A filha de ferro , Os Lâfrer

2 ​CAPÍTULO 2: Lama, Suor e Diagnósticos


Essa é a oportunidade perfeita para a Hadacsa mostrar que, apesar de "sussurrar para as máquinas", ela ainda carrega o sangue de guerreira da mãe e o rigor estratégico do avô.


​O campo de treinamento "Setor 7" estava um caos planejado. Sob um sol escaldante, Hadacsa caminhava entre os novos médicos recém-chegados, vestindo sua farda tática preta, as espadas cruzadas nas costas e o visor tático enviando dados constantes para o seu cérebro.

​Ela parou diante da fila de médicos que pareciam prontos para um congresso, não para um pântano. Seus olhos cinzas pousaram diretamente em Lucas Benevides, que mantinha a postura ereta, mas com um ar de "o que eu estou fazendo aqui?".

​— Bem-vindos ao mundo real, doutores — a voz de Hadacsa era um chicote. — Aqui, não temos ar-condicionado, não temos Wi-Fi de alta velocidade e, principalmente, não temos tempo para o seu ego. Eu sou a Especialista Hadacsa, e hoje eu vou ensinar a vocês como manter um soldado vivo enquanto o mundo explode ao redor.

​Lucas deu um passo à frente, com um sorriso de canto.

— Com todo respeito, Especialista, somos médicos formados. Sabemos tratar ferimentos. Talvez você devesse focar em nos mostrar onde fica o gerador, já que você gosta tanto de eletrônicos.

​Um murmúrio correu entre os médicos. Hadacsa sorriu — e quem conhecia Maya sabia que aquele sorriso era o sinal para correr.

​— Dr. Benevides, já que o senhor é tão autossuficiente, será o meu primeiro voluntário. Equipamento nas costas. Agora.

​Trinta minutos depois, Lucas estava enterrado até os joelhos em uma vala de lama, carregando um boneco de treinamento de 80kg que simulava um soldado ferido. Hadacsa caminhava secamente pela borda da vala, usando seu visor para ativar pequenos simuladores de explosão (bombas de fumaça e som) ao redor dele.

​— MAIS RÁPIDO, DOUTOR! — ela gritou. — O seu paciente está perdendo sangue por uma artéria femoral. Se você demorar mais dez segundos para estancar isso no meio do fogo cruzado, ele morre e a culpa é da sua "formação acadêmica"!

​Lucas tropeçou, caindo de cara na lama. Ele se levantou, cuspindo terra, os olhos castanhos queimando de indignação.

— Isso é ridículo! Isso não é medicina, é sadismo! Você está apenas descontando o que eu disse na cafeteria!

​Hadacsa saltou para dentro da vala, ficando a centímetros dele. A lama respingou em sua bota impecável, mas ela nem piscou.

​— Você acha que eu sou mimada, Lucas? — ela sibilou, a voz baixa e perigosa. — Esse "sadismo" salvou a vida do meu pai três vezes antes de eu nascer. Esse "sadismo" é o que separa um médico da Fundação Lâfrer de um médico de posto de saúde. Se você não consegue tratar um ferimento enquanto eu grito no seu ouvido e a lama entra nos seus olhos, você não serve para estar aqui.

​Ela se aproximou mais, e por um momento, o cheiro de pólvora e metal dela se misturou ao cheiro de sabonete hospitalar dele.

​— Agora, limpe o rosto, pegue o torniquete e prove que você é o médico que diz ser. Ou peça demissão e volte para a sua clínica limpinha.

​Lucas a encarou. O desprezo inicial começou a ser substituído por uma faísca de admiração teimosa. Ele não desviou o olhar.

​— Eu não vou a lugar nenhum, Especialista.

​Ele se virou, agarrou o boneco com uma força que nem ele sabia que tinha e começou a aplicar o procedimento de emergência sob a fumaça vermelha que Hadacsa disparou. Ela observou, em silêncio, o visor tático marcando os batimentos cardíacos de Lucas... que estavam tão acelerados quanto os dela.

​Lá do alto da torre de observação, Thomas e Richard observavam com binóculos.

​— Dez pratas em como ele não dura uma semana — Richard resmungou, embora estivesse rindo por dentro.

​— Eu aposto vinte em como eles se beijam antes do final do mês — Thomas rebateu, limpando o fuzil. — Ela é igualzinha à Maya. Só ataca quem ela realmente acha interessante.