A filha de ferro , Os Lâfrer
3 CAPÍTULO 3: Entre Destroços e Diamantes
O treinamento no Setor 7 foi interrompido não por um apito, mas por um estrondo natural. As chuvas torrenciais dos dias anteriores deixaram o solo da encosta instável. Enquanto Lucas terminava o procedimento no boneco, uma avalanche de lama e pedras desceu com fúria.
— HADACSA, CUIDADO! — Lucas gritou, largando tudo e correndo em direção a ela.
Hadacsa tentou se mover, mas seu visor tático sofreu uma interferência eletromagnética com o impacto de uma pedra em um gerador próximo. Por um segundo, ela ficou "cega" digitalmente. Foi o suficiente. A lama a atingiu, empurrando-a contra a parede de contenção e prendendo suas pernas sob uma viga de aço que cedeu.
O silêncio que se seguiu foi aterrorizante.
Lucas não hesitou. Ele escavou com as mãos nuas, ignorando as unhas quebradas e o cansaço. Quando finalmente removeu a lama do rosto dela, Hadacsa estava pálida, com a respiração curta.
— Minhas pernas... eu não sinto as minhas pernas, Lucas — ela sussurrou, a vulnerabilidade finalmente aparecendo.
— Calma, Haddy. Eu estou aqui. — Lucas usou o próprio jaleco para estancar um corte profundo no braço dela. Ele analisou a viga. Se a removesse de qualquer jeito, poderia causar uma hemorragia interna. — Eu vou precisar que você entre no sistema daquela escavadeira ali atrás. Consegue?
— Eu estou... com interferência... — ela gemia de dor.
Lucas segurou o rosto dela com as mãos sujas de barro, forçando-a a olhar nos olhos dele.
— Esqueça o visor. Use a sua mente. Você é uma Lâfrer, droga! Sussurre para aquela máquina como se sua vida dependesse disso, porque a minha depende de você sair daí!
Inspirada pela fúria e pela confiança dele, Hadacsa fechou os olhos. Uma veia saltou em sua têmpera. O braço mecânico da escavadeira soltou um estalo metálico e, lentamente, começou a se mover sozinho, levantando a viga. Lucas a puxou para fora segundos antes de um segundo deslizamento soterrar o local.
Ele a carregou nos braços até a enfermaria móvel, recusando a ajuda dos outros paramédicos.
— Eu cuido dela — ele disse, com um olhar que silenciou até os veteranos.
DUAS SEMANAS DEPOIS...
O clima era completamente diferente. A Fundação Cibernética Lâfrer brilhava sob luzes de cristal para o Baile de Gala Anual. Richard fizera questão da presença de todos: "Um soldado que não sabe usar um smoking não sabe honrar sua farda", ele dizia.
Lucas estava no saguão, vestindo um terno sob medida que realçava seus ombros largos, sentindo-se um peixe fora d'água. Ele procurava por uma soldado de farda e rabo de cavalo, mas o que viu o deixou paralisado.
Hadacsa descia a escadaria principal. Ela usava um vestido de seda verde-esmeralda, da cor de seus olhos quando estava calma. O vestido tinha uma fenda lateral profunda, revelando uma cicatriz fina na perna — sua "medalha" do deslizamento. Seus cabelos ruivos caíam em ondas perfeitas, e no lugar das espadas, ela carregava uma pequena bolsa de mão tecnológica.
Ela caminhou direto até Lucas. O silêncio ao redor deles era absoluto.
— O diagnóstico, Doutor? — ela perguntou, com um sorriso de canto que fez o coração de Lucas errar a batida.
Lucas levou um segundo para recuperar a voz. Ele pegou a mão dela e, pela primeira vez, não foi para medir o pulso, mas para beijá-la.
— O diagnóstico é que eu sou um homem morto. Porque depois de te ver assim, eu nunca mais vou conseguir prestar atenção em nenhum prontuário médico.
Hadacsa riu, uma risada suave que Lucas nunca tinha ouvido.
— Menos drama, Benevides. Eu ainda sou a mulher que te jogou na lama.
— E eu ainda sou o homem que te tirou de lá — ele respondeu, puxando-a para a pista de dança.
Enquanto dançavam, Hadacsa encostou a cabeça no ombro dele. Pelo visor tático, ela viu Thomas e Maya observando da varanda. Thomas fez um sinal de "joinha" e Maya apenas piscou, aprovando o "inimigo" que agora segurava sua filha com tanto cuidado.
— Lucas... — ela sussurrou. — Obrigada. Por não ter desistido de mim naquele dia.
— Eu nunca vou desistir de você, Hadacsa. Nem que eu tenha que enfrentar o seu avô, o seu pai e todos os robôs dessa fundação.
A música subiu, e ali, entre o luxo da festa e as memórias da lama, o novo capítulo do Legado de Vidro estava sendo escrito. Não com ordens de comando, mas com a batida de dois corações que finalmente encontraram o seu ritmo.
Fale com o autor