A primeira batalha entre eles aconteceu numa manhã de terça-feira, na Cafeteria Central da Fundação.

​Haddy estava sentada em uma mesa, com o visor tático sobre o olho esquerdo, os dedos dançando no ar enquanto ela depurava um código de segurança. Ela estava com uma farda de treinamento leve, com o zíper parcialmente aberto, e estava visivelmente exausta. Ela estava hackeando o sistema de ventilação da ala médica para esfriar o quarto do avô Richard, que estava com uma febre teimosa.

​Lucas, com o jaleco impecável, aproximou-se e colocou um prato com uma refeição equilibrada na mesa dela.

​— Especialista Hadassa — ele disse, a voz calma, mas com um toque de autoridade irritante. — No manual de ética médica, diz que um soldado exausto e com a farda em desordem é um perigo para si mesmo e para a missão. Coma. É uma ordem médica.

​Haddy sequer olhou para ele. O visor tático piscou com uma linha de código verde.

— Dr. Benevides. No manual de campo, diz que um médico que interrompe uma operação de infiltração cibernética é um obstáculo. Saia. É uma ordem de combate.

​Lucas soltou uma risada curta, irônica.

— Operação de infiltração? Você está em uma cafeteria, com a farda aberta e uma expressão de quem não dorme há três dias. Eu diagnostiquei a sua situação: você é mimada e acha que a tecnologia resolve tudo. O Legacy Lâfrer não se sustenta apenas com códigos, Especialista. Ele se sustenta com carne e osso saudáveis.

​Haddy finalmente tirou o visor tático, revelando os olhos cinzas — idênticos aos de Maya — faiscando de fúria.

— Você não sabe nada sobre o Legacy Lâfrer, Doutor. E você não sabe nada sobre mim. Eu acabei de estabilizar a temperatura da ala 4 sem sair desta cadeira. E eu posso fazer o mesmo com o seu ego inflamado se você não me deixar em paz.

​Nesse momento, Thomas e Maya passaram pela cafeteria. Thomas, vendo a cena, abriu um sorriso letal, o mesmo sorriso que Richard usava antes de um ataque.

​— Olha só, Sargento — Thomas sussurrou para Maya. — Acho que o Legacy Lâfrer acaba de encontrar um novo "médico prodígio" que não tem medo de um soco de esquerda da nossa filha.

​Maya soltou uma risada curta, o braço mecânico emitindo um zumbido sutil.

— É o feitiço contra o feiticeiro, Tenente. A Hadassa vai odiar saber que a neta encontrou alguém que usa a mesma ironia ácida dela. Isso vai ser divertido.

​Do lado de fora, Hadassa observava de longe, com uma xícara de chá nas mãos.

— Pobre rapaz — ela suspirou, com um sorriso de pura satisfação. — Ele não faz ideia do que significa ser um "paciente difícil" para uma mulher Lâfrer. Mas ele vai aprender rápido. E eu vou estar aqui para rir de cada momento.