada – Acabamos. Quem ai quer uma pizza de comemoração?
Minha mãe estudou culinária quando era jovem. Culinária e biologia. Por isso mesmo ela que fazia nossas pizzas, ou sobremesas ou qualquer outra comida. Nossas refeições eram sempre ótimas.
–Eu quero! –Avisei contente pela proposta.
–Eu também. –Confirmou meu pai.
–Ah, eu vou ter que recusar. –Declarou Theodoro – Minha mãe está me esperando.
–Dê boa noite para ela. –Sorriu minha mãe.
–Com toda certeza! –Ele avisou voltando para casa.
Olhamos para Lorenzo que apenas balançou a cabeça e adentrou em sue quarto. Nossa nova morada era grande e tinha três andares. Um era o primeiro, o outro o segundo e o último a mansarda. Pedi para meu quarto ficar na mansarda, era um lugar aconchegante, só tinha um cômodo então, dava a impressão de ser totalmente meu. A janela mostraria a lua quando a mesma aparecesse e ninguém precisaria entrar lá, nunca. Como dá janela era totalmente possível ir para o teto, seria perfeito para mim e Wall.
Lorenzo ficou com um quarto no segundo andar, ao lado do quarto de Heloísa e meus pais preferiram no primeiro andar ao lado da cozinha. Havia três banheiros (todos os quartos eram suítes com exceção do meu) e uma sala no segundo andar. E, sem querer ostentar, mas já ostentando, o escritório do meu pai ficou sendo o porão e sobrara um cômodo vazio. Minha mãe tratou de dizer que comeríamos nele, uma espécie de copa.
Você deve estar se perguntando da onde tiramos tanto dinheiro para comprar essa casa, mas na verdade, minha família sempre teve um padrão de vida classe média. Sempre estudei em escola particular, e já fui à Disney três vezes quando criança (aniversários de três, cinco e oito anos). Aos dez, fui para a Europa. E quando fiz quinze, mesmo contra gosto, recebi a maior festa de quinze anos que você pode imaginar. Limusine, vestido de rainha (princesa era pouco), todo mundo do quarteirão, etc. Infelizmente, para a Heloísa, meus pais não são uma fábrica de dinheiro e como gastaram muito na minha festa de quinze, eles tiveram que adiar a dela. Disseram que iriam fazer após a mudança, mas eu espero que nunca façam. E não sou só eu que tenho luxo entre os meus irmãos, Heloísa também foi para a Disney quando tinha dois, quatro e sete anos, e teve direito de levar alguém, foi para a Europa no de nove, teve dez festas no de dez, comemorou o de onze no Paraguai e usou o maior salão de festas da região entre seus doze e quatorze anos. Acontece que todos os aniversários da família acontecem no mesmo mês (pelo menos entre eu e os meus irmãos), então às vezes meus pais comemoram juntos. Já Lorenzo, não gosta muito de luxo, ele é a economia da família: meus pais sempre tentam me dar tudo, ainda eu não queria e Heloísa sempre pede algo a mais. Com Lorenzo tudo é diferente, se ele quisesse meus pais o dariam algo, mas ele se contenta em comemorar na sombra dos nossos aniversários. Se a Heloísa e eu ficássemos de castigo por um ano e não ganhássemos nada, ele acabaria não ganhando também.
Ultimamente, não é que o dinheiro esteja apertado, é que minha mãe ficou desempregada, ela pediu demissão e disse que vai ficar sem trabalhar por algum tempo, como umas férias não renumeradas, então, bancar essa casa, o dinheiro da nova escola, um aniversário de dezesseis para mim e uma festa de quinze anos tão ou mais grandiosa que a minha ficou impossível para meu pai. Resultado: nós nos mudamos, eu ainda estudo em particular, mas meu presente de aniversário ficou sendo essa nova casa e um gato. Enquanto Heloísa, bem, não teve jeito, ela vai tem que esperar.
Estou feliz com isso. Luxo nunca foi o meu forte, embora eu não vá mentir: amo muito tudo isso. Mas, ao contrário de minha irmã, posso viver sem. Nunca pedi para ir até a Europa ou ter festa na Disney, todavia, gostei disso ter acontecido.
Meu pai trabalha como advogado e é sócio de uma empresa não muito pequena, mas também não muito famosa. Ele passa quase todo o tempo trabalhando, por isso, quem nos educa mesmo é minha mãe, ela era até ano passado professora universitária de biologia. Meu pai disse que antes de eu nascer ela era cozinheira chefe em algum lugar por ai, mas como queria dar mais atenção para os filhos e sempre amou biologia, trocou de profissão.
Acho que quando eu tiver meus filhos vou tirar uma espécie de férias não renumeradas (para cuidar deles) quando ainda forem pequenos, seis, sete anos.
Enfim, o dia correu bem. O nosso jantar foi uma deliciosa pizza de brigadeiro com dezesseis velinhas. Acabou que Jaque jantou com a gente e me trouxe um presente em uma caixa, ela disse que não é para mima abrir até semana que vem. O primeiro pedaço (a pizza foi como um bolo) eu dei para minha mãe e o segundo para meu pai, o terceiro à Lorenzo e o quarto para Jaque, o quinto para Heloísa (blah) e o último para mim.
Foi tudo muito bem, e depois eu tive uma ótima noite de sono. Antes de deitar olhei para a janela, segurando Wall no colo: as estrelas eram lindas e a lua estava cheia. Eu conseguia ouvir risadas de Loísa conversando com suas amigas da outra cidade lá do meu quarto, mas tudo bem. Quem se deu mal foi Lorenzo que vai dormir do lado dela.
Na minha janela, eu podia ver o quarto de Oliver. Ele estava dormindo já. Fechei o vidro e uma das cortinas para não bloquear totalmente a luz da lua cheia, soltei Wall. Ele pulou com tudo na janela, e bateu no vidro, tive que rir.
–Besta. –Avisei abrindo o vidro.
Ele pulou de novo e conseguiu ir até o teto. Eu coloquei a caixa de presente embaixo de minha cama e fui dormir, sem o mínimo de curiosidade para saber o que era.
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